uma colônia dentro da própria colônia de naturais do país de origem, com os quais pouco ouquase nada se misturavam.As minhas idéias e os meus princípios são inteiramente infensos a esse prurido denacionalização quê anda por aí, e do qual os "poveiros" foram vitimas, tanto mais que, nocaso desses homens, se trata de uma profissão humilde, tendo ligações muito tênues e remotascom a administração, a política e coisas militares do Brasil, não exigindo, portanto, o tal "fogosagrado do patriotismo", a fim de apurar-lhe o exercício, junto a excelentes vencimentos.A verdade, porém, deve ser dita; e não foi senão isto que fiz. A desorientação a esserespeito é tal que estamos vendo como essa questão se vai desdobrando em lamentáveisespetáculos de violências inauditas.O inspetor de pesca, a quem não atribuo móveis subalternos - longe de mim talcoisa! - não contente de exercer draconianamente as atribuições que as leis e os regulamentosconferem a seu cargo, sobre redes e outras coisas próprias ao ofício de pescar, meteu-setambém a querer regular o comércio do pescado. Com a sua educação militar, que só vêsolução para os problemas que a sociedade põe na violência, não trepidou em empregá-la,violando os mais elementares princípios constitucionais. Com auxílio da marinhagem docruzador sob seu comando e de sequazes paisanos, talvez mais brutais e ferozes do que as próprias praças de marinha, apesar de estarem habituadas estas, desde tenra idade, nas Escolasde Aprendizes, a ver, num oficial de marinha, um ente à parte, um semideus arquipoderoso,cujas ordens são ditames celestiais - com semelhante gente, violentamente, pôs-se a apreender as "marés" nas canoas de pescaria, para vendê-las ao preço que entendesse, deduzir percentagem arbitrariamente calculada, e, ainda por cima, a intimar os pescadores isolados ase matricularem em umas famosas colônias de pesca, improvisadas do pé para a mão.Tudo isto consta de jornais insuspeitos e não houve quem contestasse. Essasubversão das mais comezinhas garantias constitucionais, levada a efeito por um oficial que, por mais distinto que seja, não pode possuir autoridade para tanto, como ninguém a tem,leva-nos a pensar como as nossas instituições republicanas vão respondendo muito mal aosintuitos dos seus codificadores e legisladores.Seja qual for a emergência, pouco a pouco, não só nos Estados longínquos, atémesmo nos mais adiantados, e no próprio Rio de Janeiro, capital da República, a autoridademais modesta e mais transitória que seja procura abandonar os meios estabelecidos em lei erecorre à violência, ao chanfalho, ao chicote, ao cano de borracha, à solitária a pão e água, eoutros processos torquemadescos e otomanos.É o regímen de "villayet" turco em que estamos; é o governo de beis, paxás e cádis oque temos. Isto é um sintoma de moléstia generalizada. A época que atravessamos parece ser de loucura coletiva em toda a humanidade.Havia de parecer que a gente de juízo e de coração, com responsabilidade na direção política e administrativa dos povos, depois dessa chacina horrorosa e inútil que foi a guerra de1914, e das conseqüências de miséria, fome e doença que, acabada, acarretou ainda comocontrapeso procurasse afugentar, por todos os meios, dos seus países, os germens desseaterrador flagelo da guerra; entretanto não é assim. Em vez de propugnarem uma aproximaçãomais fraternal entre os povos do mundo, um mútuo, sincero e leal entendimento entre todoseles, como que timbram em mostrar desejarem mais guerra, pois estabelecem iníquas medidasfiscais que isolam os países uns dos outros; tentam instalar artificialmente indústrias que sósão possíveis em certas e determinadas regiões do globo, devido às condições naturais, e istoainda no fito de prescindirem da cooperação de outra nação qualquer, amiga ou inimiga; e - oque é pior - todos se armam até os dentes, mesmo à custa de empréstimos onerosíssimos ou dadepreciação das respectivas moedas, originada por emissões sucessivas e inúmeras, de papel-moeda. Estamos no tempo da cegueira e da violência.Max-Nordau, em artigo que uma revista desta cidade traduziu, cujo título é Loucura
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