Insólito
«Os cargos que desempenhou no aparelhorepressivo do regime não explicam o poder que acabou por ter.Nunca foi membro da elite ministerial,nem delfim de Salazar.»
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noticiasmagazine
14.JUN.2009
como uma figura incómoda. Uma Marinha que tem uma forte consciência ética da se-paração entre o político e o militar.
Em completa oposição àquela que foi a acçãode Henrique Tenreiro...
Em completa oposição. Eu diria que Henri-que Tenreiro [H.T.] foi uma figura excêntrica ao
ethos
da Marinha. Na verdade, o compro-misso subtilmente político da Marinha com oEstado Novo não foi de modo algum maiori-tário. A Marinha não foi dominantemente sa-lazarista, tinha aliás uma tradição republica-na e até revolucionária, depois crismada revi-ralhista, que teve a sua quebra e a sua subor-dinação ao poder político depois da revolta dos marinheiros de 1936 (na qual H.T. foi pro-tagonista da repressão), através de uma pur-ga conduzida pelo Estado e pelo então minis-tro da Marinha (e cunhado de H.T.) OrtinsBettencourt. Purga relativamente eficaz, co-mo que domesticou a Armada insubordina-da ao Estado Novo. Mas o silêncio oposicio-nista da maioria dos oficiais da Armada nun-ca deixou de ser um facto. H.T. acabou assimpor ser um símbolo das ligações incómodasda Marinha ao Estado Novo, tal como OrtinsBettencourt, e mais tarde Américo Tomás,um trio de amigos que se fez no gabinete mi-nisterial do ministro Ortins, em 1936.
A inscrição historiográfica tem ainda as-sim zonas de subjectividade inevitáveis.
Julgo que os historiadores que se dedicam a estudos de história contemporânea que pre-sumem controversos do ponto de vista da peleja das memórias (individuais, colecti-vas, sociais) devem assumir claramente a sua posição perante o objecto. Para o leitor,é importante que o biógrafo se revele, seja através de expressões estilísticas, seja pormodos mais explícitos. Julgo que essa rela-ção entre sujeito e objecto é desejável – atéporque eu sou um cidadão que tem uma vi-são crítica do Estado Novo salazarista e cae-tanista, e essa posição reflecte-se, creio quede forma indisfarçável, na historiografia que faço. Embora tente ser o mais neutropossível, não quero nem devo ser anódino.Quem ler esta biografia não terá dúvidas deque ela foi feita por um historiador de es-querda e não de direita.
Este livro anuncia-se como um ensaio inéditosobre o papel dos poderes fácticos na cons-trução da longevidade de um regime autoritá-rio de quase meio século. Como explica a novi-dade, assim tardiamente enunciada?
Quando falamos de poderes fácticos, referi-mo-nos aos poderes não-formalizados, não-instituídos. A historiografia, por tradição, pe-la natureza dominante das fontes,atenta bastante mais nos poderes ins-tituídos – nos poderes constitucio-nais e meramente executivos, nos po-deres formalizados no sistema políti-co, nos poderes sociais também.O carácter insólito de H.T. e do subsis-tema de poder que construiu, resulta do facto de evidenciar uma combina-ção quase excêntrica, excessiva, entrepoderes eminentemente fácticos euns poucos poderes formais. H.T. foiimenso no mapa de poderes do Esta-do Novo. Mas, na prática, formalmen-te, H.T. não era quase nada. Era umhomem que participava em cerimó-nias públicas ao lado do presidente da República e dos ministros, que se in-sinuava e refazia os seus poderes, queservia a elite ministerial de diversosmodos e que dela se servia, através deprocessos oligárquicos, quase semprefácticos. Mas do ponto de vista for-mal, H.T. foi apenas delegado do Governo junto do Grémio dos Armadores de Naviosde Pesca do Bacalhau. E depois, por extensãomeramente fáctica, delegado do Governo junto dos organismos das pescas entretantocriados. Os cargos que desempenhou no apa-relho repressivo do regime (comandante da brigada naval da Legião Portuguesa, deputa-do do partido único do regime, procurador à Câmara Corporativa) não explicam o poderque acabou por ter. Nunca foi membro da eli-te ministerial, nem delfim de Salazar. E noentanto, no desaparecimento do ditador, eleestá presente, tal como em muitos outrosmomentos. Poder inusitado, polvo de múlti-plos braços, uma teia que passava antes demais pela oligarquia corporativa. Que passa-va pelos organismos de repressão do regime,pela imprensa do regime, pelas empresaspúblicas e semipúblicas. É a ditadura demaior longevidade de quantas se formam na Europa de entre-guerras; sobrevive à derro-ta dos fascismos após a Segunda Guerra Mundial, adapta-se e resiste. Nesta sobrevi-vência e longevidade H.T. tem um papel de-cisivo. Achava-se um indefectível salazarista.O marcelismo foi, para ele e para os demaisultras, um delírio imprudente e perigoso.
Que historiografia temos feito então? Por querazões contém este livro tão grande númerode revelações historicamente relevantes?
A história resulta de uma tensão entre o es-quecimento e a memória. Penso que os deba-tes sobre a memória histórica do salazarismotêm estado bastante enviesados, confundin-do memória histórica e memórias sociais,que são coisas diversas, embora possam sercoincidentes. A memória mitificada do com-bate antifascista inibe muitas vezes uma me-mória plural do salazarismo. Temos dificul-dade em tomar a memória no seu sentido di-nâmico e frágil, socialmente construída ereconstruída a cada momento. E muitas ve-
Até que ponto a história é ainda hoje refém deuma certa necessidade de esquecer?
Creio que neste momento a história do perío-do salazarista conhece um refluxo evidente.Há um efeito preocupante de substituição da produção de textos históricos laboriosamen-te investigados, por toda uma literatura
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que acaba por ser maioritariamente revisio-nista – não tenho dúvidas de que presta esseserviço, mesmo que involuntariamente – o deuma relativização da memória do salazaris-mo nos seus aspectos mais sombrios. Relati-viza-se a natureza repressiva e oligárquica doregime, embora a tradição oligárquica persis-ta, hoje, na democracia que temos, parecen-do até estar em ascensão. Por outro lado, aspolíticas económicas do regime, que duranteanos se acharam promotoras do atraso eco-nómico e social do país, hoje alguns autores ecertos membros da elite política consideramque afinal foram bem sucedidas... Tudo isto sevai inscrevendo de maneira indolor. A mitifi-cação da figura de Salazar é um factoque se constata hoje nos escaparatesdas livrarias.
Para não falar do célebre programa detelevisão que elegeu Salazar como omaior português de sempre. Ou da fic-ção recente, em torno do ditador e/oudo regime, que tem sido produzida pa-ra cinema e televisão.
Salazar na intimidade e esse género deficções – muitas delas promovidas pe-la televisão pública de um país demo-crático! –, voluntária ou involuntaria-mente, alimentam um mito, e inibemuma leitura inteligível e racional da-quilo que efectivamente foi o ditador ea ditadura que protagonizou. Esse tra-balho, só os historiadores o podem fa-zer. Têm, aliás, o dever profissional ecívico de fazê-lo. Julgo que a história do Estado Novo pode ser feita segundouma agenda racional e assumidamen-te cívica, e há quem o esteja a fazer,apesar de não haver uma federação de esfor-ços por parte dos historiadores no sentido deconstruirmos um projecto historiográfico for-te. Os franceses fizeram-no, a vários níveis.Falo de um trabalho que contribua para a edi-ficação de uma memória mais consistente,que possa depois ser consumida e absorvida,nomeadamente pela ficção, evitando os mise-ráveis guiões que se têm feito nesse domíniopara cinema. Em Espanha, há neste momen-to uma revisão crítica da memória, politica-mente patrocinada pelo Estado. Mas há tam-bém um fenómeno, de que pouco se fala, dereabilitação da memória do franquismo. Essemovimento é paralelo, tal como em Portugalo é, embora o folclore salazarista seja uma evi-dência mediática mais intensa. Aquilo que oProfessor Magalhães Godinho, o principalhistoriador português do século
XX
, nos temdito e redito com a sua provecta e respeitávelidade, é que a razão crítica dos historiadores ézes a evocamos de uma forma unívoca, comose houvesse uma memória oficial, «correcta e boa», sobre o Estado Novo. Não há biogra-fias de fôlego de figuras hostis à memória oposicionista ao Estado Novo. A única que te-mos do próprio chefe da ditadura foi feita porFranco Nogueira, um salazarista insuspeito, eque a fez monumental mas absolutamentetendenciosa – esse é um buraco negro na nos-sa historiografia, que se presta a mitificaçõesdiversas de Salazar e a inúmeras narrativas decordel sobre o ditador. Franco tem uma bio-grafia de autoria Paul Preston, uma biografia quase definitiva, uma referência para o géne-ro biográfico histórico. Salazar ainda não te-ve essa biografia séria. Como aliás são escas-sos os trabalhos profundos sobre os salazaris-tas mais proeminentes. Mas do ponto de vista historiográfico e cívico, biografar H.T. é tãodigno e importante como biografar Humber-to Delgado ou o general Norton de Matos.
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