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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
 
Aires José ROVER, professor
 
http://infojur.ufsc.br/aires
 
RESUMO DE LIVRO
 
Matrix, bem vindo ao deserto do real
 
IRWIN, William. SP: Nadras, 2003.
 
Disciplina: Tecnologia e Direito
 
Curso de Pós-Graduação em Direito 2004/3
 
Resumo realizado por Carlos Fernando Coruja Agustini
 
1. Computadores, cavernas e oráculos: Neo e Sócrates
(William Irwin)
 
 Ao vislumbrarmos o céu, confundimos
 
Conhecimento com conhecimento
 
Flaminel
, personagem da peça
O Diabo Branco
,de
John Webster
 
Matrix traz à tela, na sua polissemia, algumas histórias. William Irwin, neste artigo,aponta a presença de uma clara imagem bíblica e compara a história de Neo à deSócrates, destacando várias semelhanças. O herói intelectual que paga com a vida a suapersistente busca é talvez a similitude maior.O oráculo, as consultas e a epígrafe comum entre o Templo de Delfos e a casa desubúrbio de Matrix, não deixam dúvidas sobre a pretensão dos irmãos Wachowski. Odiálogo entre o Oráculo e os tripulantes da nave Nabucodonosor é socrático. As respostassão elusivas e provocam mais dúvidas do que certezas. A sabedoria de Delfos pode sercaptada nos diálogos e nas imagens. Nada em excesso é uma das lições:
Pegue umbiscoito,
o Oráculo diz a Neo,
e não pegue alguns biscoitos
ou
 pegue quantos biscoitosseu coração desejar 
. Neo não é “o” Escolhido – ele tem que se tornar “O Escolhido”.Dependerá dele, e somente dele, esta transformação. Neo precisa auto-conhecer-se.
 
Irwin lembra outro grande momento da filosofia grega: o mito platônico da caverna.
 A prisão pra a mente
, citada por Morpheus no diálogo com Neo, é a imagem doprisioneiro da caverna platônico. Tanto na Matrix como na caverna os
 prisioneiros nãosabem que são prisioneiros e nem desconfiam que exista outra realidade além daquelaem que vivem. Um dia, porém, um deles é libertado das correntes e levado ao mundoexterior e, sob a luz do sol, vê as coisas como elas realmente são. Em vez deegoisticamente permanecer lá fora, o prisioneiro volta para contar aos outros, queretribuem seu gesto de bondade com zombarias e resistência, acreditando que ele ficoulouco
.Sócrates, professor de Platão, é a figura do prisioneiro que volta, é estigmatizadocomo louco e morre por não querer voltar ao mundo da ilusão. Há um paralelo com ahistória de Neo, que um dia se liberta de Matrix para vislumbrar “o deserto do real”. Afilosofia platônica do contraponto entre o conhecimento e a realidade, entre a matéria e aforma, a percepção pelo intelecto e pelos sentidos, perpassam por todo o filme.
Neotambém aprende que o intelecto é mais importante que os sentidos. A mente é maisimportante que a matéria. Quando a Platão, o físico não é tão real quanto a Forma; por isso, para Neo, “não existe colher”.
A forma – o ideal platônico – é representada pelo
déjà vu
. E o “déjà vu” 
não é evidência de uma falha na Matrix, e sim uma recordação
(anamnesis)
das Formas.
 
Ao escolher a pílula vermelha, Neo segue
o caminho menos percorrido
, o caminhoda audácia e da inconformação. Irwin lembra o poema de Robert Frost:
Escolhi ocaminho menos percorrido / E isso fez toda a diferença.
Escolher é o verbo predileto deMorpheus.
 
2. Ceticismo, moralidade e Matrix
(Gerald J. Erion e Barry Smith)
 
Ignorância é felicidade
.
Cypher
 
É melhor ser um humano insatisfeito do que um porco satisfeito; melhor ser Sócratesinsatisfeito do que um tolo satisfeito
.
Stuart Mill
 
 
 
Parece-lhe que você está agora sentado em uma cadeira, lendo este resumo. Vocêacredita nisso? Considera o fato verdadeiro?Vários céticos, ao longo da história da filosofia, criaram imagens e formularamargumentos para tentar responder ou, quem sabe, incrementar estas dúvidas. A obraclássica de Descartes,
Meditações sobre a filosofia primeira
, inicia com a formulação dahipótese de que um gênio maligno poderia estar criando todas as sensações e certezasque temos. A filosofia cartesiana recorre à figura da dúvida metódica para podermossaber o que realmente conhecemos. O demônio cartesiano poderia estar induzindo-nos aum sonho permanente e impossibilitados de distinguir entre a vigília e o sonho nãopoderíamos também separar o que é ou não real.Morpheus pergunta a Neo:
 Já teve um sonho, Neo, que você tinha certeza de queera real? E se você conseguisse acordar desse sonho? Como saberia a diferença entre osonho e o mundo real? 
Peter Unger e Hilary Putnam são outros autores que “inventam” argumentos queapontam para você possa estar em uma Matrix.Unger, em
Ignorance
(1975), sugere a possibilidade de estarmos sendo narcotizadospor um “cientista maligno”, um super neurologista que, através de um computador eeletrodos fixados ao nosso sistema nervoso central, cria em nossa mente, por exemplo, aidéia de que vimos um filme chamado Matrix.Putnam “imagina” os nossos cérebros separados cirurgicamente e soltos em barris,cheios de elementos químicos que os nutrem. Um poderoso computador enviariaimpulsos elétricos e produziria “as ilusões que sentimos”.
 
Muitos são os argumentos anticéticos. O filósofo Bernard Williams
acalma nossomedo de estarmos trancafiados perpetuamente num sonho-prisão do tipo
Matrix
 explicando que o próprio fato de estabelecermos uma distinção entre sonhos eexperiências em vigília pressupõe que estamos cientes dos dois tipos de experiência e dadiferença entre eles. Podemos falar sensatamente sobre a diferença entre as duas formasde experiência apenas porque
existe
uma diferença – e temos ciência dela. Como escreveWilliams, é só “da perspectiva da vigília que podemos explicar o sonho” (p.313).Portanto, só podemos fazer a distinção entre estar acordado e sonhar, se estivermosrealmente acordados às vezes; e já que
somos capazes
de distinguir entre os dois tiposde experiência, a conclusão é que não há um motivo sério para nos preocuparmos quenossas vidas sejam feitas inteiramente de seqüências oníricas intermináveis
 
(...).
 A hipótese de que existe um mundo externo... é tão obviamente útil e tãofirmemente confirmada pela experiência no decorrer das eras que podemos dizer, semexagero, que é a mais bem confirmada de todas as hipóteses empíricas. Tal posição é tãoútil que seria quase impossível, exceto para um louco ou um metafísico, achar uma razão para duvidar dela.
(Martim Gardner,
The whys of a philosophical scrivener 
[Nova York:Quill, 1983], p. 15, citado por Schick e Vaughn, p.87).A moralidade da escolha é salientada quando Cypher, cansado do mistério do mundoreal, faz o acordo com o agente Smith e opta por viver uma vida de prazer, mesmo queaparente, na Matrix. Robert Nozick, citado por Gerald Erion e Barry Smith, afirma que
aprendemos que algo importa para nós além da experiência, quando imaginamos umamaquina de experiência e depois percebemos que não a usaríamos.
Descobrimos quealguma coisa é importante, além do prazer, quando consideramos a decisão de Cypherimoral. A decisão de Neo, de enfrentar “o deserto do real” dá significado à sua vida e,portanto, um valor moral.
3.
A possibilidade de Matrix
 
(David Mitsuo Nixon)
 
Nixon faz algumas perguntas que, ao serem respondidas, ajudariam a encontrar aresposta de que se é possível a Matrix:
 
a) Mesmo se estivéssemos realmente na Matrix, que implicações aPossibilidade de
Matrix
tem para o que sabemos ou não sabemos? 
 
b) Como Neo fica sabendo se é que fica que estava na Matrix? 
 
c) A Possibilidade de
Matrix
faz sentido? 
Sabemos mesmo alguma coisa?
 
O ceticismo metodológico cartesiano e a sua brincadeira da possibilidade de umdemônio maldoso e astuto nos enganar cria, pelo menos, a possibilidade, e isto por si sópode produzir a dúvida sobre se realmente podemos ter qualquer conhecimento. EmboraDescartes não tenha visto o filme, as suas idéias são argumentos na direção dapossibilidade de estarmos todos flutuando em “um casulo de gosma cor-de-rosa”.A possibilidade de termos uma crença falsa, no dia-a-dia do “mundo real”, não nosimpede de chamarmos algo de conhecimento.
Por exemplo, estou em um ponto de
 
ônibus e alguém me pergunta: “Você sabe que horas são?” e olho para meu relógio erespondo: “Sim. São 12h30”. Eu reconheço a
possibilidade
de que meu relógio estejacom defeito, mas quando não estou usando meu relógio de filósofo, aquela possibilidadenão me impede de dizer que eu
sei
as horas. O que, afinal de contas, justifica que osfilósofos tenham padrões tão altos para o conhecimento – principalmente porque, assimque tiram o chapéu de filósofo, esses indivíduos nem sequer aderem a tais padrões? Aresposta adequada a alguém me dizer que minha crença
pode
estar errada é: “E daí?”.Não é a
possibilidade
que importa, e sim a
probabilidade.
Não estou mudando coisaalguma sobre aquilo que acredito ou penso que sei.
 
Nixon argumenta que a possibilidade de Matrix implica que não possuímos umsuperconhecimento,
mas isso não nos impede de ter tanto conhecimento comum quantoulgamos ter.
E que sobre este prisma, questionar se sabemos alguma coisa em relação àpossibilidade de Matrix é uma pergunta com pouco vigor. Para Nixon,
talvez isso sejabom.
 
Neo sabe que estava na Matrix?
 
Neo não pode acreditar na Matrix apenas em função do testemunho de Morpheus. Asua crença para ser verdadeira teria que ser justificada. Esta é a versão tradicional parao conhecimento. Ao tomar a pílula vermelha, e “vivenciar” uma situação, isto não lhepossibilita acreditar de pronto e Neo, a princípio, não acredita. A pílula vermelha poderiaser apenas uma potente droga alucinógena.
Sim, obviamente isso é possível. Mas nemtudo o que é
possível
é algo que tenhamos bons motivos para acreditar que é
real.
Novamente, o possível não deve nos desviar de uma discussão sobre o provável; pois sóaquilo que temos motivo para acreditar que é provável deve, de fato, ser acreditado.
 
Qualquer habilidade ou experiência que Neo utilize para avaliar se está ou não emMatrix pode ser enganosa, pois afinal as suas experiências foram adquiridas, caso eleesteja em Matrix, através de Matrix – e, portanto, devem ser descartadas.Nixon cita alguns exemplos de experiências comuns que aceitamos comoverdadeiras de pronto que Neo deveria descartar para aceitar a história de Matrix,contada por Morpheus:
a) As pessoas não mentem de modo geral; por isso, se alguém parece estar lhedizendo a verdade, você pode geralmente acreditar;
 
b) Se alguém parece estar falando inglês, provavelmente está;
 
c) Se você se lembra de ter feito alguma coisa, provavelmente fez;
 
d) (...), etc.
Enfim, ele não pode confiar em princípios porque não pode confiar em sua experiênciapassada e não pode confiar nas experiências atuais sem confiar nas passadas. Esta visãoé conhecida em epistemologia como holismo e diz que
nenhum pedaço de umaexperiência pode realizar qualquer trabalho justificativo sozinho, mas somente como parte de um conjunto interconectado muito maior de experiências e crenças.
E édefendida por teóricos como Quine, Davidson e Sellars. Neo, por esse raciocínio, nãosabe de fato, mesmo no sentido restrito do conhecimento comum (ver exemplo dorelógio, acima), que estava, mas não mais está em Matrix (o que o espectador do filme,sabe).
[1]
 
A possibilidade de Matrix ao menos faz sentido?
 
Nixon deixa claro que, ao questionar uma possibilidade coerente do sentido de Matrix,não está indicando pequenas inconsistências no enredo do filme.Se você está na Matrix, então muitas de suas crenças são falsas. Você podeacreditar que está lendo este resumo e na verdade está flutuando em casulo de gosma.Mas, é possível que todas ou quase todas as crenças de alguém sejam falsas? Se euafirmo que alguém tem muitas crenças falsas, devo compreender que esta pessoa temconceitos específicos que figuram nessa crença falsa. E significa também que devoatribuir a esta pessoa crenças que considero verdadeiras.
Só podemos ver sentido numa pessoa ter crença falsa se ela tiver outras crenças que consideramos verdadeiras. A idéiade alguém ter todas as crenças falsas só faz sentido quando não focalizamos todas ascrenças verdadeiras atribuídas à pessoa.
Nixon prossegue perguntando se esta linha de argumento consegue mostrar que apossibilidade de Matrix não é de fato uma possibilidade ou que não é inteligível. Eresponde ao seu próprio questionamento dizendo que não:
Pois mesmo que oscomputadores malignos da Matrix não consigam tornar todas as crenças falsas (pois, docontrário, não seriam reconhecíveis como crenças), ainda haveria muitas – talvez 
amaioria
– de suas crenças que poderiam ser falsas se você estivesse na Matrix. Portanto,afinal de contas, talvez tenhamos de reconhecer a inteligibilidade da Possibilidade de
Matrix.
Você realmente
poderia
estar na Matrix, e muitas de suas crenças
podem
ser falsas, mesmo que você tenha certeza de que nem todas elas sejam.
 4.
Ver, crer, tocar e a verdade
(
Carolyn Korsmeyer 
)
 
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