O comerciante em
A Exceção e a Regra
confessa: “Não sei o que é um homem. Sósei seu preço”. Na medida em que os indivíduos aceitam e fazem existir o poder, o poder também os reduz à sua medida, padroniza-os. O que é o indivíduo para um sistemaautoritário? Um ponto devidamente situado na sua perspectiva. Um ponto que elecertamente reconhece, mas reconhece somente por meio da matemática, em um diagramano qual os elementos, colocados em abscissas e ordenadas, lhe atribuem o lugar exato.O cálculo da capacidade humana de produzir e de fazer produzir, de consumir e defazer consumir concretiza com perfeição essa expressão tão cara aos filósofos (e aliás tãoreveladora da sua missão): a medida do homem. Até o simples prazer de um passeio decarro se avalia habitualmente pelo numero de quilômetros percorridos, pela velocidadeatingida e pelo consumo de gasolina. Ao ritmo com que os imperativos econômicos seapropriam dos sentimentos, das paixões, das necessidades, pagando à vista a falsificaçãodeles, em breve nada mais restará ao homem além da lembrança de um dia ter existido. Ahistória, com as suas lembranças dos dias passados, será o consolo de se sobreviver. Como poderia a verdadeira alegria caber em um espaço-tempo mensurável e medido? Nem sequer um riso franco. No máximo, a grosseira satisfação do homem-que-alcancou-o-valor-do-seu-dinheiro, e que existe por esse padrão. Só o objeto é mensurável, é por isso que todas astrocas reificam.A tensão passional que subsistia entre o prazer e a sua busca aventurosa acaba sedesmanchando em uma sucessão ofegante de gestos reproduzidos mecanicamente, e em vãose espera que seu ritmo possa levar a algo pelo menos parecido com um orgasmo. O Erosquantitativo da velocidade, da mudança rápida, do amor contra o relógio deforma em toda parte o rosto autêntico do prazer.O qualitativo reveste lentamente o aspecto de uma infinita quantidade, umaseqüência sem fim e cujo fim momentâneo é sempre a negação do prazer, uma insatisfação profunda e irremediável de um Don Juan. Ao menos se a sociedade atual encorajasse umainsatisfação desse gênero, se deixasse à sede insaciável de absoluto uma licença pararealizar suas devastações e expressar suas atrações delirantes! Quem recusaria conceder algum encanto à vida de um ocioso, um pouquinho despreocupado talvez, mas que goza àvontade tudo que torna a passividade deliciosa: um harém com lindas garotas, amigosagradáveis, drogas requintadas, comidas exóticas, licores fortes e perfumes suaves. Trata-sede um homem menos inclinado a mudar a vida do que buscar refugio naquilo que elaoferece de mais acolhedor: um libertino de grande estilo.Realmente, não existe hoje ninguém que tenha uma tal opção: a própria quantidadeé racionada nas sociedades tanto ocidentais quanto orientais. Um magnata das finanças aoqual restasse apenas um mês de vida recusaria ainda assim torrar a sua fortuna tona numaimensa orgia. A moral do lucro e da troca não larga tão fácil a sua presa. A economiacapitalista, mesmo quando se compra em um container tamanho gigante, sempre se refere àmesma coisa: a parcimônia.Que golpe feliz foi para a mistificação vestir a quantidade como a qualidade, paramanter a poderosa ilusão de que uma mera multiplicidade de possibilidades poderia ser a base de um mundo multidimensional! Englobar as trocas do Dom, deixar que se expandamtodas as aventuras (a de Gilles de Rais
, a de Dante) entre a Terra e o Céu, era isso
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Obra de Bertold Brecht. (N.T.)
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Gilles de Rais (1404 – 1440), aristocrata morto pela Inquisição após um processo em que foi acusado desacrificar crianças para obter o segredo da pedra filosofal, ou seja, descobrir a maneira de transformar metais
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