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24.FEV.2008
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A
palavra é «reserva». Peranteum adulto, cautela. Sinto a reserva com que o rapaz, es-quivo, encara esta breve conversa. Reserva até em relação às coisas que parecem entu-siasmá-lo, como por exemplo a música, queprefere que seja
rock.
Pergunto-lhe ainda as-sim de que forma é tocado pela música. «Al-gumas músicas gosto muito delas por causa do ritmo e da melodia, outras porque acho a letra interessante ou profunda. Gosto de le-tras de revolta, que falam por exemplo dasguerras que são organizadas por pessoas ri-cas, e as pobres não têm nada a dizer embo-ra sejam elas que sofrem.» Parece-lhe, do al-to ainda periclitante da sua recente tomada de consciência, que o estado do mundo é pe-rigoso e a vida das pessoas precária, sujeita a injustiças e arbitrariedades. Ousa já umdiscurso politizado: «As pessoas que pode-riam contribuir mais para melhorar o esta-do do mundo são as que têm poder, como ospolíticos. Mas infelizmente muitas vezesnão fazem nada. Por isso é preciso que cada pessoa possa contribuir para tentar melho-rar as coisas. Quando vou a andar na rua sin-to muitas injustiças, vejo muitos mendigos,pessoas sem nada, sem trabalho, sem casa, a dormir por aí, e isso revolta-me.»
Adultos irritantes
Talvez a outra palavra seja «revolta». Mas re-volta em relação a quê ou contra quem? «Àsvezes sinto-me muito revoltado, e irrito-me,por exemplo com os meus pais, e nem sequersei bem dizer porquê. Algumas vezes basta um pequeno comentário, que na altura meparece estúpido, para me irritar. Na escola há também alguns professores que me irritam,os que têm a mania de que são superiores a toda a gente, e sobretudo superiores aos alu-nos. Não aceitam os nossos pontos de vista,por vezes nem sequer querem ouvir a nossa opinião.» Pergunto se acha que há muitosadultos assim. Que sim, talvez porque, diz--me, queiram fazer passar a imagem de queestão certos ou que se sentem perfeitamen-te seguros do que pensam. «Os adultos, porexemplo na política, gostam de dar a impres-são de que a opinião deles não pode ser mu-dada e que acreditam mesmo no que dizem.»Irrita-o essa necessidade de coerência a toda a prova, esse muro erguido contra a dúvida.
Fazer escolhas
Stéphane nasceu em Lisboa, embora o paiseja francês e a mãe australiana. Frequenta o equivalente ao 10.º ano, na escola francesa de Lisboa, onde diariamente convive comoutros adolescentes nas mesmas circuns-tâncias: rapazes e raparigas oriundos de fa-mílias francófonas ou nas quais se optou pe-lo ensino bilingue francês-português. Para além das duas línguas com que trabalha na escola, Stéphane explica que no liceu fran-cês a carga horária é maior do que no siste-ma português. E assim será durante os doisanos lectivos que ainda tem pela frente, atéconcluir o equivalente ao 12.º ano. Diz-meque vai seguir Ciências, e explica que é «por-que no ensino francês é o que dá mais op-ções, o que limita menos. Pode fazer-se uma de três escolhas: Ciências, Línguas ou Eco-nomia. Mas se eu escolher Línguas, depoisnão posso fazer nada que tenha a ver comCiências. Escolhendo Ciências, depois pos-so, se quiser, fazer Línguas. Mas isso é só pa-ra o ano, porque no sistema francês só temosde fazer escolhas no 11.º ano.»
Viajar
No entanto, será talvez conveniente que co-mece a pensar nas escolhas que será obriga-do a fazer brevemente. Que sim, diz, «mas es-tou sempre a mudar de ideias... já quis ser as-tronauta, trabalhar com organizaçõeshumanitárias, ser piloto (aviação comercial,porque o exército não me interessa), ser ar-quitecto... Eu sei que são coisas muito dife-rentes entre si.» Pergunto se sente ou não a pressão dos adultos, e do próprio sistema deensino, no sentido de fazer uma escolha ine-quívoca. Que sim, que sente isso na escola, eaté um bocadinho em casa. «Mas continuo a achar que ainda tenho tempo. Mas sinto es-sa angústia por parte dos adultos e da socie-dade.» O certo é que parece movê-lo um de-sejo de viagem. «Se for arquitecto posso irconstruir casas para outros países, para luga-res onde as pessoas vivem na rua, porque nãotêm casas. Sim, quero viajar e ajudar pessoas.O que não quero é ficar sentado a uma secre-tária a assinar papéis. Isso é uma seca, seminteresse nenhum para mim.» Após o que de-saparece veloz, mal se despedindo, seguindopela rua como uma seta, provavelmentecheio de frio, porque numa tarde de engana-dor sol invernio vestiu apenas uma
T-shirt.
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Stéphane Ikor
15 anos
«Quando era criança parece-me que pensavamuito menos,estava demasiado ocupado comoutras coisas,a brincar,por exemplo.E não mezangava tanto com o meu irmão [
risos
].Nem comos meus pais ou os outros adultos.Às vezesparece-me que [os adultos] nos consideram comouma generalidade...como se para eles,depois dos13 anos,fôssemos todos iguais.Outra coisa queme irrita nos adultos é aquela coisa de estaremsempre a dar-nos a entender que sabemperfeitamente como nos sentimos porque jápassaram por isso.Fazem-nos sentir iguais a todaa gente,e isso é um pouco irritante.Sim,hámuitos
clichés
em relação à adolescência.»
Ana Filipa Oliveira
14 anos
«Quando era criança vivia naquela realidadeinfantil em que pensava que a minha mãe estariasempre lá para me dar tudo.Tem-me vindo asurpreender perceber tudo aquilo que tenhorealmente de fazer quando crescer:arranjardinheiro para pagar as contas,ter um emprego,ser responsável pela minha vida toda.Mas gostoda ideia de vir a ser independente,de ser maiorde idade,de um dia já não ser preciso ter de darconstantemente explicações sobre o que faço,onde ando,com quem,ter de chegar a casaàs tantas horas...»
Revolta
«Às vezes sinto-memuito revoltado enem sei bem dizerporquê.Às vezesbasta um pequenocomentário,que meparece estúpido,para me irritar.»
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