As recomendações de Hamlet, reveladoras para quem se dedica ao estudo e a pratica da arte dramática, do ponto de vista histórico ou teórico (estético) e quefornecem a
visão
que Shakespeare tinha do teatro, ilustram um
princípio explicativo
queserve tanto às obras dramáticas, quanto às obras literárias em geral que, de formarecorrente, são vistas como
espelhos da realidade
. Essa interpretação que
vê
a literaturacomo um “reflexo da sociedade” compõe o que se convencionou designar
teoria doreflexo
e agrupa algumas perspectivas.A primeira delas sugere que as narrativas ficcionais retratam experiênciassociais “verdadeiras”, ações de personagens que vivem
problemas e que seus conflitosdizem respeito a uma coletividade que encontra na obra literária um
reflexo imediato domundo objetivo.
Citando Antônio Cândido, Sidney Gerônimo, que estudou a questão
, lembra uma segunda perspectiva que percebe a literatura como
um sistema que envolveos escritores, as obras literárias e o público leitor
.
Ser político
, o escritor se posiciona perante as questões de seu tempo. Sua obra materializa em linguagem artística uma forma particular de
ver
e de dizer o mundo social.
Como esclarece o autor, desse pontode vista, compete aos leitores interpretar a visão de mundo do escritor no que dizrespeito às experiências de uma determinada sociedade, filtrada por seu olhar. A obraliterária não sendo um retrato objetivo e neutro da vida social se assemelharia assim àfotografia de um profissional que escolhe o ângulo e a impressão que deseja focar etransmitir. A arte funcionaria assim como um
reflexo
não da sociedade, mas
da visão demundo do artista
. Uma terceira perspectiva vê na criação cultural o resultado de umtrabalho coletivo. Valendo-se das reflexões de Lucien Goldmann, Gerônimo lembra que
a língua, os valores, as referências culturais que permeiam a obra literária não sãoinventados por um sujeito individual, pois são elementos exteriores ao indivíduo, nomesmo sentido que Durkheim define a exterioridade como um dos traçoscaracterísticos do fato social. Não obstante o trabalho de linguagem e o recortetemático que o escritor possa realizar, ele encontra o produto bruto ou a matéria de suaarte na sociedade. Nesse sentido, a literatura seria uma elaboração dos sujeitoscoletivos, não dos sujeitos individuais.
Considerando que a idéia de
reflexo
pressupõe a existência de uma realidadeexterior aprisionada pelo texto literário, o autor aponta que em todas essas três
concepções
subentende-se que existe uma verdade anterior ao discurso literário, a qualdeveria ser por este enunciada. Levando em conta que não há como negar que asociedade existe antes da literatura, mas que as imagens que traduzem a sociedade comfidelidade, sua identidade, vai além da idéia de
mero reflexo
, Gerônimo prefere pensar as obras literárias, não como
reflexo da sociedade
, mas
como discursos que participamda construção ficcional da realidade, que instauram formas de ver e de conhecer arealidade.
Desse ponto de vista
os discursos não refletem a realidade, mas participamde sua construção
. Para exemplificar essa abordagem, o autor fundamenta-se emFoucault salientando que quando muito, um discurso, qualquer que seja sua natureza, jornalística, religiosa, científica, filosófica produz “efeitos de verdade”. Como produtor de discursos sociais, o escritor ocupa um lugar privilegiado na sociedade, uma vez que“através de sua dizibilidade, (ele) institui visibilidades”:
através da arte do dizer eleapresenta formas de ver a “realidade”. O dito se torna visível, e o visível, quando subjetivado, produz efeitos de verdade. O enunciado artístico se transforma em dadoreal. Portanto a literatura interessa à sociologia como discurso que participa daconstrução ficcional da realidade social, ou das verdades sociais
.
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Ver Sidney Meneses Gerônimo.
Lavoura de delícias
: visibilidades de gênero nos romances de FranciscoJ. C. Dantas. Dissertação de Mestrado Universidade federal de Sergipe, 2008 (p. 21-22)
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