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J. L. Talmon - O grande debate.pdf

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O GRANDE DEBATE
J. L. Talmon
Mobilidade Social
Os dois legados ideológicos e institucionais de maior alcance e permanênciadeixados pela Revolução Francesa foram a indiscutível soberania e auto-suficiência doEstado, como instituição secular e em oposição às reivindicações da religião
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e a vitória daconcepção de uma sociedade baseada no contrato sobre a tradição de uma sociedadefundada na posição social, como John Stuart Mill o expõe, no ensaio sobre
"A Sujeição daMulher
", num esforço para definir o aspecto mais saliente da vida moderna:
"os sereshumanos não mais nascem para determinado lugar na vida
(...)
mas são livres de empregar as suas faculdades
( ... )
Para atingir o quinhão que lhes possa parecer mais desejável 
."A auto-suficiência da sociedade secular e mobilidade social estão, na verdade, muitointerdependentes.Tratemos primeiro da mobilidade social. Com exceçãoda Rússia czarista e do Império Otomano, o indivíduoencontra-se, em 1815, no continente europeu (ou faziam-lhesentir que se encontrava), no caminho da emancipação dequaisquer limitações determinativas impostas pelo nascimento.A servidão pessoal tinha sido abolida em França, na noite de 4de agosto de 1789. Tinha igualmente terminado, na maioria dosestados italianos e alemães, quando caíram sob o domínio de Napoleão e sob influência do seu código, bem como na Prússia, pelas reformas iniciadas por Stein, em 1807. Nos domínios austríacos, por outro lado, a emancipação da condiçãode "autômato" teve que esperar até 1848. A igualdade perante a lei não foi afetada, em princípio, pelo fato de, ao contrário dos franceses, os campônios da Prússia e de outros países terem de remir as suas terras a dinheiro ou a gêneros, cedendo parte das suasfazendas ao senhor da terra; nem por certos poderes jurídicos e policiais sobre os
1
Antes da Revolução Francesa; a religião não reivindicou substituir-se ao Estado, mas apenas manter posiçãoindependente na esfera do espiritual, que ao Estado, como tal, não compete. A vitória da Revolução Francesanão foi o triunfo do conceito de sociedade, baseada no contrato sobre a tradição da sociedade fundada sobre a posição social. Pretendia ser o triunfo do conceito de sociedade baseada no contrato sobre o conceito desociedade fundada na exigência social da própria natureza humana que antecede e impõe leis de justiça,ordem e liberdade a quaisquer formas contratuais legítimas de associação ditadas pelas circunstânciashistóricas.
 
Os homens de 1789apelaram para osprincípios universais eeternos, porque a lei, osusos e as convençõessustentavam a ordemestabelecida.
 
O Grande Debate
camponeses que a nobreza mantinha; nem pela renovação das leis de caça e monopólio decaçadas da nobreza rural de Inglaterra.Isto foi mais do que compensado pelas leis que tornaram o solo mercadoria comoqualquer outra e aboliram a proibição da compra e venda de terras entre as várias classes.A isto devemos acrescentar a dissolução do sistema de corporações. Mais uma vezfoi em França, onde as razões ideológicas sofreram maior pressão, que ele primeiro se deu,acorrendo depois gradualmente, com interrupções e só parcialmente, nos outros estadosonde as necessidades prementes eram mais decisivas. A França revolucionária consideravaqualquer corporação como restrição da liberdade do indivíduo e como expressão de uminteresse parcial limitado contra o bem geral. O movimento de reforma na Prússia foidiretamente precipitado pela catástrofe de Jena e indiretamente pela ineficácia econômicada servidão e a necessidade de criar uma cidadania com esteio direto no Estado. O homem, pelo menos em teoria tinha adquirido a liberdade de escolher a sua ocupação, de se deslocaà vontade em procura de melhoria de vida, de vender o seu Trabalho ou à sua mercadoria aqualquer pessoa e comprá-la a quem quisesse - em poucas palavras: fazer de si próprio oque entendesse, mercê de habilidade e boa sorte. Por a toda a parte se combinavam os progressos objetivos com as tendências ideológicas, para preparar o caminho para oindividualismo e para a mobilidade social. O trabalho escravo demonstrou-se ser antieconômico, pelo menos até certo ponto, porque rumores sobre os direitos do homemtinham chegado inclusivamente aos ouvidos dos camponeses analfabetos, tornando-osfrouxos no trabalho e sem vontade de se aplicar. O vapor e as máquinas, que podiammuito bem ser servidos por trabalho não especializado, tornavam absurdos os rigorososregulamentos de aprendizagem. As leis regulamentadoras do tamanho, tipo e qualidade dos produtos e as regras limitativas da concorrência e do açambarcamento estavam prestes a ser varridas pela produção em massa e pelos amplos mercados com todas as flutuações de procura e oferta que os acompanham. Inclusivamente nos locais onde as corporações ainda persistiam, em virtude da renitente preponderância do sentimento conservador ou artesanal,ninguém duvidava já de que tais instituições estavam condenadas
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. O mesmo se aplica,num plano algo diferente, ao que restava em certos lugares de morgadios e bens demão-morta. Escusado será acrescentar que foi apenas na Inglaterra que a mobilidade socialassumiu dimensões correspondentes à natureza revolucionária do princípio. Todavia, adistinção de classes manteve-se, ali, tão rígida como dantes, e as repercussões políticasforam muito menos violentas do que em qualquer outra parte.
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No entanto, pelo menos em Portugal, as instituições corporativas sucumbiram mais por imposição despóticado burguesismo liberal capitalista do que por força de aspirações populares. Para a burguesia liberal elasconstituem um redutor de manobra e exploração política. Em Inglaterra e noutros países europeus, o caso eradiferente, em razão da Revolução industrial, em que as corporações artesanais, por motivo da nova ordemeconômica. deixaram de ter qualquer preponderância social.
 
O Grande Debate
A ORDEM DIVINA E O ESTADO SOBERANO AUTO-SUFICIENTE
A visão (ou o espectro) do indivíduo livre excitou alguns e encheu de medo outros.A atitude dos primeiros era um misto de esperança de melhoria e de fé na bondade, poder e perfectibilidade humanos. A dos últimos era uma mistura de medo de perder as vantagensexistentes e de uma profunda desconfiança no homem.Contudo, sob o impacto da Revolução Francesa, o diálogo prosseguiu no plano dossimples princípios. Ela tinha dado origem a modernas ideologias, ideologias
tout court 
, eas ideologias não se ocupam do puro interesse individual.Os homens de 1789 apelaram para os princípios universais e eternos, porque a lei,os usos e as convenções sustentavam a ordem estabelecida. Quando o uso e as convençõescedessem o lugar às leis naturais, os partidários do velho sistema seriam impelidos aencontrar-se com os revolucionários no seu próprio campo, o da teoria geral. A mobilidadesocial implicava a não aceitação de uma ordem preexistente; toda a ordem tinha sido criada pelos homens, conforme a achavam boa e útil, mediante planificação e compromisso.Isto significava que, não havendo ordem sócio-econômica de origem divina, não seconcebia sistema político que reivindicasse legitimidade absoluta, sobrepondo-se aosdesejos do homem. Os progressistas acreditavam na natureza essencialmente social dohomem, enquanto os liberais, menos exaltados, tinham fé em que a natureza fosse capaz dereconciliar os egoísmos individuais, segundo um padrão de harmonia social e de umaordem política livre e estável. A atitude oposta pode exemplificar-se pela posição deLudwig von Gerlach, sumo sacerdote do conservantismo prussiano, que, em 1864,censurou Bismarck por ter abandonado e atraiçoado a sagrada causa do combate contra aRevolução Francesa - para Gerlach, afinal, era essa a suprema e única prova. O eminentehomem de Estado tinha colocado o egoísmo patriótico acima da ordem de Deus: ousavadepor antigas dinastias e conseguira que o Landtag sancionasse retroativamente, osorçamentos que, poucos anos atrás, se recusara a aprovar e, por implicação, reconhecera asoberania popular. Bismarck tinha levantado mão sacrílega contra a eterna, e preestabelecida ordem divina, abrindo um precedente terrível
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. Quanto maior era o medoda mudança resultante da mobilidade social, maior se tornava a necessidade de manter ovalor das instituições tradicionais para subordinar o indivíduo ao grupo e amarrar ambos aum esquema eterno e objetivo das coisas. Os progressistas de todas as cores falavam dosdireitos do homem; os reacionários replicavam com a maligna volubilidade humana e a benévola e onipotente sabedoria de Deus. Esta a razão por que os pensadores extremistas -De Maistre, Bonald e Ludwig von Haller de um lado, Karl Marx e Blanqui do outro
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-nunca se cansaram de repetir que o religioso é a cavilha da ordem social
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. De Maistre
3
Não parece que Bismarck tenha levantado mão sacrílega contra o ordem eterna, porque nesta não haviacontradição com as novas instituições constitucionais. Se o fez ilegitimamente, isso é outra coisa.
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Marx e Blanqui extrapolaram as relações da ordem religiosa com a ordem social. Esta pode revestir muitasformas legítimas sem colidir com a ordem religiosa.
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O universalismo pontifício propugnado por De Maistre e Bonald era bem diferente da teocracia política queo A. permite supor, quando alude a ultramontanismos consistentes. Não se tratava de subordinar a soberania

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