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09.Filgueiras

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08/25/2013

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 BLOCO DE PODER DOMINANTE E VULNERABILIDADE EXTERNADAECONOMIA BRASILEIRA
Luiz Filgueiras*Bruno Pinheiro
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Resumo
Este artigo tem por objeto, e preocupação mais geral, a relação existente entre o atual bloco de poderdominante e a vulnerabilidade externa da economia brasileira, tal como esta se apresenta no âmbitodo modelo econômico liberal-periférico vigente no Brasil. O seu objetivo específico foi o de responderàs seguintes questões relacionadas: o conjunto das empresas estrangeiras, que operam no país, vemtendo a capacidade de gerar, através de suas exportações, o montante de dólares correspondentes àssuas remessas de lucros, dividendos e juros ao exterior? E, nessa medida, vem contribuindo para umamenor instabilidade da conta de transações correntes do balanço de pagamentos -com a concomitanteredução da vulnerabilidade externa da economia brasileira? As evidências encontradas sugerem queessas empresas, além de não terem conseguido mudar qualitativamente a inserção do país nocomércio internacional, são responsáveis por elevados, e crescentes, déficits da balança de serviços erendas do país. A conclusão específica é de que, no que se refere ao equilíbrio do balanço depagamentos, as suas remessas de lucros e dividendos passaram a ser mais preocupantes do que opagamento de juros. A conclusão geral é de que o equilíbrio da conta de transações correntes,conseguido nos últimos anos, é estruturalmente instável e que a vulnerabilidade externa da economiabrasileira ainda está longe de ser superada. Além disso, evidencia-se a existência de uma tensãopermanente (estrutural) entre as distintas frações do capital que são hegemônicas no interior do blocode poder, que decorre de interesses conflitantes e de diferentes formas de atuação, que impactam demodos diversos a vulnerabilidade externa do país.
 Abstract
This paper has for object, and more general concern, the existing relation between the current block inpower and the external vulnerability of the Brazilian economy, as this it presents in the scope of thecurrent effective economic model in Brazil. Its specific objective was to answer to the following relatedquestions: the whole of the foreign companies, who operate in the country, has the capacity togenerate, through its exportations, the sum of corresponding dollars to remittances of profits, sharesand interests to the exterior? And, in this measure, this foreign companies comes contributing for alesser instability of the account of current transactions of the balance of payments -with theconcomitant reduction of the external vulnerability of the Brazilian economy? The joined evidencessuggest that these companies, beyond not having obtained qualitatively to change the insertion of thecountry in the international trade, responsible for are raised, and increasing, deficits of the balance of service and incomes of the country. The specific conclusion is that, the equilibrium in the balance of payments, its remittances of profits and shares they had started to be more preoccupying of thepayment of interests. The general conclusion is that the equilibrium of the account of currenttransactions, obtained in recent years, is structurally unstable and that the external vulnerability of theBrazilian economy is far from being surpassed. Besides, has the existence of a permanent tension(structural) among the distinct fractions of the capital that are hegemonic in the interior of the block inpower, as a result of conflicting interests and different forms of performance, that impact in diverseways the external vulnerability of the country.
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Professor da Faculdade de Economia da UFBA. Doutor em Economia pela UNICAMP.
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Mestrando em Economia pela UFBA.
 
 Introdução
 Ao longo das duas últimas décadas, as transformações sócio-econômicas e técnico-produtivas ocorridasna economia brasileira, juntamente com a política econômica e social implementada pelo Estado,conferiram ao capitalismo brasileiro determinadas características estruturais que permitem oreconhecimento da vigência de um novo “modelo” ou “padrão” de desenvolvimento capitalista no país –aqui qualificado, conforme Filgueiras e Gonçalves (2007), como liberal-periférico
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“O modelo é liberal porque se estrutura a partir da liberalização das relações econômicas internacionais nas esferas comercial, produtiva, tecnológica e monetáriofinanceira; da implementação de reformas no âmbito do Estado (em especial na área da Previdência Social) e da privatização de empresas estatais, que implicam a reconfiguração da intervenção estatal na economia e na sociedade; e de um processo de desregulação do mercado de trabalho, que reforça a exploração da força de trabalho… O modelo é  periférico porque é uma forma específica de realização da doutrina neoliberal e da sua política econômica em um país que ocupa posição subalterna no sistema econômico internacional, ou seja, um país que não tem influência na arena internacional, ao mesmo tempo em que se caracteriza por significativa vulnerabilidade externa estrutural nas suas relações econômicas internacionais… Por fim, o modelo tem o capital financeiro e a lógica financeira como dominantes em sua dinâmica macroeconômica.” (FILGUEIRAS; GONÇALVES, 2007, p. 96).
Construído, progressivamente, a partir do Governo Collor, como uma resposta aos impasses doModelo de Substituição de Importações, a concepção e arquitetura desse novo modelo, como não poderiadeixar de ser, não surgiu pronta e acabada; ao contrário, ela é (e ainda está sendo) produto de umprocesso de redefinição da correlação de forças entre o capital e o trabalho e também entre as diversasfrações do capital, tanto no plano internacional quanto no âmbito interno.O resultado político maior desse processo foi a reconfiguração do bloco de poder dominante, coma redefinição dos papéis exercidos pelo Estado -na sociedade em geral, e na economia em particular. NoModelo de Substituição de Importações (MSI), a burguesia industrial detinha a hegemonia dentro daestrutura de dominação e o Estado tinha uma participação direta, e preponderante, na acumulação decapital. Já no Modelo Liberal Periférico (MLP), consolida-se a hegemonia do capital financeiro no interiordo bloco de poder dominante e a participação direta do Estado no processo de acumulação sofre umdeslocamento parcial, mas muito importante – que afeta qualitativamente, de forma crucial, a suarelevância nesse processo, em particular reduzindo significativamente a sua capacidade de orientação,indução e regulação.No plano internacional, a forma de inserção do país, durante a vigência do MSI, embora nãoimunizasse a economia às oscilações dos mercados internacionais (financeiros e de bens e serviços) –como ficou patente durante a própria crise desse modelo a partir dos anos 1980 –, moderava a suavulnerabilidade externa, ao reduzir os impactos macroeconômicos imediatos derivados de choquesexternos. De um lado, no âmbito comercial, havia uma relativa proteção ao mercado interno, com avigência de tarifas de importação bem mais elevadas que as atuais, bem como outros tipos de entravesnão-tarifários; além disso, as exportações representavam uma parte muito pequena do PIB. De outrolado, os mercados financeiros brasileiros não se encontravam estreitamente conectados com os mercadosfinanceiros internacionais; e a regulação da conta de capitais do balanço de pagamentos restringia osmovimentos do capital financeiro (nacional e estrangeiro). Como conseqüência, desse relativoinsulamento, o exercício da política econômica, em particular das políticas macroeconômicas, tinha umamaior margem de manobra. A abertura comercial-financeira a partir dos anos 1990, elemento constitutivo estrutural do MLP,significou a quebra desse relativo isolamento, com sérias implicações para a vulnerabilidade externa daeconomia brasileira e a condução da política econômica. Além da queda de barreiras tarifárias e não-tarifárias – com o aumento da participação das exportações/importações no PIB, verificou-se um processode desregulamentação da conta de capitais, com forte liberalização dos fluxos de capitais. Com isso, avulnerabilidade externa cresceu e a estabilidade/instabilidade macroeconômica passou a depender maisfortemente dos ciclos do comércio internacional e dos movimentos dos capitais financeiros; implicandotambém a redução do grau de liberdade para o exercício da política econômica. Adicionalmente, com a constituição do MLP, cresceu a participação do capital estrangeiro na
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Originalmente, essa qualificação do modelo, como tendo um caráter liberal-periférico, foi proposta por Boito (2004).
 
economia brasileira, aumentando a sua vulnerabilidade externa estrutural. O processo dedesnacionalização ocorrido, de uma estrutura produtiva que já era bastante internacionalizada, foiconcretizado inicialmente através das privatizações e, depois, por meio de fusões e aquisições. A suaconseqüência direta foi o aumento do passivo externo do país e, por decorrência, uma maior possibilidadede ocorrência de crises sistêmicas no balanço de pagamentos, pois a entrada de investimentosestrangeiros implica, como contrapartida, a necessidade de geração de divisas que viabilize remeter aoexterior os rendimentos obtidos por esses investimentos em moeda nacional (real).Na nova situação criada, a articulação dos interesses das distintas frações do capital conformouum bloco de poder que tem, além da já citada hegemonia do capital financeiro, a decisiva participação docapital estrangeiro e do capital exportador, em especial o seu segmento de
commodities 
(agrícolas eindustriais). A maior ou menor vulnerabilidade externa da economia brasileira passou a flutuar e adepender da atuação, e da forma de articulação, dessas distintas frações do capital – cujaunidade/contradição se expressa, no âmbito da política macroeconômica, na permanente tensão entre juros altos/câmbio valorizado. Por isso, torna-se fundamental conhecer, nessa nova realidade,o papel que esses capitais desempenham sobre os fluxos de comércio-financeiro do país, identificandonesse âmbito se o comportamento das empresas estrangeiras se diferencia do das empresas nacionais. Assim, o objetivo geral desse artigo é analisar como, dentro das características da estrutura edinâmica do MLP, os interesses dessas distintas frações do capital se articulam de forma contraditória; emparticular, evidenciando seus distintos lugares na reprodução/recriação da vulnerabilidade externa daeconomia brasileira. Para isso, observa-se a evolução do balanço de pagamentos, procurando-seidentificar os impactos das ações desses distintos capitais na estrutura e dinâmica do comérciointernacional do país (exportação/importação) e no comportamento dos fluxos financeiros registrados nabalança de renda e serviços e na conta de capitais.Especificamente, o artigo investiga se o conjunto das empresas estrangeiras presentes no Brasilconsegue gerar, através de suas exportações, o montante de dólares equivalentes às suas remessas (delucro e dividendos) ao exterior e ao pagamento de juros e, nessa medida, identifica se as suas operaçõescontribuem, ou não, para a redução da vulnerabilidade externa da economia brasileira. Em suma, o focoda investigação recai sobre o comportamento das empresas estrangeiras no que se refere a sua “auto-suficiência de recursos”, isto é, verifica qual a efetiva capacidade das mesmas em gerar os dólaresnecessários para fazer frente aos seus fluxos financeiros correntes. Além dessa Introdução, o artigo está estruturado em mais quatro seções. Na segunda, explicita-se: 1-a dinâmica e as características estruturais do MLP, destacandose a natureza de suas articulaçõesinternacionais e, por consequência, a forma como foi reposta a vulnerabilidade externa da economiabrasileira; e 2-o perfil do bloco de poder dominante e sua relação com a vulnerabilidade externa. Naterceira seção, discuti-se a abertura comercial-financeira própria do MLP, analisando-se como evoluiu e seencontra atualmente a estrutura do passivo externo brasileiro, contrapondo os fluxos de investimentosestrangeiros e as remessas de recursos enviadas ao exterior. Na quarta seção analisa-se a questão da “auto-suficiência de recursos”, ou seja, se as empresas estrangeiras geram os dólares necessários pararemeter seus recursos financeiros ao exterior. E, por fim, na conclusão, retoma-se a tese centraldefendida no artigo e apontam-se, de forma resumida, as suas consequências para a forma de articulaçãodas diversas frações do capital e a condução da política econômica.
2. Modelo Liberal Periférico: Estrutura e Dinâmica
O MLP, tal como identificado por Filgueiras e Gonçalves (op. cit.), é produto da ocorrência, a partir doinício dos anos 1990, de cinco grandes transformações estruturais inter-relacionadas, que o definemenquanto tal e condicionam a sua dinâmica macroeconômica, quais sejam:1-Uma inflexão na correlação de forças entre capital/trabalho a favor do primeiro, determinada porum processo acelerado de reestruturação produtiva que enfraqueceu os sindicatos e desestruturou o mercadode trabalho – implicando a elevação abrupta das taxas de desemprego e um processo generalizado deprecarização do trabalho.2-No âmbito do capital, uma reconfiguração das relações entre as suas diversas frações, com ofortalecimento do capital financeiro estrito senso, do capital estrangeiro e dos grupos econômicos nacionaisque se financeirizaram. Essa reconfiguração afetou, profundamente, a dinâmica macroeconômica e aestrutura do bloco de poder dominante.3-Um novo tipo de inserção internacional da economia brasileira (abertura comercial-financeira) quereafirmou a tradicional condição subalterna do país na divisão internacional do trabalho, mas que agravourelativamente a sua vulnerabilidade externa estrutural
2 
 – impactando assim, decisivamente, na dinâmica
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A “vulnerabilidade externa conjuntural é determinada pelas opções e custos do processo de ajuste externo. Avulnerabilidade externa conjuntural depende positivamente das opções disponíveis e negativamente dos custos do ajuste

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