Cartas Do CárcereAntonio Negri
Por que é difícil esquecer 68?
22/02/98Autor: ANTONIO NEGRIOrigem do texto: Especial para a FolhaEdição: Nacional Feb 22, 1998Assuntos Principais: MOVIMENTO ESTUDANTIL
Por que é difícil esquecer 68?
A imagem atual das rebeliões de 30 anos atrás esconde ferida não cicatrizada
Celebra-se neste ano o 30º aniversário do movimento de 68. O Estado italiano descobriu uma maneiratotalmente paradoxal para comemorar a ocorrência: os dois líderes dos movimentos mais importantes daqueles anos(Sofri, de Lotta Continua, e este articulista, de Potere Operaio) passarão o ano todo no cárcere. E as condenações sãosalgadas: Sofri terá o seu "fim de pena" em 2010, eu em 2005. Claro, de algum modo seremos libertados antes disso — ao menos espero. Resta o fato desta estranha coincidência, evidente demonstração de que, ao menos no queconcerne à Itália, aquela temporada não terminou.Todavia, se há um estribilho que ecoa incansável na mídia, não apenas nos outros países europeus, mastambém na Itália, é que 68 terminou, é irreproduzível, antigo. Certamente há coisas do 68 que devem ser recordadas,como a mudança na maneira de se vestir (da minissaia aos jeans), a renova ção da música, uma certa renovação dasestruturas de ensino, a liberação da mulher (amiúde reduzida à difusão da pílula), a difusão das drogas leves (que se podia fumar sem tragar, dizem Clinton e Blair) e um certo antiautoritarismo libertário, tão simpático... Mas, emsuma, só isso.Que 68 também foi a redescoberta da luta de classe por parte das gerações mais novas e que a década de1965 a 1975 foi percorrida por uma onda de lutas anticolonialistas e antiimperialistas, que neste período — de LosAngeles a Praga — a revolta esteve na ordem do dia, bem, isto é tudo o que não deve ser lembrado. E as camisetasou os bonés com o "X" de Malcomou com o retrato do Che até podem ser objetos meio banais, um tantoinconsequentemente impetuosos, mas inofensivos para as novas gerações, entregues ao esquecimento.A mim, o esquecimento não é permitido, devido à incômoda situação em que me encontro. Ainda assim, procurando não me deixar envolver por esta situação, pergunto-me se aquelas reevocações superficiais e essasreticências profundas, se aquela pressão para o esquecimento enquanto se finge a comemoração, não estariamescondendo (na atual historiografia filtrada pela mídia) algo de mais doloroso, como se 68 tivesse representado, paraas classes dirigentes, um medo enorme, talvez uma ferida profunda que ainda não cicatrizou. E, prosseguindo nestequestionamento, vou me convencendo aos poucos que a minha suspeita descobre uma verdade.O que dizer então para desvelar aquela falsa imagem de 68 e para desmascarar a pérfida rejeição a toda possível consequência atual? O que dizer, o mais friamente possível, "sine ira et studio", quase colocando-se no ponto de vista do poder? Que há alguns elementos irreversíveis determinados por 68, alguns sinais que marcaramdefinitivamente a história futura. Vamos recordar ao menos dois: um social, o outro político, aliás, estritamenteinterligados.O evento social que marca 68 é o fim de um modelo de desenvolvimento e de acúmulo capitalista — isto é,daquele modelo que, organizado nos velhos Estados-nações da segunda metade do século 19, visava a concentraçãodas forças sociais da produção (essencialmente o "big labor" e o "big business"), prometendo uma redistribuição progressiva dos frutos do desenvolvimento. Este modelo, que passou por guerras desastrosas, fora enfim codificadona hegemonia imperial americana, que se impusera a partir do New Deal e se difundira mundialmente após aSegunda Grande Guerra.Ora, 68 impele ao limite a sustentabilidade deste modelo secular, por mais que este tivesse sidoaperfeiçoado pelos "reformismos" convergentes do "big labor" e do "big business" e sustentado, de modo cada vezmais imponente, pelo Estado. Por quê? Porque o nível da demanda social dos trabalhadores, e sobretudo o de seusfilhos, geralmente já aculturados, rompe os equilíbrios políticos da reprodução capitalista. Os estudantes que serevoltam, já não são os "filhinhos de papai" das velhas burguesias dominantes, já se tratava das camadas de um novo proletariado. Eles são a antecipação da nova força-trabalho imaterial, fortemente intelectualizada, que, nos 30 anosque se seguiram, observamos se impondo na produção.Se 68 foi um movimento dos filhos contra os pais, certamente não foi um movimento romântico; registravasocialmente e antecipava politicamente um novo regime da produção. E esses estudantes, fortalecidos por uma possível hegemonia, não tardam, nos países europeus, a arrastar consigo, no rompimento do sistema, o proletariadourbano das fábricas; nos países americanos, onde as linhas de classe e de cor se entrelaçam profundamente, a revoltainstaura-se na dimensão cultural das metrópoles. Eis então um primeiro paradoxo político deste movimento, eis omotivo por que aindafere.
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