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Zizek - Violência redentora

Zizek - Violência redentora

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Violência redentora (trecho)
 
O que deve ser feito, portanto, não é proteger agressivamente a segurança de nossaEsfera, mas nos libertarmos da fantasia da Esfera
 – 
como?
Clube da Luta
, de DavidFincher (1999), um extraordinário feito de Hollywood, enfrenta esse impasse de frente.O herói insone do filme (magnificamente representado por Edward Norton) segue oconselho de seu médico e, para descobrir o que é o sofrimento de verdade, ingressa numgrupo de ajuda para vítimas de câncer nos testículos.[180] Ele logo descobre, no entanto, como tal prática de amor ao próximo se baseia numa posição subjetiva falsa (decompaixão voyeurista), e logo se envolve num exercício muito mais radical. Num voo,ele conhece Tyler (Brad Pitt), um carismático jovem que lhe mostra a futilidade de umavida de fracassos e vazia cultura consumista, e lhe oferece uma solução: por que elesnão lutam, socando um ao outro até se desmancharem? Gradualmente, todo ummovimento surge a partir dessa ideia: lutas de boxe secretas são organizadas tarde danoite nos porões de bares por todo o país. O movimento se politiza rapidamente,organizando atentados terrori
stas contra grandes corporações… No meio do filme há
uma cena quase insuportável, que remete aos momentos mais bizarros de David Lynch,e que serve de pista para o surpreendente desfecho do filme: para chantagear seu chefe para que este lhe pague um salário mesmo sem trabalhar, o narrador se joga de um lado para o outro no escritório do patrão, espancando-se até sair sangue, antes que osseguranças cheguem; portanto, na frente de seu perplexo chefe, o narrador inflige a simesmo a agressividade do chefe em
relação a ele. Depois, o narrador pondera: “Por 
alguma razão, pensei em minha primeira luta
 – 
 
com Tyler”. Essa primeira luta entre o
narrador e Tyler, que ocorre num estacionamento de um bar, é assistida por cinco jovensque riem e trocam olhares ao mesmo tempo assombrados e divertidos:
Como a luta é assistida por pessoas que não conhecem os participantes, somos levados acrer que o que vemos é o que eles veem: ou seja, uma luta entre dois homens. Só no finalnos é revelado que eles assistiam a um narrador que se atirava de um lado para o outro noestacionamento, batendo em si mesmo.[181] 
Perto do final do filme, ficamos sabendo que o narrador desconhecia que tinhavivido uma outra vida até que as evidências se tornam tão contundentes que ele não pode mais negar o fato: Tyler não existe fora de sua mente; quando outros personagensinteragem com ele, na verdade estão interagindo com o narrador, que assumiua
 persona
de Tyler. No entanto, é obviamente insuficiente interpretar a cena de Nortonse batendo na frente do chefe como uma indicação da não existência de Tyler 
 – 
o efeitoinsuportavelmente doloroso e desconcertante da cena aponta para o fato de que elerevela (encena) uma certa verdade fantasmática desautorizada. No romance no qual ofilme se baseia, essa cena está escrita como um diálogo entre o que realmente estáacontecendo (Norton se espanca na frente do chefe) e a fantasia de Norton (o chefe está batendo em Tyler):
 No escritório do sindicato dos projecionistas, Tyler riu depois que o presidente dosindicato deu-lhe um soco, que o derrubou da cadeira; ele sentou encostado à parede,rindo.
 
“Pode tentar, mas você não vai conseguir me matar”, ria Tyler. “Seu bosta. Pode me
encher de porra
da, mas não vai conseguir me matar.”
 
 
“Sou lixo”, disse Tyler. “Pra você e pra toda essa porra de mundo, eu sou um lixo, umamerda e um louco.”
 
 Sua excelência deu uma bica nos rins de Tyler depois de ele se enrolar até ficar igual auma bola, mas Tyler ainda ria.
“Põe pra fora”, disse Tyler. “Confie em mim. Você vai se sentir muito melhor. Vai sesentir ótimo.”
 
 Eu estava em pé à cabeceira da mesa do gerente quando então disse: O quê?Você não gosta
dessa
ideia?E, sem hesitar, ainda olhando para o gerente, fecho o punho no limite da força centrífugado meu braço e arranco sangue de uma casca de ferida no meu próprio nariz.
 O sangue suja o carpete; eu me levanto e deixo enormes manchas de sangue na borda damesa do gerente do hotel e digo: Por favor, me ajude; mas ao mesmo tempo dou umarisadinha.
 Você tem tanto, e eu, nada. Começo a escalar meu próprio sangue pelas calças riscadas degiz do gerente do Hotel Pressman, que se curva violentamente sobre o parapeito atrás desi; até mesmo seus lábios finos se afastam dos dentes.
 A luta corre solta, quando o gerente grita e tenta tirar suas mãos de mim, de meu sangue,de meu nariz arrebentado e daquela nojeira grudando no sangue de nós dois; e então, nonosso melhor momento, os seguranças resolvem entrar .[182] 
O que representa esse autoflagelo? À primeira vista, está claro que sua funçãofundamental é tentar restabelecer a ligação com o Outro real
 – 
suspender a abstração efrieza fundamentais da subjetividade capitalista, mais bem exemplificada pela imagemdo indivíduo monadário solitário, que, em frente da tela do computador, se comunicacom o mundo inteiro. Contrastando com a compaixão humanitária que nos permitemanter nossa distância do outro, a própria violência da luta sinaliza a abolição dessadistância. Ainda que essa estratégia seja arriscada e ambígua (pode facilmente regredir à protofascista lógica machista de aproximação masculina pela violência), deve-se correr esse risco
 – 
não há outro caminho direto para se sair da clausura da subjetividadecapitalista.A primeira lição de
Clube da Luta
é, portanto, que não podemos ir 
diretamente
dasubjetividade capitalista à subjetividade revolucionária: a abstração, a exclusão dosoutros, a cegueira ao sofrimento e à dor alheios, tem de ser quebrada primeiramentenum gesto de arriscar-se e estender a mão diretamente ao outro que sofre
 – 
um gestoque, esfacelando o próprio cerne de nossa identidade, não deixa de parecer extremamente violento. No entanto, há uma outra dimensão em jogo no
auto
flagelo: aidentificação escatológica (excremental) do sujeito, a qual equivale a adotar a posiçãodo proletário que não tem nada a perder. O sujeito puro surge apenas dessa experiênciade autodegradação radical, quando permito que o outro me encha de pancadas (ou o

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