/  5
 
40
»
noticiasmagazine
24.FEV.2008
41
»
noticiasmagazine
24.FEV.2008
ADOLESCENTES
adolescência
mundodaO estranho
Têm 14,15 anos.Já não são crianças,ainda não são adultos.Háneles «um profano desejo a crescer».
¬
Libertos da redoma sa-grada da infância,reféns de um ciclo lento,esperam.Que o ciclose cumpra.
¬
Que a maioridade chegue,para se verem livres dosconstrangimentos da adolescência.Para se verem livres.
¬
Mascrescer é para eles (como para os pais,a braços com novos desa-fios parentais) um processo longo.
¬
Um caminho feito de eta-pas e que se faz caminhando.
TEXTO
Sarah Adamopoulos
¬
FOTOGRAFIA
Pedro Azevedo
 
42
»
noticiasmagazine
24.FEV.2008
43
»
noticiasmagazine
24.FEV.2008
A
palavra é «reserva». Peranteum adulto, cautela. Sinto a reserva com que o rapaz, es-quivo, encara esta breve conversa. Reserva até em relação às coisas que parecem entu-siasmá-lo, como por exemplo a música, queprefere que seja 
rock.
Pergunto-lhe ainda as-sim de que forma é tocado pela música. «Al-gumas músicas gosto muito delas por causa do ritmo e da melodia, outras porque acho a letra interessante ou profunda. Gosto de le-tras de revolta, que falam por exemplo dasguerras que são organizadas por pessoas ri-cas, e as pobres não têm nada a dizer embo-ra sejam elas que sofrem.» Parece-lhe, do al-to ainda periclitante da sua recente tomada de consciência, que o estado do mundo é pe-rigoso e a vida das pessoas precária, sujeita a injustiças e arbitrariedades. Ousa já umdiscurso politizado: «As pessoas que pode-riam contribuir mais para melhorar o esta-do do mundo são as que têm poder, como ospolíticos. Mas infelizmente muitas vezesnão fazem nada. Por isso é preciso que cada pessoa possa contribuir para tentar melho-rar as coisas. Quando vou a andar na rua sin-to muitas injustiças, vejo muitos mendigos,pessoas sem nada, sem trabalho, sem casa, a dormir por aí, e isso revolta-me.»
Adultos irritantes
Talvez a outra palavra seja «revolta». Mas re-volta em relação a quê ou contra quem? «Àsvezes sinto-me muito revoltado, e irrito-me,por exemplo com os meus pais, e nem sequersei bem dizer porquê. Algumas vezes basta um pequeno comentário, que na altura meparece estúpido, para me irritar. Na escola há também alguns professores que me irritam,os que têm a mania de que são superiores a toda a gente, e sobretudo superiores aos alu-nos. Não aceitam os nossos pontos de vista,por vezes nem sequer querem ouvir a nossa opinião.» Pergunto se acha que há muitosadultos assim. Que sim, talvez porque, diz--me, queiram fazer passar a imagem de queestão certos ou que se sentem perfeitamen-te seguros do que pensam. «Os adultos, porexemplo na política, gostam de dar a impres-são de que a opinião deles não pode ser mu-dada e que acreditam mesmo no que dizem.»Irrita-o essa necessidade de coerência a toda a prova, esse muro erguido contra a dúvida.
Fazer escolhas
Stéphane nasceu em Lisboa, embora o paiseja francês e a mãe australiana. Frequenta o equivalente ao 10.º ano, na escola francesa de Lisboa, onde diariamente convive comoutros adolescentes nas mesmas circuns-tâncias: rapazes e raparigas oriundos de fa-mílias francófonas ou nas quais se optou pe-lo ensino bilingue francês-português. Para além das duas línguas com que trabalha na escola, Stéphane explica que no liceu fran-cês a carga horária é maior do que no siste-ma português. E assim será durante os doisanos lectivos que ainda tem pela frente, atéconcluir o equivalente ao 12.º ano. Diz-meque vai seguir Ciências, e explica que é «por-que no ensino francês é o que dá mais op-ções, o que limita menos. Pode fazer-se uma de três escolhas: Ciências, Línguas ou Eco-nomia. Mas se eu escolher Línguas, depoisnão posso fazer nada que tenha a ver comCiências. Escolhendo Ciências, depois pos-so, se quiser, fazer Línguas. Mas isso é só pa-ra o ano, porque no sistema francês só temosde fazer escolhas no 11.º ano.»
Viajar
No entanto, será talvez conveniente que co-mece a pensar nas escolhas que será obriga-do a fazer brevemente. Que sim, diz, «mas es-tou sempre a mudar de ideias... já quis ser as-tronauta, trabalhar com organizaçõeshumanitárias, ser piloto (aviação comercial,porque o exército não me interessa), ser ar-quitecto... Eu sei que são coisas muito dife-rentes entre si.» Pergunto se sente ou não a pressão dos adultos, e do próprio sistema deensino, no sentido de fazer uma escolha ine-quívoca. Que sim, que sente isso na escola, eaté um bocadinho em casa. «Mas continuo a achar que ainda tenho tempo. Mas sinto es-sa angústia por parte dos adultos e da socie-dade.» O certo é que parece movê-lo um de-sejo de viagem. «Se for arquitecto posso irconstruir casas para outros países, para luga-res onde as pessoas vivem na rua, porque nãotêm casas. Sim, quero viajar e ajudar pessoas.O que não quero é ficar sentado a uma secre-tária a assinar papéis. Isso é uma seca, seminteresse nenhum para mim.» Após o que de-saparece veloz, mal se despedindo, seguindopela rua como uma seta, provavelmentecheio de frio, porque numa tarde de engana-dor sol invernio vestiu apenas uma 
T-shirt.
«
Stéphane Ikor
15 anos
«Quando era criança parece-me que pensavamuito menos,estava demasiado ocupado comoutras coisas,a brincar,por exemplo.E não mezangava tanto com o meu irmão [
risos
].Nem comos meus pais ou os outros adultos.Às vezesparece-me que [os adultos] nos consideram comouma generalidade...como se para eles,depois dos13 anos,fôssemos todos iguais.Outra coisa queme irrita nos adultos é aquela coisa de estaremsempre a dar-nos a entender que sabemperfeitamente como nos sentimos porque jápassaram por isso.Fazem-nos sentir iguais a todaa gente,e isso é um pouco irritante.Sim,hámuitos
clichés
em relação à adolescência.»
Ana Filipa Oliveira
14 anos
«Quando era criança vivia naquela realidadeinfantil em que pensava que a minha mãe estariasempre lá para me dar tudo.Tem-me vindo asurpreender perceber tudo aquilo que tenhorealmente de fazer quando crescer:arranjardinheiro para pagar as contas,ter um emprego,ser responsável pela minha vida toda.Mas gostoda ideia de vir a ser independente,de ser maiorde idade,de um dia já não ser preciso ter de darconstantemente explicações sobre o que faço,onde ando,com quem,ter de chegar a casaàs tantas horas...»
Revolta
«Às vezes sinto-memuito revoltado enem sei bem dizerporquê.Às vezesbasta um pequenocomentário,que meparece estúpido,para me irritar.»
 
45
»
noticiasmagazine
24.FEV.2008
Adultos impreparadose frágeis
«Há muitos professores que não sabem lidarcom os alunos. Cheguei a ter alguns que ti-nham medo de nós. Há alunos que passam otempo a mandar piadas e depois as aulas tor-nam-se pesadas, os professores mandam-nos para a rua, há insultos, e os alunos vãopara casa dizer mal dos professores, e depoisos pais vão à escola defender os filhos... Masisto é tudo por causa dos maus comporta-mentos.» Ana pensa que os alunos malcom-portados são de todos os estratos sociais enão apenas dos mais baixos, onde se pensa que o défice de educação em casa determi-na os problemas comportamentais fora de-la. E também que esses alunos (tanto rapa-zes como raparigas) se comportam mal«apenas para se divertirem». Ana recorda uma professora que um dia desatou a cho-rar durante uma aula, a chorar de desespero,«porque nós a tratávamos muito mal, havia colegas meus que gozavam com ela, quemandavam piadas, e ela pura e simplesmen-te não conseguia dar a aula».
Ser contra
É algo que define a adolescência. Ser contra como forma de afirmação perante os adul-tos. Ser contra para não fazer o jogo dosadultos, para questioná-los, frequentemen-te agindo por oposição àqueles. Mas apesarde teoricamente sabermos que os confron-tos são inevitáveis, saudáveis e até desejá-veis, há por vezes a tendência de quereridentificar bodes expiatórios, culpados detudo o que corre menos bem entre adoles-centes e adultos. Muitos acusam: há qual-quer coisa que não está a funcionar nas esco-las. Ou será que é em casa que as coisas nãofuncionam? Os professores acusam os paisde não serem capazes de educar os filhos. Ospais acusam os professores de não teremformação pedagógica para lidar com os ado-lescentes – a quem os professores tantas ve-zes se referem ora como «os meninos» (in-fantilizando-os) ora como «os selvagens»(desconsiderando-os).Mas nem todos os professores são assim,havendo até alguns que Ana considera co-mo amigos e com quem «dá para mandarbocas uns aos outros e rir disso, e aí são boasaulas, com bom ambiente. Não sei se a nos-sa revolta é contra os pais e os professores...às vezes acho que é mais contra a escola,contra o Ministério da Educação, contra asregras que eles impõem e nós somos sim-plesmente obrigados a cumprir». Que re-gras? «As regras das escolas... acho uma estu-pidez haver duas alunas que se sentam nasescadas e chegar uma auxiliar aos berros a dizer que é proibido estar ali! Nós não está-vamos a fazer barulho! Estão sempre a refi-lar connosco!»
«
44
»
noticiasmagazine
24.FEV.2008
P
ara ir ganhando a confiança da mãe, Ana tem de dar provas dematuridade, como por exem-plo esforçar-se por chegar a casa mais cedo –mais cedo do que o que apetece, e se possívelaté do que o combinado com a mãe. A palavra aqui é «esforço». Esforço para ser capaz docompromisso necessário entre os desejos eas obrigações, os direitos e os deveres. Esfor-ço para conseguir «ser alguém na vida», ex-plica Ana, numa altura da vida a vários títu-los difícil para ela. Dificuldades para as quaiscontribuíram os maus resultados que obteveno final do primeiro período (Ana frequenta o 9.º ano numa escola secundária de Lisboa).E por isso «é preciso esforçar-me e estudarum pouco todos os dias», ouço-a dizer comose falando para si própria: «Nem que seja sen-tar-me e pegar numa caneta e escrever qual-quer coisa sobre a matéria.»
Ser capaz
Pressinto nela a angústia de poder vir a nãoser capaz de ser essa pessoa tornada «al-guém» por via dos sucessos que nos nossosdias conferem às pessoas as qualidades queas distinguem dos «ninguéns» desta vida.E confirmo as minhas suspeições: a Ana temreceios, sim, angústias talvez precoces, masque espelham a insegurança de uma socie-dade. Medo. «De poder vir a não ser capaz...às vezes vejo pessoas na rua que estão na mi-séria, e eu tenho medo de vir a ser uma de-las... não conseguir ter um emprego, nãoconseguir fazer os meus estudos, medo denão ter comida para alimentar os meus fi-lhos... A vida adulta é muito complicada... àsvezes é uma vida feliz, mas para isso é preci-so conseguir ter aquilo de que se precisa pa-ra se viver com dignidade.»
O espectro das escolhaspróximas
Sobre as possibilidades profissionais de fu-turo diz que tem várias ideias. «Há pessoasque dizem que eu tenho jeito para o desenhoe que devia ir para Artes Visuais, mas não seise é uma coisa para mim... quando era pe-quena dizia que gostava de trabalhar no Pin-go Doce... também gosto de estética... Achoque ainda é cedo para tomar essas decisões,nós aos 14 ou aos 15 anos ainda não temos es-sa capacidade para decidir. Nesta idade ain-da não há cabeça para isso, ainda não há ma-turidade.» E, no entanto, é nesta idade quelhes é pedido que comecem a pensar no quefarão proximamente, altura em que são ob-rigados a escolher – entre Ciências e Letras,por exemplo. A todos, claro, rapazes e rapa-rigas, indiferentemente. Apesar de eles se-rem reconhecidamente mais imaturos doque elas. «As raparigas são mais maduras, osrapazes ainda são muito crianças nesta ida-de. Por isso é que em geral os rapazes que nósescolhemos para namorar são quase sempremais velhos...»
Medo
«A vidaadulta é muito com-plicada.Às vezes éuma vida feliz,maspara isso é precisoconseguir ter aquilode que se precisapara se viver comdignidade.»
Diogo Casimiro
14 anos
«Com 14 anos posso fazer mais coisas do quequando tinha dez,mas também tenho maisobrigações,e mais deveres,há outras exigências,como por exemplo que eu estude.Antigamentetambém me exigiam isso,mas agora é mais asério,porque é o secundário,que é mais puxado.Há uma disciplina mais rígida.Exigem-me quechegue a casa a horas,para fazer os TPC.Se asnotas baixam,deixo logo de poder fazer certascoisas.A minha mãe quer que eu chegue a casa àscinco,e se eu chego às cinco e meia faz logo umfilme enorme e diz-me que nunca mais me deixasair.Não sei de que é que ela tem medo...Deve pensar que eu ainda sou uma criancinhapequena.Quando era pequeno,era exactamenteo contrário,“ah e tal já és crescido...”[
risos
].Em que é que ficamos?»

Share & Embed

More from this user

Add a Comment

Characters: ...