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noticiasmagazine
14.JUN.2009
Biografia política.
Vem deum professor da Universidade de Coimbra a biografiapolítica que revela um Estado Novo oligárquico muitomais promíscuo e perverso do que alguma vez imaginá-mos.O historiador Álvaro Garrido,seu autor e pacienteestudioso do país sob a ditadura,cumpre com a publi-cação de
HenriqueTenreiro – Uma biografia política
,uma inscrição historiográfica que rema contra a maréde esquecimentos que tem marcado a nossa memóriahistórica recente.
TEXTO
Sarah Adamopoulos
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FOTOGRAFIA
Rui Coutinho
 
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14.JUN.2009
Completamente. Essa reflexão decorre, emprimeiro lugar, do facto de a personagembiografada ser uma figura muito controver-sa do Estado Novo, um regime autoritário ecom traços de totalitarismo institucional.Para alguns, o simples gesto de biografarHenrique Tenreiro poderá ser visto comouma reabilitação do mesmo. Estou cons-ciente do risco desse juízo redutor. Julgo quese prova ao longo do livro que estamos pe-rante uma figura que justifica sobejamenteuma biografia, por diversas razões, boas emás – o juízo moral pertence ao leitor. Emsegundo lugar, pela própria natureza da fi-gura histórica em questão, que habita os do-mínios da memória de uma forma ainda controversa, sobretudo na Marinha, queainda hoje olha para Henrique Tenreiro
Este livro, que julgo ser mais do que uma bio-grafia, inscreve-se num trabalho mais vasto esistematizado que tem vindo a realizar na áreada história portuguesa contemporânea.
Não é um livro absolutamente típico da bio-grafia histórica canónica. Foi uma opção in-tencional, por haver uma problemática-chave que se inscreve na investigação quevenho realizando sobre a memória do «marportuguês salazarista». E a pergunta foi, e é:como se explica o subsistema de poder deHenrique Tenreiro no contexto do Estadosalazarista dito corporativo? Aquela forma-ção de poder por assim dizer, «quistosa»– como se explica, como foi possível numcontexto ditatorial unipessoal, para maisprotagonizada por um salazarista estreme eradical? Nesse sentido, será mais do que uma biografia narrativa; é, também, um ensaiobiográfico sobre as oligarquias corporativasdo salazarismo e sobre um dos seus maiseminentes oligarcas. Uma tentativa de esca-var mais fundo a história do Estado Novo; a história críptica de um sistema autoritárioque tenho investigado nos domínios pro-míscuos da «economia dirigida».
Cripto-história do Estado Novo?
Tenho estudado o Estado Novo promíscuo,isto é, as fronteiras, muito ténues, que se fo-ram tecendo entre o público e o privado – nãosabemos se uma instituição corporativa (umgrémio ou uma casa dos pescadores, porexemplo) é público ou privado; eu creio que éostensivamente público, embora no planoformal e jurídico o não fosse. Daí o DireitoCorporativo e as suas dogmáticas lições nasFaculdades de Direito… Interessa-me com-preender o Estado Novo por dentro das suasinstituições. Pelo objecto de estudo que fui es-colhendo (as pescas, o mar, a economia marí-tima dirigida pelo Estado Novo), um sector da dita economia nacional profundamente pro-míscuo, acabei por ser levado a analisar não sóo sistema corporativo, mas também a institu-cionalização corporativa e a formação dassuas oligarquias burocráticas. Nesses mean-dros político-económicos, foi-me aparecen-do recorrentemente, espreitando por todo olado, uma figura relevante do Estado Novo:Henrique Tenreiro, o patrão das pescas. Na-turalmente, senti necessidade de biografá-lo,para tentar entender até que ponto esse sub-sistema de poderes foi uma construção fática resultante dos seus eventuais méritos políti-cos, ou se se tratou de uma concessão de Sala-zar. Há um equilíbrio tenso, difícil de discer-nir, entre a acção do indivíduo e o peso das es-truturas, entre o papel e o palco...
Recorda na introdução desta biografia queos estudos contemporâneos são terreno ine-vitavelmente arriscado, em razão dos escru-tínios da memória recente, de natureza ideo-lógica nomeadamente. Quando diz que a obranão se furta ao debate, quer dizer que assu-me a subjectividade inerente à interpretaçãoda história?
Tenreiro
«Foi uma figuracontroversa numregime autoritário eacabou por ser umsímbolo dasligações incómodasda Marinha aoEstado Novo
 
Insólito
«Os cargos que desempenhou no aparelhorepressivo do regime não explicam o poder que acabou por ter.Nunca foi membro da elite ministerial,nem delfim de Salazar.»
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como uma figura incómoda. Uma Marinha que tem uma forte consciência ética da se-paração entre o político e o militar.
Em completa oposição àquela que foi a acçãode Henrique Tenreiro...
Em completa oposição. Eu diria que Henri-que Tenreiro [H.T.] foi uma figura excêntrica ao
ethos
da Marinha. Na verdade, o compro-misso subtilmente político da Marinha com oEstado Novo não foi de modo algum maiori-tário. A Marinha não foi dominantemente sa-lazarista, tinha aliás uma tradição republica-na e até revolucionária, depois crismada revi-ralhista, que teve a sua quebra e a sua subor-dinação ao poder político depois da revolta dos marinheiros de 1936 (na qual H.T. foi pro-tagonista da repressão), através de uma pur-ga conduzida pelo Estado e pelo então minis-tro da Marinha (e cunhado de H.T.) OrtinsBettencourt. Purga relativamente eficaz, co-mo que domesticou a Armada insubordina-da ao Estado Novo. Mas o silêncio oposicio-nista da maioria dos oficiais da Armada nun-ca deixou de ser um facto. H.T. acabou assimpor ser um símbolo das ligações incómodasda Marinha ao Estado Novo, tal como OrtinsBettencourt, e mais tarde Américo Tomás,um trio de amigos que se fez no gabinete mi-nisterial do ministro Ortins, em 1936.
 A inscrição historiográfica tem ainda as-sim zonas de subjectividade inevitáveis.
Julgo que os historiadores que se dedicam a estudos de história contemporânea que pre-sumem controversos do ponto de vista da peleja das memórias (individuais, colecti-vas, sociais) devem assumir claramente a sua posição perante o objecto. Para o leitor,é importante que o biógrafo se revele, seja através de expressões estilísticas, seja pormodos mais explícitos. Julgo que essa rela-ção entre sujeito e objecto é desejável – atéporque eu sou um cidadão que tem uma vi-são crítica do Estado Novo salazarista e cae-tanista, e essa posição reflecte-se, creio quede forma indisfarçável, na historiografia que faço. Embora tente ser o mais neutropossível, não quero nem devo ser anódino.Quem ler esta biografia não terá dúvidas deque ela foi feita por um historiador de es-querda e não de direita.
Este livro anuncia-se como um ensaio inéditosobre o papel dos poderes fácticos na cons-trução da longevidade de um regime autoritá-rio de quase meio século. Como explica a novi-dade, assim tardiamente enunciada?
Quando falamos de poderes fácticos, referi-mo-nos aos poderes não-formalizados, não-instituídos. A historiografia, por tradição, pe-la natureza dominante das fontes,atenta bastante mais nos poderes ins-tituídos – nos poderes constitucio-nais e meramente executivos, nos po-deres formalizados no sistema políti-co, nos poderes sociais também.O carácter insólito de H.T. e do subsis-tema de poder que construiu, resulta do facto de evidenciar uma combina-ção quase excêntrica, excessiva, entrepoderes eminentemente fácticos euns poucos poderes formais. H.T. foiimenso no mapa de poderes do Esta-do Novo. Mas, na prática, formalmen-te, H.T. não era quase nada. Era umhomem que participava em cerimó-nias públicas ao lado do presidente da República e dos ministros, que se in-sinuava e refazia os seus poderes, queservia a elite ministerial de diversosmodos e que dela se servia, através deprocessos oligárquicos, quase semprefácticos. Mas do ponto de vista for-mal, H.T. foi apenas delegado do Governo junto do Grémio dos Armadores de Naviosde Pesca do Bacalhau. E depois, por extensãomeramente fáctica, delegado do Governo junto dos organismos das pescas entretantocriados. Os cargos que desempenhou no apa-relho repressivo do regime (comandante da brigada naval da Legião Portuguesa, deputa-do do partido único do regime, procurador à Câmara Corporativa) não explicam o poderque acabou por ter. Nunca foi membro da eli-te ministerial, nem delfim de Salazar. E noentanto, no desaparecimento do ditador, eleestá presente, tal como em muitos outrosmomentos. Poder inusitado, polvo de múlti-plos braços, uma teia que passava antes demais pela oligarquia corporativa. Que passa-va pelos organismos de repressão do regime,pela imprensa do regime, pelas empresaspúblicas e semipúblicas. É a ditadura demaior longevidade de quantas se formam na Europa de entre-guerras; sobrevive à derro-ta dos fascismos após a Segunda Guerra Mundial, adapta-se e resiste. Nesta sobrevi-vência e longevidade H.T. tem um papel de-cisivo. Achava-se um indefectível salazarista.O marcelismo foi, para ele e para os demaisultras, um delírio imprudente e perigoso.
Que historiografia temos feito então? Por querazões contém este livro tão grande númerode revelações historicamente relevantes?
 A história resulta de uma tensão entre o es-quecimento e a memória. Penso que os deba-tes sobre a memória histórica do salazarismotêm estado bastante enviesados, confundin-do memória histórica e memórias sociais,que são coisas diversas, embora possam sercoincidentes. A memória mitificada do com-bate antifascista inibe muitas vezes uma me-mória plural do salazarismo. Temos dificul-dade em tomar a memória no seu sentido di-nâmico e frágil, socialmente construída ereconstruída a cada momento. E muitas ve-
Até que ponto a história é ainda hoje refém deuma certa necessidade de esquecer?
Creio que neste momento a história do perío-do salazarista conhece um refluxo evidente.Há um efeito preocupante de substituição da produção de textos históricos laboriosamen-te investigados, por toda uma literatura 
light 
que acaba por ser maioritariamente revisio-nista – não tenho dúvidas de que presta esseserviço, mesmo que involuntariamente – o deuma relativização da memória do salazaris-mo nos seus aspectos mais sombrios. Relati-viza-se a natureza repressiva e oligárquica doregime, embora a tradição oligárquica persis-ta, hoje, na democracia que temos, parecen-do até estar em ascensão. Por outro lado, aspolíticas económicas do regime, que duranteanos se acharam promotoras do atraso eco-nómico e social do país, hoje alguns autores ecertos membros da elite política consideramque afinal foram bem sucedidas... Tudo isto sevai inscrevendo de maneira indolor. A mitifi-cação da figura de Salazar é um factoque se constata hoje nos escaparatesdas livrarias.
Para não falar do célebre programa detelevisão que elegeu Salazar como omaior português de sempre. Ou da fic-ção recente, em torno do ditador e/oudo regime, que tem sido produzida pa-ra cinema e televisão.
Salazar na intimidade e esse género deficções – muitas delas promovidas pe-la televisão pública de um país demo-crático! –, voluntária ou involuntaria-mente, alimentam um mito, e inibemuma leitura inteligível e racional da-quilo que efectivamente foi o ditador ea ditadura que protagonizou. Esse tra-balho, só os historiadores o podem fa-zer. Têm, aliás, o dever profissional ecívico de fazê-lo. Julgo que a história do Estado Novo pode ser feita segundouma agenda racional e assumidamen-te cívica, e há quem o esteja a fazer,apesar de não haver uma federação de esfor-ços por parte dos historiadores no sentido deconstruirmos um projecto historiográfico for-te. Os franceses fizeram-no, a vários níveis.Falo de um trabalho que contribua para a edi-ficação de uma memória mais consistente,que possa depois ser consumida e absorvida,nomeadamente pela ficção, evitando os mise-ráveis guiões que se têm feito nesse domíniopara cinema. Em Espanha, há neste momen-to uma revisão crítica da memória, politica-mente patrocinada pelo Estado. Mas há tam-bém um fenómeno, de que pouco se fala, dereabilitação da memória do franquismo. Essemovimento é paralelo, tal como em Portugalo é, embora o folclore salazarista seja uma evi-dência mediática mais intensa. Aquilo que oProfessor Magalhães Godinho, o principalhistoriador português do século
XX
, nos temdito e redito com a sua provecta e respeitávelidade, é que a razão crítica dos historiadores ézes a evocamos de uma forma unívoca, comose houvesse uma memória oficial, «correcta e boa», sobre o Estado Novo. Não há biogra-fias de fôlego de figuras hostis à memória oposicionista ao Estado Novo. A única que te-mos do próprio chefe da ditadura foi feita porFranco Nogueira, um salazarista insuspeito, eque a fez monumental mas absolutamentetendenciosa – esse é um buraco negro na nos-sa historiografia, que se presta a mitificaçõesdiversas de Salazar e a inúmeras narrativas decordel sobre o ditador. Franco tem uma bio-grafia de autoria Paul Preston, uma biografia quase definitiva, uma referência para o géne-ro biográfico histórico. Salazar ainda não te-ve essa biografia séria. Como aliás são escas-sos os trabalhos profundos sobre os salazaris-tas mais proeminentes. Mas do ponto de vista historiográfico e cívico, biografar H.T. é tãodigno e importante como biografar Humber-to Delgado ou o general Norton de Matos.
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