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UM EXEMPLOdiscussão)
Prof. Eduardo MontagnariCONSIDERAÇÕES INICIAIS
Olhar não é ver 
(Bertolt Brecht /Galileu)Este texto é uma reflexão que parte da constatação de que toda obra literáriacontém dimensões sociológicas, políticas, filosóficas, religiosas, psicológicas ou outras,que para além do prazer estético podem servir a diferentes propósitos pedagógicos. Umacriação de natureza literária, seja no terreno da dramaturgia, do romance, da poesia, dacanção popular, expressa sempre uma determinada
visão de mundo
,
 
racionalizada,fantasiosa ou intuída que têm como substrato nossa existência, individual e conjunta,histórias de vidas coletivas, particulares e singulares... De um ponto de vista mais oumenos social e potico, a literatura é uma expreso estica das relações queestabelecemos entre nós e com o nosso entorno para formar isso que chamamos de
 sociedade
ou
cultura
. Trata-se de uma leitura sobre nós e para nós, que revelasentimentos individuais e conhecimentos gerais sobre a vida social em seus múltiplosaspectos... Por intermédio de seu ofício, um escritor, um poeta, um dramaturgo participada construção da realidade contando histórias, falando de gente, de coisas, revelandodramas, formalizando expressões e lembrando ou inventando lugares, personagens,situações e imaginando sonhos, para enaltecer atitudes, promover esperanças, denunciar injustiças, violências ou outras mazelas sociais...
 
Cabe lembrar, no entanto, que a utilização de textos literários (romances, peças teatrais, contos, poemas, crônicas, letras de canções populares), filmes, ou outras produções artísticas, como estratégia para a ilustração de aulas de sociologia, ou dasciências sociais em geral, é um recurso que precisa ser levado a termo com alguma preparação prévia. Não parece aconselhável recorrer a essas expressões pela simplesconstatação de que seus conteúdos servem para o debate de temas, conceitos e visões demundo. Estimular a reflexão sociológica a partir de expressões literárias – ou dasexpressões artísticas em geral - requer que possamos contar com informações queindiquem que essas expressões não aparecem no nada, do nada. É necessário levar emconta que alguém as criou em um determinado momento, num determinado contexto eque, portanto, são datadas ainda que possam não ter “endereço fixo”, como no caso dascriações coletivas ou populares (merecedoras de igual atenção e considerações iniciais).Criador, criadores, época, escolas, tendências etc. são dados que não podemser desprezados ainda que não constituam o objetivo central de um propósito específicoque é
ensinar sociologia
. Tais informações – no caso de obras de natureza literária -mesmo não se destinando ao aprofundamento de teorias literárias, dramáticas, estéticasenfim, e sendo apenas introdutórias, não deixam de ter importância, pois, ampliando onosso universo de compreensão da vida revelam o caráter interdisciplinar da produçãodo conhecimento demonstrando que a ciência não é o único promontório de onde se pode
ver 
,
ler 
,
 pensar 
e
discorrer 
sobre os múltiplos aspectos que conformam o mundoem que vivemos e ajudamos a construir (ou a destruir) coletiva e individualmente.
 
Uma literatura nasce sempre frente a uma realidadehistórica e, com freqüência, contra essa realidade
(Octavio Paz).Quem assistiu ou leu a
Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca
,imortalizada por Willian Shakespeare, sabe que ela se desencadeia em razão da mortedo rei, seu pai.Para o que nos interessa mais de perto, vale lembrar a
Cena II
onde “vemos”Hamlet instruindo o
 primeiro ator 
de uma companhia de atores itinerantes sobre comoestes devem atuar durante uma encenação contendo episódios que lembram o artifícioutilizado por seu tio Cláudio, agora casado com sua mãe, para eliminar seu pai e ficar com o trono da Dinamarca. Fato contado a Hamlet pelo espectro de seu próprio pai quelhe apareceu entre as muralhas do castelo para falar do triste episódio e pedir vingança.Revoltado, Hamlet resolve pedir que companhia teatral encene para seu tio Cláudio oassassinato de seu pai... Eis um fragmento do diálogo de
Hamlet
com o
primeiro ator
da companhia teatral: 
CENA II
(salão do castelo)
 Entram
Hamlet
e os atores
Hamlet
– 
 Dize, por favor, aquela tirada tal como a declamei, comdesembaraço e naturalidade, mas se gritares, como é hábito em muitos de teus atores,melhor seria que desse meu texto para que o pregoeiro público o apregoasse. Nemceifes muito o ar com a mão, deste jeito. Sê em tudo moderado, pois até no própriomeio da torrente, tempestade e, poderia dizer, torvelinho de tua paixão, deves manter emostrar aquela temperança que torna suave e elegante a expressão. Oh! Fere-me aalma ter que ouvir um robusto camarada com uma enorme peruca despedaçar uma paixão até convertê-la em frangalhos, em farrapos, fedendo os ouvidos do baixo povo oqual, na maior parte, se deixa comover, habitualmente, por incompreensíveis pantomima e barulhada. Gostaria bem de poder mandar açoitar esse energúmeno por exagerar o tipo de Termagante. É ser mais heroditas do que Herodes! Evita semelhantes exageros, por favor 
.
Primeiro ator
– 
 Prometo a Vossa Alteza
.
Hamlet
– 
 Nem tampouco sejas tímido demais;
que a ação responda à palavra e a palavra à ação, pondo especial cuidado em não ultrapassar oslimites da simplicidade da natureza, porque tudo o que a ela se opõe,afasta-se igualmente do próprio fim da arte dramática, cujo objetivo, tantoem sua origem como nos tempos que correm, foi e é o de apresentar, por assim dizer, um
espelho
à vida; mostrar á virtude suas próprias feições, aovício sua verdadeira imagem e a cada gerão sua fisionomia ecaracterísticas
1
...
1
O presente excerto diz respeito ao momento em que Hamlet recorre a uma companhia de atoresitinerantes para que representem para o público do castelo, em especial para o agora rei, seu tio, casadocom sua mãe, episódios semelhantes aos da morte de seu pai e que resulta no convencimento de Hamletde que seu tio é realmente o criminoso.
 Hamlet 
, príncipe da Dinamarca. CENA II. P. 571. Obra Completa.Volume I; Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1988.
2
 
As recomendações de Hamlet, reveladoras para quem se dedica ao estudo e a pratica da arte dramática, do ponto de vista histórico ou teórico (estético) e quefornecem a
visão
que Shakespeare tinha do teatro, ilustram um
 princípio explicativo
queserve tanto às obras dramáticas, quanto às obras literárias em geral que, de formarecorrente, são vistas como
 
espelhos da realidade
. Essa interpretação que
a literaturacomo um “reflexo da sociedade” compõe o que se convencionou designar 
teoria doreflexo
e agrupa algumas perspectivas.A primeira delas sugere que as narrativas ficcionais retratam experiênciassociais “verdadeiras”, ações de personagens que vivem
 
 problemas e que seus conflitosdizem respeito a uma coletividade que encontra na obra literária um
reflexo imediato domundo objetivo.
Citando Antônio Cândido, Sidney Gerônimo, que estudou a questão
2
, lembra uma segunda perspectiva que percebe a literatura como
um sistema que envolveos escritores, as obras literárias e o público leitor 
.
 
Ser político
 , o escritor se posiciona perante as questões de seu tempo. Sua obra materializa em linguagem artística uma forma particular de
ver 
e de dizer o mundo social.
Como esclarece o autor, desse pontode vista, compete aos leitores interpretar a visão de mundo do escritor no que dizrespeito às experiências de uma determinada sociedade, filtrada por seu olhar. A obraliterária não sendo um retrato objetivo e neutro da vida social se assemelharia assim àfotografia de um profissional que escolhe o ângulo e a impressão que deseja focar etransmitir. A arte funcionaria assim como um
reflexo
não da sociedade, mas
da visão demundo do artista
. Uma terceira perspectiva vê na criação cultural o resultado de umtrabalho coletivo. Valendo-se das reflexões de Lucien Goldmann, Gerônimo lembra que
a língua, os valores, as referências culturais que permeiam a obra literária não sãoinventados por um sujeito individual, pois são elementos exteriores ao indivíduo, nomesmo sentido que Durkheim define a exterioridade como um dos troscaracterísticos do fato social. Não obstante o trabalho de linguagem e o recortetemático que o escritor possa realizar, ele encontra o produto bruto ou a matéria de suaarte na sociedade. Nesse sentido, a literatura seria uma elaboração dos sujeitoscoletivos, não dos sujeitos individuais.
Considerando que a idéia de
reflexo
pressupõe a existência de uma realidadeexterior aprisionada pelo texto literário, o autor aponta que em todas essas três
concepções
subentende-se que existe uma verdade anterior ao discurso literário, a qualdeveria ser por este enunciada. Levando em conta que não há como negar que asociedade existe antes da literatura, mas que as imagens que traduzem a sociedade comfidelidade, sua identidade, vai além da idéia de
mero reflexo
, Gerônimo prefere pensar as obras literárias, não como
reflexo da sociedade
, mas
como discursos que participamda construção ficcional da realidade, que instauram formas de ver e de conhecer arealidade.
Desse ponto de vista
os discursos não refletem a realidade, mas participamde sua construção
. Para exemplificar essa abordagem, o autor fundamenta-se emFoucault salientando que quando muito, um discurso, qualquer que seja sua natureza, jornalística, religiosa, científica, filosófica produz “efeitos de verdade”. Como produtor de discursos sociais, o escritor ocupa um lugar privilegiado na sociedade, uma vez que“através de sua dizibilidade, (ele) institui visibilidades”:
através da arte do dizer eleapresenta formas de ver a “realidade”. O dito se torna visível, e o visível, quando subjetivado, produz efeitos de verdade. O enunciado artístico se transforma em dadoreal. Portanto a literatura interessa à sociologia como discurso que participa daconstrução ficcional da realidade social, ou das verdades sociais
.
2
 
Ver Sidney Meneses Gerônimo.
 Lavoura de delícias
: visibilidades de gênero nos romances de FranciscoJ. C. Dantas. Dissertação de Mestrado Universidade federal de Sergipe, 2008 (p. 21-22)
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