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A Peste
 Albert Camus
O Autor e sua Obra
Quando
o
 prémio Nobel de Literatura de 1957 foi concedido aoescritor francês Albert Camus, ele já era considerado um dosautores mais significativos e representativos de seu tempo. Issoapesar da pouca idade. Camus recebeu o prémio aos quarenta equatro anos, e, depois do poeta inglês Rudyard Kipling 
-
que oconquistou aos quarenta e dois anos -, era o mais jovem detentor do Nobel de literatura.Mas a idade pouco tinha a ver com a importância que Camusassumira gradativamente no panorama da cultura francesa. Como já acontecera outras vezes, o prémio o foi concedidoexclusivamente ao romancista, mas também ao pensador, aohomem preocupado com as angústias do século, o absurdo e odesespero que determinam o ato de existir, e decididamenteenvolvido na luta diária que tornava possível a esperança. Esperança que ele exerceu, com maior ou menor intensidade, por quarenta e sete anos, quando a morte o surpreendeu, a cemquilómetros de Paris. Uma câmara de ar estourada e o choquecontra uma árvore. Muitos se lembraram do que Camus pensava sobre a existência do homem e seu destino no universo, sem um sentido, tendo apenas o absurdo para explicá-la. A frança ficou deluto pelo desaparecimento de uma de suas consciências maishonestas, como destacou André Malraux, também escritor e entãoministro da Cultura: ”Há mais de vinte anos a obra de Albert Camus era inseparável da obsessão da justiça”. Há mais de vinte anos. . . Nascido em 1913, em Mondovi,departamento de Constantine, na Argélia, território francês quelutava por sua independência, filho de um operário, Camus teveuma infância difícil, entre duas culturas que seriam sempre cadavez mais antagónicas. Sua formação é francesa, seu compromisso écom os homens: ”Sou, antes de tudo, solidário do homem comum. Amanhã o mundo poderá romper-se em pedaços. Há uma lição deverdade nessa ameaça que paira sobre nossas cabeças”.Mecânico, professor primário, empregado no comércio, Camus publicaria seu primeiro livro em 1937, e no ano seguinte
 
ingressaria no jornalismo, duas grandes paixões. Atuando em Paris, abandonou o jornal em que trabalhava por uma cama maior,a resistência à barbárie que ocupava parte da França. Participanteativo da luta contra os alemães, não desdenhava de sua obraliterária. A ”Envers et endroit”, ”Núpcias” e ”O verão”
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os doisúltimos publicados pelo rculo do Livro
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 seguiam-se ”Oestrangeiro”
também
 publicado pelo Círculo
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e ”O mito deSísifo”, além das peças ”Lê malentendu” e ”Calígula”.
O
 jovemescritor expunha com uma lucidez dolorosa a precariedade dacondição humana, ainda que em ”O mito de Sísifo” propusesse: ”É  preciso imaginar Sísifo feliz”. Depois da libertação, com apenas trinta anos, ele se tornou o jornalista mais lido da França. Nas páginas do jornal ”Combat”,lutava para que não fossem esquecidas as lições da guerra, aindiferença. As lições foram esquecidas, Camus abandonou o jornalismo. ”A peste” data dessa época,1947, e reporta-se à experiência que ele desejava presente naconsciência dos franceses. Uma epidemia assola uma cidade, comoa ocupação nazista assolara a França. A epidemia cessa
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aocupação termina
-,
e a apatia que cercava a vontade humanadiante do elemento estranho volta a imperar. O livro foi um grande sucesso de livraria e se tornou uma obra clássica. Porém, ”A peste” seria também um passo decisivo no rompimentocom o existencialista Jean-Paul Sartre, de quem Camus seaproximara. Como seria ”O homem revoltado”. Ele preconizava arevolta individual e libertária, enquanto Sartre colocava oexistencialismo a servo do marxismo, Camus estava e preparava as últimas obras: ”Lê Minotaure ou La malte d’Oran”(1954), ”O exílio e o reino” e ”A queda” (1956), esta últimatambém publicada pelo Círculo. A lição para o futuro permaneceaquela que proferiu no Brasil, em 1949, numa frase:”Não poderemos ficar alheios e distraídos. Nem o momentocomporta atitudes de indiferença. Não durmamos, pois, que a paz será uma realidade, ela que, agora, não passa de uma promessa”.
 
A Peste
Os curiosos acontecimentos que são o objeto desta crónica ocorreram em 194..., .em Oran.Segundo a opinião geral, estavam deslocados, já que saíam um pouco do comum. À primeira vista, Oran é, na verdade, uma cidade comum e não passa de uma prefeiturafrancesa na costa argelina.A própria cidade, vamos admiti-lo, é feia. com seu aspecto tranqüilo, é preciso algumtempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todasas latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: umlugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pelaqualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios:é uma primavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casasmuito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então, só é possível viver à sombradas persianas fechadas. No outono, pelo contrário, é um dilúvio de lama. Os dias bonitos sóchegam no inverno.Uma forma cómoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como setrabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez por efeito doclima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético
e
distante. Quer dizer que as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito,mas apenas para enriquecer. Interessam-se principalmente pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, conforme sua própria expressão, em fazer negócios. Naturalmente,apreciam prazeres simples, gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muitosensatamente, porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando, nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro. À tarde, quando saem dosescritórios, reúnem-se auma hora fixa nos cafés, passeiam na mesma avenida ou instalam-se nas suas varandas. Osdesejos dos mais velhos não vão além das associações de
boulomanes’,
os banquetes das
amicales2
e os ambientes em que se aposta alto no jogo de cartas.Dirão sem dúvida que nada disso é característico de nossa cidade e que, em suma, todos osnossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, doque ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nascartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viver. Mas há cidades e paísesem que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista mais alguma coisa. Isso, emgeral, não lhes modifica a vida. Simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo.Oran, pelo contrário, é uma cidade aparentemente sem suspeitas, quer dizer, uma cidadeinteiramente moderna. Não é necessário, portanto, definir a maneira como se ama entre nós.Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar atode amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Isso tampouco é original. Em Oran,como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar semsaber.
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