Boaventura de Sousa Santos . 9
S .
Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social
Com efeito, ao apresentar as três conferências e
deba-
tes
realizados em 2005 na Faculdade de Ciências Sociais daUniversidade de Buenos Aires, o autor realça a oportunida-
de e o desafio de expor suas idéias a um público heterogê-
neo, o caráter polêmico dos debates e a densidade deles.Os três capítulos do livro, correspondentes às referidas
conferências, obedecem a uma exposição na qual o autor vai
da explicitação dos fundamentos epistemológicos do pensa-
mento sociológico "A Sociologia das Ausências e a Sociologia
das Emergências: para uma ecologia de saberes" - às implica-ções teóricas para "Uma nova cultura politica emancipatória".Dessas duas dimensões, aos desafios
politicos
"Para urna de-
mocracia de alta intensidade". Uma estrutura de exposição
que dá ao livro um encadeamento lógico dos temas e, comisso, uma clareza argumentativa e metodológica. Todavia,
como se pode observar, em seu conteúdo central as proble-máticas epistemológica, teórica e politica aparecem nos três
capítulos com ênfases e níveis específicos.
Assim, o leitor encontra no primeiro capítulo um
diálogo e uma síntese da produção epistemológica mais
ampla do autor dentro de um projeto que busca encon-
trar as bases e as possibilidades da reinvenção da eman-
cipação social nas realidades dos países periféricos. O ar-
gumento central é: há uma reiterada tensão e crise entre
a regulação e a emancipação social e entre a experiência e
as expectativas na sociedade moderna ocidental. No pla-
no social, há uma regressão, que se agrava, sobretudo,
nas últimas décadas, com perdas de direitos e de possi- bilidades futuras e, no plano epistemológico, a crise do pensamento hegemônico das ciências sociais, centradas
em uma razão eurocêntrica e indolente, incapazes de
produzir novas idéias. Vale dizer: incapazes de renovar ereinventar a teoria e a emancipação social.
Para caracterizar essa crise das ciências sociais cen-tradas na razão indolente, Boaventura vale-se de figuras
de linguagem - metonimia
e
prolepse -,
para designar a
razão
metonímica, que toma a parte pelo todo, e a hiper-
trofia de uma totalidade abstrata, e a
razão proléptica,
que
engendra um pensamento linear no qual o futuro já está
determinado nas idéias de progresso e produtividade
nos parâmetros capitalistas. O autor instiga a um desafioepistemológico que consiste em combater o pensamento
hegemônico desde suas formulações centrando-se na So-
ciologia
das Ausências e na
ecologia
dos
saberes.
A Sociologia das Ausências trata da superação das
monoculturas do saber científico, do tempo linear, da
naturalização das diferenças, da escola dominante, cen-trada hoje no universalismo e na globalização, além da
produtividade mercantil do trabalho e da natureza. O
caminho proposto pelo autor baseia-se na idéia de uma
contraposição às cinco monoculturas, cinco ecologias,
cujo espaço e tempos situam-se nas sociedades coloca-das à margem pelos centros hegemônicos colonizadores
nas lutas, experiências e saberes das organizações popu-
lares:
a
ecologia
dos
saberes,
que postula um diálogo do
saber científico com o saber popular e laico;
a
ecologia
das
temporalidades,
que considera diferentes e contraditórios
tempos históricos;
a
ecologia
do
reconhecimento, que pres-
supõe a superação das hierarquias;
a
ecologia
da "transes-
cala", que possibilita articular projetos locais, nacionais eglobais; e, por fim,
a
ecologia
das
produtividades,
centradana valorização dos sistemas alternativos de produção daeconomia solidária, popular e autogestionária.
A partir dessa nova ecologia dos saberes, para o au-
tor, é possível superar a razão proléptica, partindo de
um futuro concreto e de utopias realistas encontradasem pistas que são forjadas nas organizações, nos mo-vimentos e nas lutas das classes populares e dos povoshistoricamente marginalizados.A análise empreendida pelo autor no primeiro ca- pítulo no plano epistemológico reitera-se no segundo
capítulo, tendo como foco os fundamentos da produção
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