Uma história americana, do massacre de Waco à morte de McVeigh
'Estado' começa a publicar nesta edição o polêmico artigo do escritor Gore Vidal, que secorrespondeu com Timothy McVeigh, autor confesso do atentado a um prédio do governoamericano que matou 168 pessoas, em Oklahoma, em abril de 1995, e foi executado dia 11de junho. O romancista relaciona as duas tragédias com a política de Washington e foiacusado de defender o autor do maior atentado cometido dentro dos EUA
GORE VIDALVanity Fair
Quase no fim do século 19, Richard Wagner fez uma visita à cidade de Ravello, no sul da Itália, ondelhe mostraram os jardins da milenar Villa Rufolo. "Maestro", perguntou o jardineiro-chefe, "esses jardins fantásticos sob o céu azul lá longe que se fundem em perfeita harmonia com o mar azul lálonge não se parecem muito com os jardins de Klingsor, onde o senhor situou situou grande parte desua recente ópera interminável, Parsifal? Não é esta visão de encantamento que lhe deu inspiraçãopara Klingsor?" Wagner murmurou algo em alemão. "Ele diz", explicou um intérprete próximo, "que éque há?"De fato, que é que há, pensei ao me encaminhar para um canto daqueles fabulosos jardins, onde osrealizadores dos programas Good Morning America, da TV ABC, e Early Show, da TV CBS, haviammontado suas câmeras para que eu pudesse aparecer "ao vivo" para espectadores no país de Deus.Foi em maio passado. Em uma semana, "o Detonador da Bomba em Oklahoma City", herói daGuerra do Golfo condecorado, um dos Hagle Scots da Nature, Timothy McVeigh, devia serexecutado com injeção fatal em Terre Haute, Estado de Indiana, por ter sido, conforme ele próprioinsistiu, o único fabricante e detonador de uma bomba que explodiu um prédio federal no qualmorreram 168 homens, mulheres e crianças. Este foi o maior massacre de americanos praticado porum americano desde dois anos antes, quando o governo federal decidiu capturar o complexo de umculto adventista do sétimo dia perto de Waco, Texas. O Ramo Davidiano, conforme os membros doculto se chamavam, era um grupo pacífico de homens, mulheres e crianças que viviam e rezavam juntos prevendo o fim do mundo, o que para eles começou em 28 de fevereiro de 1993.O Birô Federal do Álcool, Tabaco e Armas de Fogo (ATF), cumprindo seu mandato para "controlar"armas de fogo, recusou todos os convites do líder do culto, David Koresh, para que inspecionassesuas armas de fogo licenciadas. Ao contrário, o ATF preferiu divertir-se. Mais de 100 agentes doATF, sem os devidos mandados, atacaram o complexo da igreja enquanto, no alto, pelo menos umhelicóptero do ATF disparava no teto do prédio principal. Seis membros do Ramo Davidiano forammortos naquele dia. Quatro agentes do ATF foram mortos a bala, pelos próprios companheiros,conforme se acreditou.Veio um impasse. Seguiu-se o cerco de 51 dias, no qual música em alto volume foi tocada 24 horaspor dia diante do complexo. Então a eletricidade foi desligada. Negaram comida às crianças.Enquanto isso, a Mídia era informada com regularidade sobre os males que David Koresh praticava.Ao que parece, ele estava fabricando e vendendo metanfetamina cristalizada; também - que maisnestes tempos doentios? - não era um Homem de Deus, mas um Pedófilo. A nova secretária deJustiça, Janet Reno, então endureceu. Em 19 de abril, ela mandou que o FBI terminasse o que oATF começara. Em Desafio ao Posse Comitatus Act (um esteio de nossas frágeis liberdades queproíbe o emprego de militares contra civis), tanques da Guarda Nacional do Texas e a 6.a Força-Tarefa Conjunta atacaram o complexo com um gás mortífero para crianças e não muito saudávelpara adultos, enquanto abria brechas no prédio. Alguns davidianos escaparam. Outros forambaleados por franco-atiradores do FBI. Na investigação feita seis anos depois, o FBI negou quetivesse disparado algo mais que um tubo pirotécnico de gás lacrimogêneo. Finalmente, durante um
Add a Comment