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O ENSINO DAFILOSOFIADO DIREITO:HISTÓRIA, LEGISLAÇÃO E TRADIÇÃONACULTURAJURÍDICABRASILEIRA
E
DUARDO
C. B. B
ITTAR
(*)
SUMÁRIO
1.Introdução crítica ao tema de análise..............................................................................2.O surgimento histórico da filosofia do direito................................................................3.Aafirmação da filosofia do direito na história do ensino jurídico no Brasil................4.Afilosofia do direito na história da legislação de ensino no Brasil..............................5.Afilosofia do direito no currículo da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco(1891-1969).......................................................................................................................Conclusões...............................................................................................................................Bibliografia..............................................................................................................................
 Resumo:
Trata-se de compreender a construção da Filosofia do Direito como disciplinaautônoma, e de estudar o espaço da definição dos grandes momentos de organização da Filoso-fia do Direito como disciplina curricular dos cursos de Direito no Brasil.
 Résumé:
Il s´agit de comprendre la construction de la Philosophie du Droit comme disciplineautonome, et d´étudier l´espace de définition des grands moments d´organization de la P.D. commediscipline curriculaire des cours de Droit au Brésil.
Uni-termos
Filosofia do Direito — História da Filosofia do Direito — estudo da filosofia do direito —história da filosofia do direito
11
(*)Livre-Docente e Doutor, Professor Associado do Departamento de Filosofia e TeoriaGeral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São PauloProfessor de Filosofia do Direito da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Profes-sor e Pesquisador do Mestrado em Direitos Humanos do UniFIEO.Agradecimentos especiais são dedicados à equipe de funcionários da Biblioteca da Faculdadede Direito da Universidade de São Paulo, cuja colaboração permitiu o desenvolvimento a contentoda pesquisa para a elaboração da presente reflexão.
Págs.
12132124285253
 
12
1.INTRODUÇÃO CRÍTICAAO TEMADE ALISE
Afilosofia é um saber que comporta uma pergunta sobre seu próprio des-tino, seu próprio sentido, sua própria essência. Especialmente considerando queo espanto é a origem de todo o saber filosófico — "O espanto é, enquanto
 páthos,
a
arkhé 
da filosofia" —(
1
), não há que se espantar diante da necessidadede que o espanto se detenha até mesmo no estranhamento da existência da pró-pria filosofia. Não é sem sentido, portanto, o tipo de empreitada em que selançam os filósofos, num exercício não descabido de busca do porquê da pró-pria filosofia, o que acaba por redundar num estudo filosófico sobre a própria filo-sofia(
2
).Desta forma, há que se admitir a importância de se estudar o porquê da filo-sofia do direito, ou seja, o que é que justifica uma espécie de conhecimentoque se dedique a pensar, problematicamente, aquilo que se chama de 'Direito', já que este tipo de objeto pode ser extremamente convidativo a um tipo de aná-lise que se dedique a seus múltiplos problemas(
3
). Mais que isto, há que se admi-tir como cabível o tipo de questão que se debruça não somente sobre o problemada origem da filosofia do direito como saber autônomo, mas que se ocupa sobre-tudo de explorar o surgimento da própria prática da filosofia do direito noambiente acadêmico, ou seja, da filosofia do direito como um exercício curricularadmitido em meio a outros conteúdos programáticos, em meio a outras formasde conhecimento, em meio a uma dimensão de saberes reconhecidamente essen-ciais para a formação do bacharel em direito. Há que se perceber e fazer vir àtona o fato de que a filosofia do direito pertence à história(
4
), como qualqueroutro objeto, e, por isso, observar o fluxo e a historicidade desta marcha deconquista do espaço acadêmico da prática jusfilosófica parece, inclusive, escla-recer-nos muito a respeito do processo de afirmação da autonomia deste saber,do reconhecimento de sua importância, bem como do grau de institucionalidadea ele conferido em cada momento específico da própria história do ensino dodireito.
EDUARDO C. B. BITTAR
(
1
)Heidegger,
Que é isto — a filosofia?
, 1974, p. 219.(
2
)Neste sentido, o ensaio de Heidegger
Que é isto — a filosofia?
Acaba por ser umexemplo paradigmático sobre esta pergunta que se deita sobre as origens, o sentido e as perspectivasda atividade filosófica (Heidegger,
Que é isto — a filosofia?,
1974, p. 211-222).(
3
)Acompanho, neste sentido, a reflexão de José de Oliveira Ascensão: "O direito é reali-dade particularmente adequada a ser objecto da reflexão filosófica. Desde o início vemos osfilósofos debruçarem-se sobre temas jurídicos; não para conhecer o direito vigente, pois essa fun-ção é a da Ciência do Direito, mas para especular sobre os grandes problemas que a ordem jurí-dica levanta" (Ascensão,
O direito: introdução e teoria geral,
11.ª ed., 2003, p. 159).(
4
)Idem, p. 161.
 
13
Se isto serve como meta a esclarecer os destinos destes esforços de com-preensão do sentido da própria filosofia do direito, então, o exercício, ao finalda jornada, não terá sido em vão.
2.O SURGIMENTO HISTÓRICO DAFILOSOFIADO DIREITO
Afilosofia do direito é um saber que brota das práticas gerais da filosofia,ao modo da espécie que se revela a partir do gênero, em meio a um buliçosomovimento de aprofundamento do conhecimento e de especialização dos sabe-res no bojo da modernidade (século XVII). Alguns registros indicam mesmo suaidentidade promanando das obras de certos autores (Pufendorf, Grócio, Vittoriae Suárez)(
5
). Isto está indicar que a história anterior do conhecimento filosó-fico sobre o direito decorre da reflexão generalizada da própria filosofia, que,dentre outras questões, se ocupa também do problema da justiça, numa históriaque remonta aos primórdios da própria filosofia grega. Isto significa que nãosomente o conhecimento sobre o Direito não é uma exclusividade dos juristas,mas que, sobretudo, se trata de um conhecimento do qual a filosofia se aproprialivremente ao seu modo, ou seja, sem os cacoetes ou exigências técnicas do saber jurídico.Neste momento histórico, em plena marcha o processo de autonomização dopensamento, por obra e força do Renascimento, em meio às demais disciplinas jurídicas já existentes e tradicionais (Direito Canônico, Direito Romano, DireitoCivil), a disciplina que se haverá de identificar com problemas fundamentaisda ordem da reflexão (natureza humana, sociabilidade, extensão dos direitos)surge confundindo-se com todos os estudos da escola jusnaturalista(
6
) — seutítulo é correntemente, quando aparece,
 Direito Natural,
ou
 Direito Racional,
ou
Teoria do Direito Natural 
—, representando uma espécie de reflexão associadaa todos os problemas trazidos com a cultura da Europa expandida após a des-coberta das Américas, e que começava a ter de desafiar suas noções de espaço,
O ENSINO DAFILOSOFIADO DIREITO: HISTÓRIA, LEGISLAÇÃO E TRADIÇÃO NACULTURAJURÍDICABRASILEIRA
 
(
5
)Com Franco Montoro se pode ter clareza destes registros: "Pode-se dizer que a Filoso-fia do Direito, como ciência autônoma e fundada na razão natural, começou a se constituir a par-tir do século XVI, com Francisco de Vitória (1546), F. Suarez (1548-1617), e especialmente, comGrocio (1583-1645), autor da obra
 De iure belli ac pacis,
publicada em 1625" (Montoro,
 Estudosde Filosofia do Direito,
1999, p. 44).(
6
)"Essa autonomia do direito natural em face da moral e sua superioridade diante dodireito positivo marcou, propriamente, o início da filosofia do direito como disciplina autônoma.Isso foi assim até as primeiras décadas do século XIX. Depois, a disciplina sofre um declínio queacompanha o declínio da própria idéia de direito natural. No final deste século, a disciplina rea-parece, ganha força nas primeiras décadas do século XX" (Ferraz Junior,
 Introdução ao estudo dodireito,
3.ª ed., 2001, p. 168).
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