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ERNESTO MEZZABOTTA -
O PAPA NEGRO
LIVRARIA PARA TODOS
CAIXA POSTAL, 5136RIO DE JANEIRO1954
PROLOGO - O PRIMEIRO JESUÍTA
CAPITULO I
A ABADIA DE MONT-SERRATEstamos na parte mais rude e montanhosa da selvática província deCatalunha.A capital desta província, a rica e populosa Barcelona, é o centro decomércio, de literatura e de patriotismo, como não encontra segundo emnenhuma cidade da Europa; mas, mal saem as portas da cidade, acha-se agente logo no reino do deserto, e principiam a encontrar-se os seus sombrioshabitantes; -o mendigo e o salteador.Claro está que não falamos da Catalunha moderna, que não é inferior anenhuma outra província de Espanha pela sua civilização adiantada e liberal.A ação do drama, que vamos narra passou-se há três séculos e meio,remontando ao terrível começo do século dezesseis, e aos princípios dessaluta religiosa, que deve fazer correr rios de sangue em toda a Europa.O dia caminhava para o seu termo; os últimos raios do astro luminosodouravam os cimos de Mont-Serrat, áspera montanha que se ergue para o céua vinte e quatro milhas de Barcelona.O monte tem em catalão o nome de Serrat, do latim "Serratus". Afirmamos etimologistas que os romanos deram aquele nome à montanha em razãodos seus flancos escarpados, que se assemelham aos dentes de uma serra, emlatim "serra".Como quer que seja, no princípio das conquistas dos Francos na Espanha,e, portanto, no tempo de Carlos Magno, alguns monges fundaram a meio daencosta um mosteiro, que se chame
Abadia de Mont-Serrat.
Este mosteiro foi sucessivamente enriquecido pelos condes de Barcelonae de Catalunha, pelos reis de Aragão e pelos reis de Espanha, à medida que osmembros esparsos da nobre nação se reuniam para formar um só estado.É certo que alguns boatos, que corriam naquelas imediões, provavelmente espalhados por inimigos, punham um tanto em dúvida ossentimentos ortodoxos dos frades. Uns, acusavam-nos de terem conservado
 
no fundo do coração os vestígios daquele 'arianismo", que, depois de ter sidoa religião oficial dos visigodos, fôra afinal extirpado pela hipocrisia dos bispos e pela espada dos Francos. Outros, afirmavam que no temido conventotinham encontrado refúgio as idéias donatistas, que vieram da África, vizinhada Espanha — heresia que a Igreja destruiu a ferro e fogo, visto não poder vencê-la pela lógica dos argumentos.Por último, a versão que merecia mais crédito era a que afirmava que noconvento de Mont-Serrat se tinham refugiado os últimos Templários, ordemmilitar e religiosa fundada para defender o Santo Sepulcro, e que foradestruída por Felipe o Belo, rei de França, com o fim de se apropriar das suasimensas riquezas.Filipe o Belo tivera por cúmplice naquele sanguinolento roubo o papaClemente VI, um francês que ele fizera eleger papa só para que o auxiliassenaquele saque; e o pontífice, para com mais segurança ferir os infelizesTemplários, e os punir pela maior das suas culpas — qual era a de seremriquíssimos — acusara aqueles desgraçados de heresia.Os Templários foram saqueados, presos, assassinados, e o seu GrãoMestre, Jacques de Molay, foi queimado vivo; mas antes de morrer, o infelizlevantou para o céu as mãos inocentes, e suplicou a Deus que no período deum ano e um dia chamasse ao seu tribunal, para julgamento eterno, o papa eo rei.O Onipotente ouviu aquela prece, e no prazo fixado os dois cúmplicesmorreram. A morte de Filipe ocorreu em tais circunstâncias, que o povo julgou ver nela o sinal evidentíssimo da cólera de Deus.Andando um dia à caça, caiu do cavalo, e os dentes de um javali rasgaramas víceras do rei assassino. O papa morreu também no mesmo ano, e todosviram naquela dupla morte o castigo; haviam merecido os dois criminosos.À morte de Jacques Molay e dos seus companheiros seguiu se uma perseguição geral contra os Templários, muitos dos quais se refugiaram nos pses de que eram naturais, principalmente nas províncias italianas eespanholas.Alguns destes acharam refúgio entre os monges da abade de Mont-Serrat, já eivados, segundo se dizia, das mesmas heresias e tanto o papa, como os bispos de Carteia e da Catalunha estavam irritassimos contra aquelesfrades, e muitas vezes
 
tinham tentado suprimi-los.Mas os monges, poderosos pela riqueza e pelos donios eram poderosíssimos pela popularidade de que gozavam. Naqueles rochedos daCatalunha, país clássico das revoluções, ninguém atrevia a assaltar ummosteiro, que ao primeiro sinal se ver rodeado de milhares de "micheletti" dearmas infalíveis. Por modo que, por vontade ou por força, os superiores daIgreja deixariam tranqüilos os frades de Mont-Serrat.E agora, que com esta breve digreso expusemos as conees daEspanha e da Europa naqueles tempos, é ocasião de faz entrar em cena os principais personagens desta verídica história.
 
CAPÍTULO II
O PEREGRINOUm homem ainda novo, apesar de o rosto emagrecido mostrar ser elemais idade do que realmente tinha, subia vagarosamente
A
encosta do monte.Era evidente que se dirigia para o mosteiro. Na ampla e cômoda estrada, que os frades tinham construído desde afalda do monte até à abadia, o peregrino encontrara no seu percurso bastante pessoas.A abadia era um lugar de peregrinação tão venerado e concorrido, que nãoera maravilha encontrarem-se naquele caminho muitos peregrinos a toda ahora do dia.E contudo, nenhum dos que encontravam aquele homem o saudava,nenhum lhe dirigia aquele cordial "Salve-o Deus!", que os espanhóis dirigema toda a gente, que encontram nos caminhos, por mais humilde que seja a suacondição.Pelo contrário, todos os que encontravam o nosso personagem arredavam-se dele com visível expressão de terror. Dir-se-ia que obre aqueledesventurado pesava uma maldição, cujos terríveis feitos todos procuravamevitar.Qual seria a razão por que aquele estranho personagem assim e viadesacompanhado não só da simpatia, que reúne os amigos, nas até aquelaespécie de piedade, que não é costume negar-se mesmo aos indiferentes?Decerto não era por causa da sua figura. O desconhecido era ima nobre e bela estatura, de membros bem proporcionados, pesar de emagrecido por longos jejuns. No modo como vestia o humilde bito do peregrinoadivinhava-se claramente o homem, que noutros tempos usara com soberbadesenvoltura as nobres estes de cavaleiro.O nosso personagem coxeava um pouco da perna esquerda, nas decertonão era esse o motivo que causava tanta repugnância aos outros peregrinos, pois naqueles tempos de guerra encarniçada e incessante era mais paraadmirar ver-se um homem e sem defeitos, nem ferimentos, do que umestropiado, e a montanha de Mont-Serrat era decerto o lugar onde menosadmiração e estranheza devia causar o encontro de um homem coxo.De fato, a estrada que conduzia à igreja do mosteiro esta cheia de coxos,de aleijados e de cegos, que diariamente se dirigi ali, a pedir à miraculosaimagem de Nossa Senhora de Mont-Serrat um alívio aos seus males.A causa do estranho efeito, que nos montanheses catai produzia a vista do peregrino, devia ser a singular expressão c este tinha no olhar.E na verdade, ao passo que os traços da fisionomia do estrangeiro eram belos e regulares, respirando até certa nobre os olhos tinham um fulgor sinistro, um olhar penetrante e ameaçador, que gelava o sangue a quem oobservava. Naquele olhar havia ao mesmo tempo a expressão de um juiz inexorável e
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