Pode-se afirmar que trata-se de entidade que essencialmente age,ou seja, o que caracteriza o personagem é a ação (exercida sobreoutros personagens e, por conseguinte, sobre o roteiro em geral).Ora, a partir do momento em que a música exerce influência,maior ou menor, sobre um ou mais personagens do filme, é lícitoreivindicar para ela também a condição de personagem; note-seque, para tanto, é vital que os personagens do filme tenhamconsciência de sua existência, o que vale dizer que a música, seassim podemos dizer, passa a existir dentro da película, fazendoparte indissolúvel do roteiro.Como, quando e porque conferir à música esta função? A práticamostra que, na maioria das vezes, quando se opta por esterecurso, destina-se à música papel de complemento da ação,entendendo-se o termo em sua acepção mais ampla, que podeapontar para uma série de alternativas
O emprego da música já existente
Quem se dedica ao estudo da música cinematográfica logo se dáconta de instâncias em que o diretor dispensa o trabalho docompositor, e elabora sua trilha sonora a partir de material musical já existente, com vida autônoma. Nesta prática (da qual a históriado cinema é pródiga em exemplos, alguns já clássicos), o diretorpode ou não recorrer à colaboração do músico (a primeiraalternativa, porém, é muito menos comum que a segunda), podeou não valer-se de música gravada, ou seja, pode utilizar a obramusical em gravações ou fazer gravá-la especialmente para afinalidade (e neste caso, a segunda hipótese é muito mais remotaque a primeira).
Relação música e cinema
Não é possível falar da música ou do cinema “em geral”, semapagar tudo o que importa ou ficar endurecido ante as elegantesfalácias de uma abstração.Não me parece haver uma categoria suficientemente ampla quedemarque, inequivocamente, seus traços distintivos e ordinários, emesmo se houvesse, para parafrasear o bergsonismo de Deleuze,suas malhas seriam tão frouxas que mesmo os maiores peixespassariam por ela. Incorremos cegamente em toda espécie demutilação cada vez que a sombra duma generalização seaproxima.Vimos a polêmica em torno deEisenstein, em sua vertigem orgânico-dialética, quanto àpostulação de um princípio de correspondência entre música eimagem, que tinha na unidade do movimento o pivô da relação.Arelação entre música e cinema é tão complexa que somos comoturbilhonados num labirinto histórico (e extemporâneo), que
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