ônibus e alguém me pergunta: “Você sabe que horas são?” e olho para meu relógio erespondo: “Sim. São 12h30”. Eu reconheço a
possibilidade
de que meu relógio estejacom defeito, mas quando não estou usando meu relógio de filósofo, aquela possibilidadenão me impede de dizer que eu
sei
as horas. O que, afinal de contas, justifica que osfilósofos tenham padrões tão altos para o conhecimento – principalmente porque, assimque tiram o chapéu de filósofo, esses indivíduos nem sequer aderem a tais padrões? Aresposta adequada a alguém me dizer que minha crença
pode
estar errada é: “E daí?”.Não é a
possibilidade
que importa, e sim a
probabilidade.
Não estou mudando coisaalguma sobre aquilo que acredito ou penso que sei.
Nixon argumenta que a possibilidade de Matrix implica que não possuímos umsuperconhecimento,
mas isso não nos impede de ter tanto conhecimento comum quantoulgamos ter.
E que sobre este prisma, questionar se sabemos alguma coisa em relação àpossibilidade de Matrix é uma pergunta com pouco vigor. Para Nixon,
talvez isso sejabom.
Neo sabe que estava na Matrix?
Neo não pode acreditar na Matrix apenas em função do testemunho de Morpheus. Asua crença para ser verdadeira teria que ser justificada. Esta é a versão tradicional parao conhecimento. Ao tomar a pílula vermelha, e “vivenciar” uma situação, isto não lhepossibilita acreditar de pronto e Neo, a princípio, não acredita. A pílula vermelha poderiaser apenas uma potente droga alucinógena.
Sim, obviamente isso é possível. Mas nemtudo o que é
possível
é algo que tenhamos bons motivos para acreditar que é
real.
Novamente, o possível não deve nos desviar de uma discussão sobre o provável; pois sóaquilo que temos motivo para acreditar que é provável deve, de fato, ser acreditado.
Qualquer habilidade ou experiência que Neo utilize para avaliar se está ou não emMatrix pode ser enganosa, pois afinal as suas experiências foram adquiridas, caso eleesteja em Matrix, através de Matrix – e, portanto, devem ser descartadas.Nixon cita alguns exemplos de experiências comuns que aceitamos comoverdadeiras de pronto que Neo deveria descartar para aceitar a história de Matrix,contada por Morpheus:
a) As pessoas não mentem de modo geral; por isso, se alguém parece estar lhedizendo a verdade, você pode geralmente acreditar;
b) Se alguém parece estar falando inglês, provavelmente está;
c) Se você se lembra de ter feito alguma coisa, provavelmente fez;
d) (...), etc.
Enfim, ele não pode confiar em princípios porque não pode confiar em sua experiênciapassada e não pode confiar nas experiências atuais sem confiar nas passadas. Esta visãoé conhecida em epistemologia como holismo e diz que
nenhum pedaço de umaexperiência pode realizar qualquer trabalho justificativo sozinho, mas somente como parte de um conjunto interconectado muito maior de experiências e crenças.
E édefendida por teóricos como Quine, Davidson e Sellars. Neo, por esse raciocínio, nãosabe de fato, mesmo no sentido restrito do conhecimento comum (ver exemplo dorelógio, acima), que estava, mas não mais está em Matrix (o que o espectador do filme,sabe).
[1]
A possibilidade de Matrix ao menos faz sentido?
Nixon deixa claro que, ao questionar uma possibilidade coerente do sentido de Matrix,não está indicando pequenas inconsistências no enredo do filme.Se você está na Matrix, então muitas de suas crenças são falsas. Você podeacreditar que está lendo este resumo e na verdade está flutuando em casulo de gosma.Mas, é possível que todas ou quase todas as crenças de alguém sejam falsas? Se euafirmo que alguém tem muitas crenças falsas, devo compreender que esta pessoa temconceitos específicos que figuram nessa crença falsa. E significa também que devoatribuir a esta pessoa crenças que considero verdadeiras.
Só podemos ver sentido numa pessoa ter crença falsa se ela tiver outras crenças que consideramos verdadeiras. A idéiade alguém ter todas as crenças falsas só faz sentido quando não focalizamos todas ascrenças verdadeiras atribuídas à pessoa.
Nixon prossegue perguntando se esta linha de argumento consegue mostrar que apossibilidade de Matrix não é de fato uma possibilidade ou que não é inteligível. Eresponde ao seu próprio questionamento dizendo que não:
Pois mesmo que oscomputadores malignos da Matrix não consigam tornar todas as crenças falsas (pois, docontrário, não seriam reconhecíveis como crenças), ainda haveria muitas – talvez
amaioria
– de suas crenças que poderiam ser falsas se você estivesse na Matrix. Portanto,afinal de contas, talvez tenhamos de reconhecer a inteligibilidade da Possibilidade de
Matrix.
Você realmente
poderia
estar na Matrix, e muitas de suas crenças
podem
ser falsas, mesmo que você tenha certeza de que nem todas elas sejam.
4.
Ver, crer, tocar e a verdade
(
Carolyn Korsmeyer
)
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