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A INTRODUÇÃO DE GRAMSCI NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: ASPECTOS METODOLÓGICOS

A INTRODUÇÃO DE GRAMSCI NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: ASPECTOS METODOLÓGICOS

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Este artigo busca situar a introdução do
pensamento de Gramsci no debate teórico das
Relações Internacionais.
Este artigo busca situar a introdução do
pensamento de Gramsci no debate teórico das
Relações Internacionais.

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Published by: Fobomade Foro Boliviano on Aug 26, 2013
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A INTRODUÇÃO DE GRAMSCI NASRELAÇÕES INTERNACIONAIS: ASPECTOSMETODOLÓGICOS
 Ana Saggioro Garcia
RESUMO
Este artigo busca situar a introdução dopensamento de Gramsci no debate teórico dasRelações Internacionais. De forma sucinta,apresento aqui a entrada do pensamentogramsciano como crítica metodológica eepistemológica ao pensamento dominante nasteorias das Relações Internacionais, o(neo)realismo e o (neo)institucionalismo. Logo,discorrerei sobre alguns dos principais conceitostrazidos por Robert W. Cox - o conceito deestrutura, de agência ou sociedade civil e dehegemonia – e como eles se diferem das teoriasdominantes. Por m, trago alguns aspectos depensadores marxistas críticos aos gramscianos. Argumento que o debate ainda é útil e importantepara compreender as mudanças na atual fase daordem mundial.Palavras-chave: Gramsci, Cox, Hegemonia,Sociedade civil, Teoria das RelaçõesInternacionais
ABSTRACT
This article aims to situate the introduction of Gramsci's thoughts in the theoretical debate of International Relations. Briey, I present theentrance of Gramscian thought as amethodological and epistemological critique to thedominant theories of International Relations,namely (neo)realism and (neo)institutionalism.Thus, I discuss some of the major conceptsbrought by Robert W. Cox - the concept of structure, agency or civil society and hegemony -and how they differ from the dominant theories.Finally, I bring some aspects brought by marxists,that are critical to (neo)gramscians. I argue thatthe debate is still useful and important tounderstand changes in the current phase of theworld order.Keywords: Gramsci, Cox; Hegemony, CivilSociety, Theory of International Relations
1. INTRODUÇÃO
 Apesar de ter sido iniciado nos anos 1980, achamada “abordagem gramsciana” das RelaçõesInternacionais (RI) ainda é pouco conhecida forada disciplina, mesmo entre os diferentesestudiosos do pensador e militante comunistaitaliano. Socializar este antigo debate pode nosfornecer importantes ferramentas para reexãosobre a ordem mundial hoje. Nesse ensaio,discorrerei sobre a introdução de Gramsci comocrítica metodológica e epistemológica às teoriasdominantes nas Relações Internacionais, a saber,o realismo, neo-realismo e o institucionalismo,usando como exemplo alguns dos principaisconceitos das RI. Logo, apresentarei algumas dascríticas marxistas aos "gramscianos". Busco,aqui, simplicar a leitura teórica com o objetivo defacilitar a compreensão de alunos iniciantes nodebate teórico das Relações Internacionais, alémde atingir estudiosos e interessados de fora dadisciplina.
2. A ABORDAGEM GRAMSCIANA COMOMÉTODO EM RI/EPI
Gramsci "entra" nas Relações Internacionais ena Economia Política internacional (EPI)primeiramente como uma crítica metodológica eepistemológica às teorias positivistas, quepredominaram nessa área nos anos 1980,
ii
especialmente o neo-realismo. Em seu famosoartigo de 1981, “
Social forces, states and world orders
”, Robert W. Cox fez uma das maisinuentes críticas na disciplina, baseando-se naEscola de Frankfurt, ao dividir o campo teóricoentre "teorias de solução de problemas" e "teoriacrítica".
 
 A premissa que permeia a distinção é a deque "uma teoria é sempre para alguém e paraalgum propósito", ou seja, todas as teoriasadvêm de uma determinada perspectiva, quederiva de uma posição em tempo e espaço,especialmente tempo e espaço político e social. As "teorias de solução de problemas" têm um viésconservador. Elas elaboram, a partir devericações empíricas, mecanismos e princípios
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ISSN 2179-6165
 
para o melhor funcionamento das relações emuma estrutura previamente dada, que não équestionada. Metodologicamente, elas tentamexpressar variáveis livres de valor, ou seja,objetivas e distantes do sujeito que as analisa,operando dentro do viés positivista da ciência.
 
Esses mecanismos e princípios, detectados por elas em determinadas estruturas históricas,acabam perdendo sua contextualização emtempo e espaço.
 
Deste modo, são transformadosem tendências gerais do sistema internacional,que são repetidas/repetitivas, ou seja,observáveis e, mais importante,
 previsíveis
. Comisso, tomam uma forma de pensamento derivadade uma fase particular da história e assumemcomo universalmente válida. Essas teoriasbuscam solucionar problemas dentro dedeterminada ordem social e política que éconstante, não problematizando seu surgimentohistórico e, portanto, não contemplando umatransformação radical dela.
 
Em outras palavras,busca-se explicar acomodações e ajustes dentrode uma estrutura, e não sua transformação.Resulta que para essas teorias, que sãoperspectivas históricas e sociais, "o futuro serásempre como o passado”. Segundo Cox (1981),essas teorias interessam aos que se beneciamde determinada ordem, ou seja, aqueles quefalam desde o lócus de poder que, no século XX(ápice das Relações Internacionais comodisciplina acadêmica), foram os EUA.Quais são as "teorias de solução deproblemas"? Cox dirigiu-se especialmente aorealismo. Sua base losóca está em Maquiavel eHobbes, partindo, assim, do princípio de que anatureza humana é ruim e que a preocupaçãomais essencial do ser humano é sua segurança esobrevivência. O sistema de Estados seriaanálogo ao estado de natureza hobbesiano. Naleitura realista, os Estados são os únicos atoresrelevantes no sistema. Eles são “unidades”fechadas, coesas, com um “interesse nacional”.Os Estados agem como atores racionais,devendo o estadista agir livre de preceitos morais.O princípio da anarquia guia a vida internacional.Por que a anarquia? Porque Estados não abremmão de sua soberania, não havendo, portanto,nenhum poder acima deles. O duoanarquia/soberania são, assim, indissociáveis. Orealismo divide de forma rígida o “dentro” e o“fora” dos Estados: dentro rege a hierarquia (quegarante a paz), fora rege a anarquia, resultandona necessidade de segurança para asobrevivência.
 
 A anarquia torna-se um
constrangimento estrutural 
para todos osEstados, determinando as possibilidade derelações inter-nacionais.
 
Porque os Estadosconvivem num sistema anárquico, eles precisamacumular poder para sobreviver. A
 
natureza dosEstados e do sistema é conituosa.Conseqüentemente, o sistema é de auto-ajuda,pois cada Estado só se pode contar consigomesmo para sobreviver. O interesse nacional édenido em termos de poder: um Estado quer sempre acumular, demonstrar ou preservar poder. Nesse sistema anárquico, competitivo e deauto-ajuda, um Estado preocupa-se com seusganhos relativos frente aos outros. O poder de umé mensurado e controlado pelo aumento oudiminuição de poder do outro. Assim, a balança depoder torna-se um mecanismo automático dosistema. O pensamento realista das RelaçõesInternacionais é pautado pelas guerras mundiais,a guerra fria, a questão da bomba atômica e operigo de uma guerra nuclear. Ele explica deforma mais abrangente as questões desegurança internacional.Outra poderosa e inuente "teoria de soluçãode problemas" é o institucionalismo ou oliberalismo nas RI. Sua base losóca seencontra em Grotius (especialmente a noção deuma moral universal e de uma guerra justa),assim como em Kant (a idéia de que repúblicastendem a não fazer guerra transplanta-se para ade que democracias não fazem guerras comoutras democracias). Para os institucionalistas,apesar da anarquia, Estados cooperam uns comos outros. Em analogia aos indivíduos nopensamento liberal, aqui os Estados sãoracionais e egoístas, e calculam o custo-benefícioda cooperação para maximizar seus ganhos. Suapreocupação é com ganhos absolutos, e não maisrelativos. Os Estados estão em relação deinterdependência complexa com os demais, ouseja, existem sensibilidades e vulnerabilidadesmútuas e desiguais no sistema. Eles continuamsendo os principais atores no plano internacional,no entanto, há a interação com atores não-
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estatais (empresas, indivíduos, organismosinternacionais), que compõem essainterdependência complexa. Os Estados têmdiferentes preferências (interesses), sendo asegurança e a sobrevivência uma daspreferências, mas não a única (outras seriambem-estar econômico, status, etc.). Asinstituições jogam um papel fundamental no planointernacional. Elas facilitam a cooperação entreos Estados, porque provêem informação,diminuem os custos de barganha e negociação,estabelecem regras e normas que "aprisionam"(
lock-in
) as decisões tomadas, condicionandodecisões futuras e gerando, assim, estabilidade.Conseqüentemente, as instituições geram umadependência do caminho traçado (
 path
 
dependence
), proporcionando mais estabilidade.Elas intervêm no comportamento dos Estados, oque diferencia os institucionalistas dos realistas (emarxistas). Para esses, as instituições reetem opoder das potências. Elas só existem porque eenquanto o Estado mais poderoso tiver interesseem mantê-las, não alterando as relações de poder nem os interesses de um Estado. Já para osinstitucionalistas, as instituições não são simplesreexo dos mais poderosos no sistema, aocontrário, podem conter a política de poder através de normas e regras que são iguais paratodos, inclusive para as potências. O pensamentoinstitucionalista ganhou fôlego no nal da décadade 1960, início de 1970, com a crise nanceiramundial, o m do padrão dólar-ouro e o choque dopetróleo. Daí emerge a noção de"interdependência complexa", notoriamente navisão de pensadores situados nos paísescentrais, enquanto que, na periferia do sistema,no mesmo período, discutia-se a Teoria daDependência (e não uma "interdependência").Tanto o realismo quanto o institucionalismopassam por reformulações, incorporando oprexo "neo" ao seus nomes, convergindo, nonal dos anos 1970, no que cou chamado de"racionalismo". Eles aproximam-se ainda mais deuma metodologia positivista e empiricista,transferindo para o estudo da política mundialelementos da microeconomia e das ciênciasexatas. Se connaram em uma visão liberal daordem mundial, onde a economia dizia respeitoao mercado (e à esfera da sociedade civil), e apolítica ao Estado, justicando a não-intervençãodeste naquele. Waever (1996) chamou aconvergência desses dois paradigmas teóricosnos anos 1980 de “síntese neo-neo”, uma vezambos convergiam em um programa de pesquisaracionalista, uma concepção estreita de ciência,assumindo a premissa da anarquia no sistemainternacional, Estados como unidadesatomísticas e fechadas, discutindo entre siapenas sobre as possibilidades de cooperação ea importância de instituições. A convergênciaentre neo-realismo e neo-institucionalismo nocampo teórico "coincide" no nal dos 70/início dos80, com a convergência política entre Reagan,Thatcher e Xio-Ping
,
culminando na política e noideário neoliberal que veio a prosperar com o mda guerra fria.Nota-se a falta de um lugar relevante para omarxismo no debate teórico das RI. Ele é trazido"à rebarba" com as teorias do Imperialismo (que,além de uma análise de classes sociais, traz oEstado como ator central num sistemahierárquico, onde guerra é resultado decompetição inter-imperialista) e a Teoria deDependência (que baseia-se numa divisãointernacional do trabalho, onde odesenvolvimento do norte e subdesenvolvimentodas ex-colônias estão inter-ligados no sistema). Ambas, entretanto, não se restringem ao campodas RI, sendo transcendentes a diversas áreas deconhecimento e ação política. Posteriormente,passou-se a reconhecer as abordagens do"sistema-mundo" como uma perspectiva marxistae estruturalista na disciplina. Ela busca explicar ainterligação entre centro, semi-periferia e periferiaem uma única estrutura que é capitalista. Osistema de Estados moderno está estreitamentevinculado ao sistema capitalista, sendo umaestrutura histórica que, assim como as outras, éterminal e não eterna. Segundo Nogueira/Messari(2005), enquanto o pensamento de Lêninenfatizou aspectos temporais, entendo oimperialismo como um estágio na evolução docapitalismo, os teóricos "dependentistas"enfatizaram o aspecto espacial, baseando-se emuma divisão geográca no sistema. Os teóricosdo "sistema-mundo", por sua vez, buscaramcombinar a evolução histórica e deslocamentogeográco, enfatizando o deslocamento dos
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