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A Arte de Viver Para as Novas Geracoes

A Arte de Viver Para as Novas Geracoes

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IX
A TÉCNICA E O SEU USO MEDIATIZADO
Contrariamente aos interesses daqueles que controlam seu uso, a técnica tende adesmistificar o mundo. O reino democrático do consumo retira qualquer valor mágico das mercadorias. Ao mesmo tempo, a organização (a técnica das novastécnicas) priva as novas forças de produção do seu poder de subversão e de sedução. A organização é assim pura organização da autoridade (1). As mediações alienadas enfraquecem o homem ao tornarem-se indispensáveis.Uma máscara social cobre os seres e objetos. No estado atual de apropriação primitiva, essa máscara transforma aquilo que ela cobre em coisas mortas, emmercadorias. Não existe mais natureza. Reencontrar a natureza é reinventá-lacomo adversário vantajoso construindo novas relações sociais. A excrescência doequipamento material arrebenta o casulo da velha sociedade hierárquica (2).
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A mesma carência fulmina as civilizações não industriais, nas quais ainda se morre defome, e as civilizações automatizadas, nas quais já se morre de tédio. Qualquer paraíso éartificial. Rica apesar dos tabus e dos ritos, a vida de um trobriandês está à mercê de umaepidemia de varíola. Pobre apesar do conforto, a vida de um sueco está à mercê do suicídioe do mal de sobreviver.Rousseaunismo e poesias pastoris acompanham os primeiros roncos da máquinaindustrial. A ideologia do progresso, tal como a encontramos em Smith ou Condorcet
1
, provém do velho mito das quatro eras. Como a idade do ferro preceda a idade do ouro, parece “natural” que o progresso se realize também como um retorno: é necessário alcançar o estado de inocência anterior à Queda.A crença no poder mágico das técnicas anda de mãos dadas com o seu oposto, omovimento de dessacralização. A máquina é o modelo do inteligível. Não há mistério, nadaobscuro nas suas correias, nas suas transmissões, nas suas engrenagens; tudo nela pode ser explicado perfeitamente. Mas a máquina é também o milagre que deve fazer aceder ahumanidade ao reino da felicidade e da liberdade. Além disso, essa ambigüidade é útil aossenhores: a mística dos amanhãs felizes justifica em vários níveis a exploração racional doshomens hoje. Portanto, não é tanto a lógica da dessacralização que abala a fé no progresso,mas, sim, o emprego desumano do potencial técnico, o modo que a rangente mística emtorno dele se torna estridente. Enquanto as classes laboriosas e os povos subdesenvolvidosofereceram o espetáculo da miséria material que aos poucos decrescia, o entusiasmo pelo progresso alimentou-se amplamente na manjedoura da ideologia liberal e do seu
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Jean-Antoine-Nicolas de Caritat ou Marquês de Condorcet (1743 – 1794), filósofo liberal, matemático ehomem político francês. (N.T.)
 
 prolongamento, o socialismo. Mas, um século após a manifestação espontânea dosoperários de Lyon que quebraram os teares mecânicos, a crise geral eclode desta vezoriginada pela crise da grande indústria. É a regressão fascista, o sonho idiota de umregresso ao artesanato e ao corporativismo, o ubuesco “bom selvagem” ariano.As promessas da velha sociedade de produção caem em nossas cabeças em umaavalanche de bens de consumo que ninguém se arrisca a atribuir ao maceleste.Dificilmente alguém pode acreditar no poder mágico das novidades tecnológicas do mesmomodo com que as pessoas costumavam acreditar no poder mágico das forças produtivas.Existe uma literatura hagiográfica a respeito do martelo-pilão. Não se pode imaginá-la arespeito do
mixer 
. A produção em massa dos instrumentos de conforto – todos igualmenterevolucionários se acreditarmos na publicidade – deu ao mais rústico o direito de expressar uma opinião sobre as maravilhas da inovação tecnológica de uma forma tão despreocupadae segura como a mão que tateia as nádegas de uma moça condescendente. A chegada dohomem a Marte passará despercebida na Disneylândia.Reconhecidamente, o surgimento das rédeas, da máquina a vapor, da eletricidade, daenergia nuclear perturbam e alteram a infra-estrutura das sociedades (mesmo quando foramdescobertas quase incidentalmente). Seria .....
X
O REINO DO QUANTITATIVO
Os imperativos econômicos tentam impor ao conjunto dos comportamentoshumanos a medida padronizada do sistema de mercado. A grande quantidadetoma o lugar do qualitativo, mas mesmo a quantidade é racionada eeconomizada. O mito funda-se na qualidade, a ideologia na quantidade. A saturão ideogica é uma fragmentão em pequenas quantidadescontraditórias, incapazes de não se destruírem e de não serem destruídas pelanegatividade qualitativa da recusa popular (1). O quantitativo e o linear sãoindissocveis. Um tempo e uma vida medidos linearmente definem a sobrevivência: uma sucessão de momentos intercambiáveis. Essas linhas são parte da confusa geometria do poder (2).
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O sistema de trocas comerciais acabou por governar as relações cotidianas do homem comele mesmo e com os seus semelhantes. Todos os aspectos da vida pública e privada sãodominados pelo quantitativo.
 
O comerciante em
 A Exceção e a Regra
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confessa: “Não sei o que é um homem. Sósei seu preço”. Na medida em que os indivíduos aceitam e fazem existir o poder, o poder também os reduz à sua medida, padroniza-os. O que é o indivíduo para um sistemaautoritário? Um ponto devidamente situado na sua perspectiva. Um ponto que elecertamente reconhece, mas reconhece somente por meio da matemática, em um diagramano qual os elementos, colocados em abscissas e ordenadas, lhe atribuem o lugar exato.O cálculo da capacidade humana de produzir e de fazer produzir, de consumir e defazer consumir concretiza com perfeição essa expressão tão cara aos filósofos (e aliás tãoreveladora da sua missão): a medida do homem. Até o simples prazer de um passeio decarro se avalia habitualmente pelo numero de quilômetros percorridos, pela velocidadeatingida e pelo consumo de gasolina. Ao ritmo com que os imperativos econômicos seapropriam dos sentimentos, das paixões, das necessidades, pagando à vista a falsificaçãodeles, em breve nada mais restará ao homem além da lembrança de um dia ter existido. Ahistória, com as suas lembranças dos dias passados, será o consolo de se sobreviver. Como poderia a verdadeira alegria caber em um espaço-tempo mensurável e medido? Nem sequer um riso franco. No máximo, a grosseira satisfação do homem-que-alcancou-o-valor-do-seu-dinheiro, e que existe por esse padrão. Só o objeto é mensurável, é por isso que todas astrocas reificam.A tensão passional que subsistia entre o prazer e a sua busca aventurosa acaba sedesmanchando em uma sucessão ofegante de gestos reproduzidos mecanicamente, e em vãose espera que seu ritmo possa levar a algo pelo menos parecido com um orgasmo. O Erosquantitativo da velocidade, da mudança rápida, do amor contra o relógio deforma em toda parte o rosto autêntico do prazer.O qualitativo reveste lentamente o aspecto de uma infinita quantidade, umaseqüência sem fim e cujo fim momentâneo é sempre a negação do prazer, uma insatisfação profunda e irremediável de um Don Juan. Ao menos se a sociedade atual encorajasse umainsatisfação desse gênero, se deixasse à sede insaciável de absoluto uma licença pararealizar suas devastações e expressar suas atrações delirantes! Quem recusaria conceder algum encanto à vida de um ocioso, um pouquinho despreocupado talvez, mas que goza àvontade tudo que torna a passividade deliciosa: um harém com lindas garotas, amigosagradáveis, drogas requintadas, comidas exóticas, licores fortes e perfumes suaves. Trata-sede um homem menos inclinado a mudar a vida do que buscar refugio naquilo que elaoferece de mais acolhedor: um libertino de grande estilo.Realmente, não existe hoje ninguém que tenha uma tal opção: a própria quantidadeé racionada nas sociedades tanto ocidentais quanto orientais. Um magnata das finanças aoqual restasse apenas um mês de vida recusaria ainda assim torrar a sua fortuna tona numaimensa orgia. A moral do lucro e da troca não larga tão fácil a sua presa. A economiacapitalista, mesmo quando se compra em um container tamanho gigante, sempre se refere àmesma coisa: a parcimônia.Que golpe feliz foi para a mistificação vestir a quantidade como a qualidade, paramanter a poderosa ilusão de que uma mera multiplicidade de possibilidades poderia ser a base de um mundo multidimensional! Englobar as trocas do Dom, deixar que se expandamtodas as aventuras (a de Gilles de Rais
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, a de Dante) entre a Terra e o Céu, era isso
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Obra de Bertold Brecht. (N.T.)
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Gilles de Rais (1404 – 1440), aristocrata morto pela Inquisição após um processo em que foi acusado desacrificar crianças para obter o segredo da pedra filosofal, ou seja, descobrir a maneira de transformar metais

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