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DA OUTORGA DO DIREITO DE USODA ÁGUA
Desembargador WELLINGTON PACHECO BARROS(
Palestra proferida no 1º Seminário do Centro de Estudos do Tribunal de Justiça – DIREITOS DAÁGUA, realizado no dia 29 de março de 2005).
1. - NOÇÕES GERAISA água é, hoje, um fator de preocupação agudo e tem suscitadodebates acalorados em vários estratos sociais, religiosos e organismosestatais, inclusive na ONU, apesar de cobrir 2/3 da superfície da Terrae com isso aparentar ser infinita para a vida humana, animal e vegetal.Essa preocupação não decorreu de estudos sobre seu poder decausar acidentes como o
tsunami
que atingiu vários países e causou amorte de algumas centenas de milhares de vidas e danos patrimoniaisimensos, nem na busca de entender seu funcionamento e importânciano contexto biológico, como a descoberta recente de que ela tem
memória
e que por 50
 femtosegundos
(um
 femtosegundo
éequivalente a um biliosimo de milionésimo de um segundo)armazena as lembraas das propriedades de subsncias que estiveram nela diluídas, conforme publicação da revista científica
 Nature
”, de 10 de março de 2005, noticiado pelo jornal
 Folha de São Paulo
, no seu caderno
 FolhaCiência
, página A 16, da mesma data oumesmo das secas periódicas que nos assolam.
1
 
A preocupação com a água é mais direta e mais profunda edecorre da conscientização de que, apesar de cobrir quase a totalidadeda Terra,
apenas 2,5% de seu volume é de água doce
, sendo que deste percentual
68,9% são geleiras e neves eternas
,
29,9% são de águas subterrâneas
,
0,9% estão na umidade do solo, nos pântanos e nas geadas
e apenas
0,3% estão em rios e lagos
e que, portanto, com oaumento da população mundial, a poluição provocada pelas atividadeshumanas, o consumo excessivo e o alto grau de desperdício, ela setornou um bem finito em curto prazo a preocupar toda vida existentena Terra.Essa conscientização, embora já venha de algum tempo emoutros países, chegou ao Brasil de forma tênue e com uma certadesimportância talvez pelo fato do País abrigar 
13,8% das reservasmundiais de água doce para uma população de apenas 2,8% damundial 
e aqui se encontrar 
71% dos 1,2 milhões de quilômetrosquadrados (cerca de 840 mil quilômetros quadrados) do AqüíferoGuarani, o maior reservario subterneo de água doce das Américas e um dos maiores do mundo,
envolvendo os estados deMinas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo,Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul
.
2. DA NATUREZA JURÍDICA DA ÁGUAA primeira lei a tratar sobre a água no Brasil, o
Código de Águas,
de 1934, embora dispusesse sobre a possibilidade de outorga deuso pelo poder público, em verdade, tratava esse bem com ênfase dedonio privado. No entanto, assimilando a evolução detransformão da água em bem essencial à vida na Terra, aConstituição Federal de 1988 introduziu esse importante avanço e aconsiderou como
bem do domínio público (art. 20, inciso III)
, tambémchamado de
bem de uso comum do povo
, situação reafirmada emtermos de competência federativa pelos Estados de existência decondominialidade com a União, como sustentada pela Constituição doEstado do Rio Grande do Sul (art. 7º, inciso III). 
2
 
O regulamento, no entanto, foi estabelecido pela Lei 9.433/97, a chamada “
 Lei das Águas
”, que, todavia, oito anos depoisainda não foi devidamente implementada gerando dúvidas econtribuindo para que a água, especialmente quando usada po particulares, permaneça com a antiga conotação de coisa privada.A lei, que não revogou completamente o Código de Águas, masapenas a dimensionou como bem público, criou uma
 Política Nacional de Recursos Hídricos
e um sistema nacional para gerenc-lo, o
SINGREH 
, integrado por um
Conselho Nacional de Recursos Hídricos, Conselhos de Recursos Hídricos Estaduais
e
Comitês de Bacia Hidrográfica
. Como ponto importante estabeleceu regras sobrea
outorga de direito de uso dos recursos hídricos
e a
 possibilidade de sua cobrança,
institutos que têm oportunizado discussões acirradastanto na doutrina como na jurisprudência e que será o motivo principaldeste trabalho.Em resumo, a água, além de constituir um elemento essencial para a permancia da vida na Terra, é reconhecida pelo direito positivo de todos os povos como um recurso natural limitado e que,apesar de todos terem direitos a seu uso, ela deve ser regulada peloEstado como bem de domínio público.3. - DA ÁGUA COMO OBJETO DE
DIREITO DE USO
 
ONEROSO
3.1. – Conceito de
direito de uso
 
 Direito de uso
é o instituto jurídico de direito administrativo pelo qual o poder público, União, Estados ou o Distrito Federal, atribuia outrem, ente público ou privado, o direito de uso do bem público
água
de forma onerosa. O uso da água pelo terceiro impõe a obrigaçãode que este a destine para sua própria finalidade que, no entanto, podeser limitada pela Administração Pública, porém nunca desvirtuada deseu fim natural. Portanto, no âmbito de exação da outorga não está o
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