PREFÁCIO À EDIÇÃO ORIGINAL
Habent sua fata libelli. Os maus livras também têm seu destino. A obra que estamos em vias deentregar ao público chocará, sem dúvida, aos leitores menos avisados. A crueza das cenas dedeboche e a violência dos ataques a todos os princípios da moral consagrada abalam mesmo aoespírito mais habituado a leitura fortes. A depravada orgia da imaginação do famigeradoMarquês é tamanha que ninguém o superou até agora e sua obra é, ainda hoje, o melhordocumento dos desvarios a que pode atingir a mente humana Nada ele respeita. A religião, amoral, os costumes, os mais puros sentimentos de família a amizade, os nobres impulsos docoração humano são vilipendiados por este espírito doentio e degenerado.Aqueles que tiveram oportunidade de se informar sobre a patologia do espírito humano, os quese interessam pelo estudo das anormalidades sexuais, não estranharão, evidentemente, estepesadelo monstruoso. Para estes, a presente obra valerá como um texto para estudo. Nenhumsexólogo, nenhum psiquiatra, poderá ignorar este documento. Aí está nossa justificação, aopublicá-lo.Ainda mais. Para os leitores e mesmo para os inexperientes, esta leitura, estamos certos, jamaisserá perniciosa. O espírito são repelirá sua brutal pornografia e sua álgida libidinagem. Quemdispuser de um sólido patrimônio moral repudiará, automaticamente, as elucubraçõesextravagantes e infantis do autor e, certamente, robustecerá suas crenças e seus princípios ante ainsanidade de seus cínicos argumentos. Aliás, para invocar ainda uma verdade consagrada: épreciso conhecer o mal para saber evitá-lo.Quem foi, entretanto, o Marquês de Sade?Donatien Alphonse de Sade nasceu em dois de junho de 1740. Contava quatro anos quando foiviverem companhia de sua avó em Avinhão. Três anos mais tarde, passou a morar com um tioque o educou até 1750, época em que foi enviado ao colégio Luis-le-Grand, em Paris. Ao sairdo colégio, ingressa na Cavalaria Ligeira. Chega logo a alferes do Regimento Real e em seguidaa capitão do 7° de Cavalaria, com o qual participa, na Alemanha, da Guerra dos Sete Anos.Regressa a Paris em 1763 e no mesmo ano se casa por imposição da família.Aqui começa o drama. Sade ama, na realidade, a irmã daquela que lhe destinam e seus futurossogros, percebendo isso, internam-na num convento. O casamento realiza-se, entretanto.Revoltado, Sade se entrega ao deboche - em companhia de conhecidos libertinos, como o Duquede Fronsac e o Príncipe de Lamballe. Em consequência, mas por motivo não perfeitamenteesclarecido, é preso e internado em Vincennes por dois meses. Até 1768 decorre sem novidadesua existência. É então que ocorre o célebre caso de Rosa Keller, prostituta ou simples mendigaque Sade sequestra numa sua propriedade e a quem sevicia, chegando mesmo a feri-la em váriaspartes do corpo com uma navalha.Segue-se outro período de tranquilidade até 1772: o Marquês vive em suas propriedades daProvença. Sua mulher vem reunir-se, então, a ele e comete a imprudência de trazer consigo airmã recém saída do convento. Sade não resiste. Faz a côrte à sua cunhada e como esta resista,embora o ame, engendra um estratagema para rendê-la. Em Marselha, acompanhado de seu fielcriado, compra uma caixa de bombons e neles mistura cantárida. Vai depois a um meretrício eserve as guloseimas às rameiras que, excitadas pela droga, entregam-se à maior orgia,promovendo grande escândalo. Era o que desejava. De posse de uma ordem de prisão que elemesmo faz questão de obter de um seu amigo membro da justiça, apresenta-se à sua cunhada edeclara-lhe que foi em consequência de sua recusa que praticou aquilo e que se submeterá aocastigo, ao suplício da roda, se ela não o acompanhar na fuga. Recolhe-se com ela em Florença,na Itália, e aí vive alguns anos. Com a morte de sua companheira volta para a França, onde é
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