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Cercas e Janelas
NAOMI KLEIN
 
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Conhecimento não se compra, se compartilha.
Prefácio
 
Cercas que restringem, janelas de possibilidade
Isto não é uma continuação de Sem
logo,
o livro sobre a ascensão da militânciaanticorporação que escrevi entre 1995 e 1999.
Sem logo
era um projeto de pesquisa queresultou em uma tese;
Cercas
e
 janelas
é um registro de relatos enviados das linhas de frentede uma batalha deflagrada na época em que Sem
logo
estava sendo publicado. O livro estavano prelo quando os movimentos que narrei, em grande parte clandestinos, chegaram àconsciência do mundo industrializado, principalmente como resultado dos protestos emSeattle contra a Organização Mundial do Comércio em 1999. De uma hora para outra, vi-meem meio a um debate internacional sobre a questão mais premente de nossa época: quevalores governarão a era global?O que começou como uma turnê literária de duas semanas se transformou em umaaventura que durou dois anos e meio e envolveu 22 países. Levou-me a ruas cheias de gáslacrimogêneo em Quebec e Praga, a reuniões de bairro em Buenos Aires, a acampamentoscom a militância antinuclear no deserto do sul da Austrália e a debates formais com chefesde Estado europeus. Os quatro anos de isolamento investigativo que me levaram a escrever Sem
logo
 pouco haviam me preparado para isso. Apesar dos relatos da mídia referindo-se amim como uma das "líderes" ou "porta-vozes" dos protestos globais, a verdade é que nuncame envolvi em política e não gosto muito de multidões. Na primeira vez em que fiz umdiscurso sobre globalização, fiquei olhando para as minhas anotações, comecei a ler e sóolhei para cima novamente uma hora e meia depois.Mas não havia tempo para ter vergonha. Dezenas e depois centenas de milhares de pessoas estavam se unindo a novas manifestações a cada mês, muitas delas pessoas que,como eu, não haviam acreditado realmente na possibilidade de uma mudança política atéagora. Parecia que de repente ficara impossível ignorar as falhas do modelo econômicoreinante - e isso foi antes da Enron. Para atender às exigências de investidoresmultinacionais, governos do mundo todo deixavam de atender às necessidades das pessoasque os elegeram. Algumas dessas necessidades não atendidas eram básicas e urgentes -remédios, habitação, terra, água; outras eram menos tangíveis - espaços culturais não-comerciais para comunicar, reunir e compartilhar, seja na Internet, em ondas de rádio públicas ou nas ruas. Na base de tudo isso estava a traição à necessidade fundamental dasdemocracias sensíveis e participativas, que não se venderam à Enron ou ao Fundo MonetárioInternacional.A crise o respeitou as fronteiras nacionais. Uma economia global explosivaconcentrada na busca de lucros de curto prazo mostrava-se incapaz de responder a uma crisehumana e ecológica cada vez mais urgente; incapaz, por exemplo, de passar doscombustíveis fósseis para fontes de energia sustentáveis; incapaz, apesar de todos oscompromissos e tratados, de empregar os recursos necessários para reverter a disseminaçãodo HIV na África; relutante em assumir compromissos internacionais para reduzir a fome oumesmo em resolver os problemas de segurança na alimentação básica na Europa. É difícildizer por que o movimento de protesto explodiu, uma vez que a maior parte desses problemas sociais e ambientais é crônica há décadas, mas parte do mérito certamente deveser da própria globalização. Quando as escolas estavam sem dinheiro ou a água eracontaminada, colocávamos a culpa na inépcia da gestão financeira ou na cabal corrupção degovernos nacionais. Agora, graças a uma maior troca de informações interfronteiras,reconhece-se que tais problemas são os efeitos locais de uma ideologia global específica,imposta por políticos nacionais mas concebida centralmente por alguns interessescorporativos e instituições internacionais, incluindo a Organização Mundial do Comércio, oFundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.A ironia do rótulo "antiglobalização" criado pela mídia é que nós, nesse movimento,
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