BIO
É
TICA: DAS ORIGENS
À
PROSPEC
ÇÃ
O DE ALGUNS DESAFIOS CONTEMPOR
Â
NEOS
O M
UNDO
DA
S
A
Ú
DE
—
S
ã
o Paulo, ano 29 v. 29 n. 3 jul./set. 2005307
Potter era considerado um dis-tinto membro da
“
Unitarian Societyof Madison
”
[Sociedade Unitarianade Madison], uma organiza
çã
o deinspira
çã
o crist
ã
que segue o esp
í
ritode Jesus de Nazar
é
e que defende aperspectiva de uma religi
ã
oliberal.Dentre outros objetivos dessa orga-niza
çã
o destaca-se, como sendo oprimeiro,
“
a integridade de vida
”
,que significa totalidade (
wholeness
).Para pessoas de genu
í
na integrida-de, todos os objetivos e quest
õ
es devida est
ã
o inter-relacionados. Osunitarianos constituem-se numaconfraria de livre pensamento, naqual s
ã
o aceitos como membros
“
pessoas de todas as opini
õ
es teol
ó
gicas,que desejam se unir a n
ó
s na promo
çã
oda verdade, justi
ç
a, rever
ê
ncia e caridadeentre os homens
”
. Trata-se de uma as-socia
çã
o aberta, em que o ateu ho-nesto pode se declarar como tal,sem nenhum medo, bem como ocrente piedoso falar de sua liga
çã
opessoal com o universo e com Deussem embara
ç
o.Textualmente, lemos:
“
a
ú
nicaexi- g
ê
ncia que fazemos e que esperamos
é
que sejamos honestos conosco mesmos e comos outros
”
(www.harvardsquarelibray.org/unitarians/madison.html).Embora n
ã
o tenha lido nenhum co-ment
á
rio em quese fa
ç
aesta liga
çã
ocom a organiza
çã
o dos unitarianos,percebe-se uma profunda liga
çã
o docredo bio
é
tico potteriano e a filoso-fia da referida organiza
çã
o.Potter trabalhou por mais decinq
ü
enta anos na Universidade deWisconsin, em Madison, nos Labo-rat
ó
rios MacArdle para a pesquisade C
â
ncer, aposentando-se em1982. Doutorou-se em bioqu
í
mica.Pela sua contribui
çã
o original sobrea compreens
ã
o do metabolismo dasc
é
lulas cancer
í
genas, foi reconheci-do por sua elei
çã
o para a AcademiaNacional de Ci
ê
ncias. Foi Presidenteda Sociedade Americana de pesqui-sa sobre o C
â
ncer em 1974, al
é
mdeter servido em in
ú
meras outras or-ganiza
çõ
es cient
í
ficas de grande pres-t
í
gio nos EUA.Ap
ó
s sua aposentadoria da Uni-versidade, praticamente passou aresidir em sua casa de campo, emmeio a um bosque nas cercanias deMadison, onde, na varanda feita demadeira r
ú
stica, recebia amigos, es-tudantes, e sentia-se em comunh
ã
ocom a natureza. Nos
ú
ltimos anosde vida dedicou-se ao cuidado de suaesposa, Vivian, tragicamente defi-ciente por causa de artrite. Por op-
çã
o, deixa de viajar e dar confer
ê
n-cias pelo mundo afora para perma-necer junto de sua companheira.A
ú
ltima viagem de Potter ao ex-terior foi
à
It
á
lia, em 1990, a convi-te do prof. de Antropologia da Uni-versidade de Floren
ç
a, Bruneto Chia-relli, para falar sobre Bio
é
tica Glo- bal. Ent
ã
o com 79 anos, e n
ã
o maisviajando devido
à
idade, mas rece- bendo in
ú
meros convites para par-ticipar de eventos de bio
é
tica, pas-sa a produzir e enviar v
í
deos de suaspalestras. Temos assim tr
ê
s v
í
deos:1) 1998: sobre Bio
é
tica Global, porocasi
ã
o do
IV
Congresso mundial deBio
é
tica (T
ó
quio), a convite do prof.Hyakuday Sakamoto; 2) 1999: umv
í
deo para o Congresso Mexicanode Bio
é
tica, a convite do prof. Ma-nuel Velasco Suares, que faleceupouco tempo depois; e 3) 2000: umv
í
deo para o Congresso Internacio-nal de Bio
é
tica organizado pela So-ciedade Internacional de Bio
é
tica(Gij
ó
n, Espanha), a convite do prof.Marcelo Pal
á
cios.Uma resolu
çã
o elaborada pelocorpo docente da Universidade deWisconsin em mem
ó
ria de Van Rens-selaer Potter, al
é
m de destacar a im-port
â
ncia de sua vida profissional co-mo pesquisador e professor de on-cologia no Labor
á
t
ó
rio McArdle dePesquisa de C
â
ncer por mais de cin-q
ü
enta anos, enfatiza quesua maior contribui
çã
o para a co-munidade cient
í
fica s
ã
o os maisde 90 p
ó
s-doutorados que orien-tou, e estudantes de gradua
çã
oque, inspirando-se nele, torna-ram-se proeminentes em v
á
rioscampos da ci
ê
ncia, sendo queum deles foi agraciado com oPr
ê
mio Nobel. [....] Para Van, aci
ê
ncia n
ã
o era um
“
trabalho
”
,mas uma experi
ê
ncia
é
tica, apai-xonada e criativa. Al
é
m do mais,ele n
ã
o separava o cientista doprocesso cient
í
fico ou o cientistado contexto social do empreen-dimento cient
í
fico. Essa filosofia,motivada pelo seu conceito de
“
humildade com responsabili-dade
”
, o conduziu
à
fase final desua produtiva carreira
”
(Memo-rial Resolution of the Facultyof the University of Wisconsin).Esta fase final
é
justamente a fa-se da bio
é
tica em seus
ú
ltimos trintaanos de exist
ê
ncia.A pessoa de Potter
é
lembradapelo seus colegas de doc
ê
ncia naUniversidade de Wisconsin como
“
um ser humano iluminado, preo-cupado com o cuidado humano detudo, para que todos pudessem vi-ver, n
ã
o numa utopia, mas em ummundo esteticamente belo e susten-t
á
vel, uma vida satisfat
ó
ria e feliz
”
(idem, 2002).
O
LEGADO
INTELECTUAL
Potter, que chamou a bio
é
tica de
“
ci
ê
ncia da sobreviv
ê
ncia humana
”
(Potter, 1971), tra
ç
ou uma agen-da de trabalho para a mesma quevai desde a intui
çã
o da cria
çã
o doneologismo, em 1970, at
é
a possi- bilidade de encarar a bio
é
tica comouma disciplina sist
ê
mica ou profun-da, em 1988. Alguns lances mais im-portantes deste itiner
á
rio s
ã
o inte-ressantes de recordar, iniciando pelapergunta de como surgiu o neolo-gismo bio
é
tica.Nos anos 1970 a 1971, Pottercunha o neologismo
“
bioethics
”
, uti-lizando-o em dois escritos. Primeira-mente, num artigo intitulado
“
Bio-ethics, science of survival
”
(Potter,1970), e no livro
Bioethics bridge to
Bioetica_da origem a prosp.p6525/11/2005, 15:47307
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bioetica