2 de 11e no da inserção aguerrida na luta anti-manicomial, como narra Silvia Lane (2003).Claramente, a psicologia social desdobra-se, desde uma práxis em defesa daemancipação humana via transformação social, para a própria revisão paradigmáticada ciência psicológica hegemônica, com sua suposta neutralidade política atada à justificação ideológica de um sujeito auto-constituído. Diante da Psicologia Social asdemais psicologias vêem-se convidadas a dobrar-se sobre elas mesmas, a olharem-se no espelho, são convidadas a refletir e refazer seu próprio lugar social. O pensar-fazer em Psicologia Social opera uma virada copernicana: a maioria das psicologiastem buscado compreender as relações sociais desde determinações individuais;trata-se, no entanto, de buscar compreender a composição da individualidade desdeas relações sociais, constituídas cultural e historicamente, em meio a lutas ealianças coletivas que constantemente refazem os cenários possíveis para a vidacotidiana e para constituição da consciência, da atividade e da afetividade humana.Tomar uma atitude sequer próxima a esta, diante do processo de formação depsicólogos seria nosso grande desafio e nossa maior virtude, caso viéssemos aefetivá-la. Desafio e virtude que já não cumpriremos aqui nem agora. Trata-se antesde começar a traçar um plano, de esboçar um projeto, de procurar definir um norte.Valemo-nos do verso de Karl Kraus citado por Benjamin: “A origem é alvo” (apudBENJAMIIN, 1986, p. 229). O qual interpretamos como relativo ao fato de que“iniciamos” não
a partir de
nós mesmos (mito da auto-gênese e da fundação), mas
em direção a
algo que está para além de nós, em direção a uma alteridade, postoque não nos esgotamos em nosso “ser” e só podemos definirmo-nos como tais emum constante “tornar-nos”. Não teria sido casual Marx ter dito que “A revoluçãosocial (...) não pode tirar sua poesia do passado, e sim do futuro” (1978, p. 331). Porcerto, em Benjamin, o passado é também fundamental mediante a memória e anarração, no que pode aparentemente contrastar com a citação de Marx a querecorremos. Mas ocorre que em Benjamin a memória não se direciona apenas aoresgate do passado, mas à libertação do futuro. De modo bem mais modesto,pretendemos pensar a formação extraindo sua poesia dos fins aos quais se volta,seu alvo, sua meta. E aqui nos dispomos a dialogar sobre duas destas metas:“responsabilidade ética” e “compromisso social”.Desde há muito sabemos que não há uma única psicologia, tampouco uma únicaciência. Nem mesmo, para sermos justos, uma única psicologia social. E ainda, seprosseguirmos nesta linha de raciocínio, sequer um mesmo autor será o mesmo emsuas diferentes obras. Numa dialética heraclítica dir-se-ia que “será e não será omesmo”. E isso nos é constitutivo, isto é imanente à nossa condição histórica: nãolhe é antinômico ou extrínseco. Sendo assim, ao falar de critérios, metas, alvos deformação para o psicólogo, ou melhor, para psicólogos (todos eles tão distintos,singulares, inigualáveis), não deixaremos de nos deparar com uma questão similar eindispensável: há muitos modos de se dar significado para palavras como“formação”, “compromisso”, “responsabilidade”. Há contendas ao redor delas paradizer de qual o significado mais apropriado, há confrontos e alianças dentro delas,constituindo seu sentido mais vivo e inquieto. O autor de “Marxismo e filosofia dalinguagem” nos diz que “
em todo signo ideológico confrontam-se índices de valor contraditórios
. O signo se torna a arena onde se desenvolve a luta de classes”(BAKHTIN, 1992b, p. 46, grifo no original). Arena onde, certamente, desenvolvem-seainda muitas outras lutas macro e micro-políticas: étnicas, de gênero, de geração...
Add a Comment