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A terceira vez, a terceira edição. Cá estamos nós novamente, caros leitores, e muito gratos com asparticipações, críticas e diferentes opiniões que têm surgido. Algumas pessoas têm perguntado o quequeremos com o Outras Farpas, quais são nossos “verdadeiros” objetivos, vertentes políticas, etc, etc.O Outras Farpas, no entanto, está do “outro lado”, pertence a uma outra coisa, momento e proposta,não precisa de rótulos, não anseia por um “perfil”, não carece de armaduras.E é por isso, leitores e amigos, que cá ecoamos um “outro” grito:
“Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muitomaiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça para o total.“Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
Foto: Manoel Neves
Ano I - Edição III
Definir alguém é estuprá-lo em suas múltiplas possibilidades indefiníveis. Se definir é assassinar em si mesmo essaspossibilidades. Não sei ao certo o que sou, mas certamente o que penso que sou não condiz com o que as outras pessoaspensam de mim, nesse ponto lembro da máxima de Pessoa que diz “pensar é estar doente dos olhos”. Os homenscostumam orgulhar-se de “ser algo”, mas esse “algo” é apenas uma construção, não pode ser outra coisa senão umaconstrução. Não sou fraco o suficiente para forjar uma personalidade e apresentá-la de pronto “eis o homem!”. Estouaberto a todas as interpretações, nenhuma me é agressiva e inaceitável, sei bem tolerar todas as impressões com relação amim, elas me revigoram, me fortalecem! Escarneço das certezas humanas, tudo que há de mais seguro na humanidade meparece vazio e sem sentido, duvido profundamente de todas as “verdades” canonizadas pelo tempo e pela cultura... aprópria definição de homem me parece uma construção absurda e desinteressante. Quando pensamos na palavra HOMEMnos remetemos inevitavelmente à idéia de HUMANIDADE, duas mentiras atraentes, mas não suficientemente poderosaspara me convencer. Para além das palavras e seus significados há a vida em si, que não é nada mais que um fragmento sempassado nem futuro! Portanto, vivamos sem medidas nem fronteiras, deixemos os conceitos e as definições pros tiranos eseus escravos, conscientizemo-nos que não somos absolutamente nada e talvez assim cheguemos mais próximos de umadefinição apropriada de nós mesmos!Santo Antonio de Jesus, 30 de setembro de 2008.Leandro Bulhões e Jean Michel F. Santos
Transcodificação...
 
Pós-Modernidade em 1/4
N
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o viemos plantar sementes,viemos colher os frutos.A marreta é uma extensão denosso corpo, é nossa mão direita, aesquerda é uma picareta!Nós, os apologistas do contrário,somos tudo que há, sem ser nada - etemos consciência disso!Nada deixaremos para as próximasgerações a não ser o cheiro nostálgico denossa fluidez, o ranço cansado de nossogozo demorado e o desprezo displicentede nossas vidas que não valem e jamaisvalerão nada: um fragmento de nada!Sim, éramos fortes demais para ocasulo, quebramos a casca e noslibertamos, porém o mundo não ganhounovas borboletas! A nossa fome é deagora, e engolimos com pressa. E nossaexistência é um eterno engolirininterrupto e convulsivo! Nossosestômagos são pequenos demais, nós osexplodiremos e riremos disso.Não somos bons, nem maus, nemrancorosos, nem simples, nem felizes, nemtristonhos - essas palavrinhas não dizemnada! Simplesmente não somos e gozamosmuito em não ser!Aquilo que te custou mais caro, teusonho mais íntimo, tua meta mais preciosa,teu principal objetivo, joga-o fora eentenderás um milésimo do nossodesprezo...Quando raiou o mais lindo dia, etoda a natureza espreguiçou-se orgulhosae contente: os pássaros cantaram seusmais predestinados cantos, as planícies ecolinas e montanhas e florestas seincendiaram com a luminosidade de todasas cores numa dança caleidoscópica eradiante, e quando os ventos mais suaves egentis roçaram a face das águas e noscampos levantaram as florzinhas maisleves e delicadas provocando em todo ouniverso uma sensação também deleveza... E quando todos saíram de suascasas para -reunidos - contemplarem talmanifestação divina e foramtranspassados (todos) por um sentimentode renascimento e mudança e compaixãoe sensibilidade, ... nós, acordamos tarde,cansados e ressaquiados, e quando noscontaram os últimos acontecimentos...Rimos, nos viramos pro lado e voltamos adormir! ___________________Jean Michel F. Santos é licenciado emhistória pela Universidade do Estado daBahia UNEB Campus V, Mestrando emCultura, Memória e DesenvolvimentoRegional também pela UNEB Campus V eGraduando do curso de direito da UNEBCampus XV. Atualmente reside entre
Por Jean Michel F. Santos
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uando ele finalmente retornou sabe-se lá de ondeestava, ela continuava em sua frente, ainda a reclamar, e foi bemno momento em que pronunciava a última frase de seu longodiscurso:“Não vou guardar mágoa por isso, mas entenda que vocême deixou chateada.”Chateada, ele a havia deixado chateada. Naquele mesmoinstante novamente a companheira e deu início a uma novaviagem. Pouco importava o que ele havia feito ou deixado defazer, o fato era que havia provocado nela uma reação ímpar: elaestava chateada!Dentro do seu universo, esta conseqüência despertou umaadmirada incompreensão ao defrontá-lo com a forma femininado particípio do verbo chatear. De repente achou tão lindo o fatode as mulheres terem uma forma só delas de expressar seuaborrecimento, algo tão diferente, tão somente conjeturável àpercepção masculina, e tal constatação o guiou por uma estradade devaneios onde o ecoar daquela palavra, dita por voz tãosuave, ganhava nova significação, adquirindo ares extremamentesedutores.Poderia passar horas ouvindo-a dizer que estava chateada,sem por sua vez se chatear com isso. Foi quando sua viagempassou então a buscar concentração naquelas formas delicadas,naquele olhar sério, lábios cerrados, ouvidos atentos, prostradosem sua frente, aguardando a confissão da culpa. Estava tão linda,séria, fragilizada, sensibilizada, ornada por uma multidão deadjetivos terminados com a letra “a”. Estava diante de umamulher, e não havia o que pudesse ser feito, jamais alcançaria aplena compreensão de como pensava aquele ser.Para encerrar, concluiu que ambos eram metadescondenadas a buscar eternamente seus encerramentos um nooutro, custasse o que custasse.Acordou do transe e um pouco envergonhado percebeuque ela havia notado que ele estivera longe.Meio sem graça, mas com o peito dilacerado pelaadmiração, não esboçou outro tipo de reação a não serostentar um leve e cândido sorriso, talvez o mais sincero desdea sua remota infância, sorriso este que, incompreendido pelaalma feminina, que tal qual a masculina, lança uma projeção desi mesma para tentar entender o outro, aborreceu a jovemainda mais.“Do que está rindo? Poxa, você nem presta atenção aoque eu digo.”“Meu bem, eu te amo!” Disse com a feição mais sincera,decodificada como sendo a expressão da cara mais deslavada.“Ainda por cima é cínico. Olha, eu vou embora. Nem seio que vim fazer aqui hoje.”“Ta bom meu anjo, pode ir... mas estou falando sério, tabom?”Ela resmungou e saiu. Talvez no fundo soubesse que elerealmente a amava.Ele sorriu mais um pouco e ali ficou, inundado por ummar de tranqüilidade, envolvido nas suaves ondas da certeza deque outros momentos como aquele fariam parte do por vir,feliz por saber que nem sempre reagiria da melhor forma paraos dois, se é que tal reação pudesse existir.
Chateada
Por Manoel Neves
 
CINEMA E “REALIDADE”
Reflexões da professora que vê ( parodiando Bertolt Brecht)
ual não foi minha surpresa pra irentrando logo de sola no assuntoquando vi, no HULK 2008, produçãonorte-americana, o exército dos EstadosUnidos invadindo uma favela brasileirapara capturar seu monstrengo verdeproduzido em laboratório; cujo Generalcomandante deseja transformar aqueletipo de mutação em
super soldiers,
armashumanas, super soldados, etc., e assimtentar dominar outros Afeganistãos,Iraques, Vietnãs, quiçá Amazônias, quiçáBrasis...!!!No filme, é como se não existissemForças Armadas no Brasil, não existissenem governo no Brasil, na verdade elesconsideram o Brasil como um quintaldeles, lugar comum onde eles podementrar e sair impunemente conforme suaprópria vontade! Afinal o filme nemsequer cogita uma comunicação com oExército Brasileiro ou com o Governo doBrasil. Tive a impressão de que se desejasemear essa idéia, torná-la comum noinconsciente coletivo: que é possívelaquilo que acontece a invasão-intervenção que fere os princípios de pazentre as nações, desrespeitandofronteiras, ameaçando a paz continental.E então, no dia em que acontecer, jáestará banalizado entre nós, seráconsiderado como uma coisa corriqueira-mais ou menos o que a Colômbia fez noEquador para matar os guerrilheiros dasFARC, ajudada pelas
intelligentsia
do FBIe da CIA. .Aliás, essa é a justificativa doGeneral o tempo inteiro: que ele é umfugitivo! Então ele ser um fugitivo justifica a invasão? Será que é isso queestão preparando para nós? Umadesculpa, uma justificativa, para ratificarações de desrespeito à soberanianacional?Não vou fechar questão. Estouabrindo o questionamento, estoucolocando a dúvida na mesa, porqueHollywood só nos traz certezas econvicções! O fundamento destascertezas e convicções é ideológico, masdepois de Foucault não se pode maisfalar de ideologia que se é logo taxado dexiita, radical e outros rótulos mais que ocapitalismo inventou e instaurou comoverdade para reduzir seus críticos eminimizar aqueles que questionam suaspráticas xenófobas e genocidas.A indústria bélica que financiou acampanha do Presidente dos EstadosUnidos, George W Bush, vem sendomuito bem remunerada nestes anos deseus governos (Governo para os norte-americanos e des-governo para os povosdo Oriente Médio, da América Latina ealgumas nações do Extremo Oriente),com a perseguição a Osama Bin Laden, aoterrorismo como um todo , já que os EUAcombatem o terrorismo com terrorismode Estado - a invasão ao Iraque e tantasoutras ações imperialistas comandadaspor esse lunático que mata crianças,destrói hospitais e mesquitas, financiagolpes de Estado nas democracias daAmérica Latina e manda seus jovens àmorte nas trincheiras para salvar aprópria pele e defender os interesses dosarqui-bilionários empresários da indústriade armamentos pesados. Não é à toaque a indústria cinematográfica serviçalda burguesia capitalista internacionalproduziu nesse período, em Hollywood,tantos longas-metragens cuja temáticaprincipal foram as armas, a violência, aschacinas, o tráfico de drogas, genocídiose fratricídios, sempre com a justificativade que se está retratando a realidademas até onde o cinema e as artes áudios-visuais não re-criam elas mesmas umanova realidade a partir do que forjam emsuas histórias, nas telas dos cinemas? Atéque ponto o cinema é influenciado e atéonde ele influencia no imaginário doinconsciente coletivo? Deixo essasquestões com o leitor, para que observe,analise, teça suas próprias consideraçõese mantenha bem abertos os olhos. Leiaas entrelinhas, as letras e palavras quenão foram escritas, as imagens que nãoforam gravadas, escute o silêncio, tateieo inalcançável e esteja alerta pois assimcomo o Iraque e a Bolívia têm petróleo,nós temos aqüíferos, nós temos oPantanal e nós temos a Amazônia! _____________________Diacui PataxóProfessora de Filosofia, Arte, Religião eHistória, especialista em PolíticaEducacional e vive em Ilhéus.diacui_pataxo@hotmail.com
Por Diacuí Pataxó
Ódio (ou o paradoxo do esquecimento)Daniel Santos
Esquartejei em pedaços meu silêncioE lavo com seu sangue a minha alma imunda de tuas recordações.Arranco meus olhos para deixar de ver-te;Mas insistes e vagar em meus subterrâneos.Persegues-me? Ou tua existência é a mais torpe das torturas?Em vão abortam de tua garganta palavras encardidas (não as ouço).Já não ouso mais destilar teu amor.Me encontro nu, rastejando entre cacos de espelhos.A síntese das horas é amar-te.Sinto ódio e tanto te desejar, ódio em vários graus.Queria encontrar a finitude, com ela conversar nessa tarde cinza enela espargir-me...Poder reconstruir minhas asas e escapar de mim mesmo, pois em mimtu habitas.
{Não sabes o quanto sofro no paradoxo do esquecimento!}Imperai finitude... Em prantos encontro-me em teus braços.
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