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1.INTRODUÇÃO CRÍTICAAO TEMADE ANÁLISE
Afilosofia é um saber que comporta uma pergunta sobre seu próprio des-tino, seu próprio sentido, sua própria essência. Especialmente considerando queo espanto é a origem de todo o saber filosófico — "O espanto é, enquanto
páthos,
a
arkhé
da filosofia" —(
1
), não há que se espantar diante da necessidadede que o espanto se detenha até mesmo no estranhamento da existência da pró-pria filosofia. Não é sem sentido, portanto, o tipo de empreitada em que selançam os filósofos, num exercício não descabido de busca do porquê da pró-pria filosofia, o que acaba por redundar num estudo filosófico sobre a própria filo-sofia(
2
).Desta forma, há que se admitir a importância de se estudar o porquê da filo-sofia do direito, ou seja, o que é que justifica uma espécie de conhecimentoque se dedique a pensar, problematicamente, aquilo que se chama de 'Direito', já que este tipo de objeto pode ser extremamente convidativo a um tipo de aná-lise que se dedique a seus múltiplos problemas(
3
). Mais que isto, há que se admi-tir como cabível o tipo de questão que se debruça não somente sobre o problemada origem da filosofia do direito como saber autônomo, mas que se ocupa sobre-tudo de explorar o surgimento da própria prática da filosofia do direito noambiente acadêmico, ou seja, da filosofia do direito como um exercício curricularadmitido em meio a outros conteúdos programáticos, em meio a outras formasde conhecimento, em meio a uma dimensão de saberes reconhecidamente essen-ciais para a formação do bacharel em direito. Há que se perceber e fazer vir àtona o fato de que a filosofia do direito pertence à história(
4
), como qualqueroutro objeto, e, por isso, observar o fluxo e a historicidade desta marcha deconquista do espaço acadêmico da prática jusfilosófica parece, inclusive, escla-recer-nos muito a respeito do processo de afirmação da autonomia deste saber,do reconhecimento de sua importância, bem como do grau de institucionalidadea ele conferido em cada momento específico da própria história do ensino dodireito.
EDUARDO C. B. BITTAR
(
1
)Heidegger,
Que é isto — a filosofia?
, 1974, p. 219.(
2
)Neste sentido, o ensaio de Heidegger
Que é isto — a filosofia?
Acaba por ser umexemplo paradigmático sobre esta pergunta que se deita sobre as origens, o sentido e as perspectivasda atividade filosófica (Heidegger,
Que é isto — a filosofia?,
1974, p. 211-222).(
3
)Acompanho, neste sentido, a reflexão de José de Oliveira Ascensão: "O direito é reali-dade particularmente adequada a ser objecto da reflexão filosófica. Desde o início vemos osfilósofos debruçarem-se sobre temas jurídicos; não para conhecer o direito vigente, pois essa fun-ção é a da Ciência do Direito, mas para especular sobre os grandes problemas que a ordem jurí-dica levanta" (Ascensão,
O direito: introdução e teoria geral,
11.ª ed., 2003, p. 159).(
4
)Idem, p. 161.
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