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Embriões, células-tronco e terapias celulares - questões filosóficas e antropológicas

Embriões, células-tronco e terapias celulares - questões filosóficas e antropológicas

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VIDADEUMA
pessoa com insuficiência hepática aguda pode ser salva porum transplante de fígado, se um fígado estiver disponível (após um aciden-te de trânsito
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, por exemplo). A insuficiência renal é tratada a longo pra-zo pela diálise, mas está provado que um transplante de rim é o melhor trata-mento para este quadro, por ser o tratamento menos dispendioso para a socieda-de e porque ele dá ao receptor uma qualidade de vida bem melhor. Um trans-plante de células beta pancreáticas (produtoras de insulina) às vezes é propostoàs pessoas atingidas pelo diabetes insulino-dependente severo cuja doença esca-pa ao tratamento clássico, para permitir-lhes recobrar durante algum tempo oequilíbrio glicêmico sem a sujeição das injeções hormonais cotidianas. As afecçõesneuro-degenerativas (como as doenças de Parkinson, Huntington e Alzheimer)são objeto, há algumas décadas, de tentativas experimentais de tratamento portransplante intracerebral de células nervosas coletadas de fetos provenientes degravidez interrompida; os resultados são encorajadores. Desde quando se dispõedos meios de combater a rejeição de transplante (ou seja, desde
1984
aproxima-damente, data da comercialização da ciclosporina na França), os transplantes deórgãos e tecidos tornaram-se prática médica corrente, e os pacientes não se es-pantam mais que um transplante de córnea, de tecido ósseo, de intestino, de pele,talvez de face
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, lhes seja proposto, nem que esses tratamentos sejam assumidospor um sistema de saúde solidário, a tal ponto que às vezes um
direito ao trans- plante
é reivindicado. Em nossos países de cultura judaico-cristã, a coleta de ma-téria biológica de corpos mortos é a regra; ela foi bem aceita e na França éencorajada por uma legislão que presume o consentimento do doador (desdea lei de
1976
relativa à coleta de órgãos, chamada “lei Caillavet”, e essa disposi-ção foi retomada pelas “leis de bioética” de
1994
). A situação nem sempre é amesma em outros países. No Japão, por razões culturais e religiosas, a coleta deórgãos da pessoa morta foi proibida durante muito tempo, enquanto a coleta dodoador vivo era mais tolerada.Todos aprovamos o esforço recentemente empreendido para reduzir o nú-mero e a gravidade dos acidentes de trânsito. Nem todos têm consciência de quea redução do número de mortes no trânsito cria (ou agrava) uma penúria de ór-
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gãos e tecidos destinados ao transplante. No que diz respeito à segurança notrânsito, estamos bem atrasados: outros países enfrentaram o problema antes des. Há muitos anos, os britânicos fixaram limites de idade ou condões restri-tivas para o acesso ao transplante no quadro do sistema nacional de saúde
(NHS)
.
Nos Estados Unidos
3
, foi calculado que, enquanto havia (em
2002
) oitenta milpessoas na espera de um transplante, não havia mais do que dez a doze mil óbitosde pessoas “úteis” para a coleta de órgãos, das quais apenas uma entre duas con-sentia em doar (na América do Norte o consentimento não é presumido: eledeve ser explícito). O recurso é insuficiente: se for levada em conta apenas a co-leta da pessoa morta, nos Estados Unidos, a cada dia, quinze pacientes na fila deespera devem morrer por falta de órgão disponível. O autor do estudo america-no (Etzioni,
2003
) passa em revista as soluções que foram propostas: aperfeiçoara coleta de órgãos nos corpos dos falecidos, fazendo, por exemplo, da doação,um dever cívico, como na Espanha, ou utilizando sistematicamente o corpo doscondenados à morte, como na China, ou atenuando a liberdade de opor-se àcoleta, como na França. Ele julga que o rendimento desses métodos é muitofraco, o que pode explicar o desenvolvimento rápido nestes últimos anos detransplantes a partir de doadores vivos. Evidentemente, o transplante cardíaconão está envolvido; mas uma pessoa viva pode ser solicitada a oferecer um deseus rins, um pulmão, um pedaço de seu fígado, sua medula óssea, enfim, todoórgão ou tecido regenerável ou presente em dobro no organismo.A organização da solidariedade entre vivos para a troca de órgãos vitais éexemplarmente a da transfusão de sangue. No que diz respeito à doão de san-gue, os Estados Unidos colocam em prática há vinte anos a ideologia desenvol-vida em um livro de Robert Titmuss
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, que criticava o sistema americano de co-mercialização de sangue. Titmuss mostrava, sobre uma base factual, que este sis-tema é perigoso para os doadores (eles vão dar demais), arriscado para os recep-tores (eles são contaminados mais freqüentemente) e que ele favorece o desper-dício. Ele argumentava a favor de um sistema não comercial, o qual favorece oaltruísmo, encoraja o senso comunitário, contribui para elevar os padrões dequalidade e sobretudo evita a exploração sistemática dos pobres, dos desempre-gados, dos negros, de todos os que estão do lado desfavorecido da fratura social.Titmuss venceu. A retribuição de uma doão de órgão ou de tecido humano éproibida nos Estados Unidos desde o
 National Organ Transplant Ac
de
1984
.Mas prestar-se a uma retirada de medula óssea, de um rim, de um lobo defígado ou de pulmão, é uma operação mais arriscada do que uma doação desangue. Houve acidentes entre os doadores, alguns fatais, e complicações graves,particularmente durante as coletas de material do gado. Para que os recursos seelevem à altura das necessidades, é preciso incitar as pessoas a doar. Isto necessitauma reorientação da legislação: há uma série de projetos de lei atualmente sendoapresentados ao Congresso Americano que prevê a instituição de dispositivosincitadores, desde a medalha, ou o crédito de imposto, ou a cobertura social para
 
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toda vida, ou a inscrição de detentos nas listas de doadores mediante certas van-tagens, até a retribuição financeira direta. A solução liberal por excelência seria a
commodificação
dos órgãos e tecidos humanos, isto é, sua colocação no mercado(
mercantilização).
Não chegamos a esta situação. Mas uma leitura da literatura bioética re-cente mostra que pensadores americanos sensatos, moderados, estão tendendopara a posição liberal como sendo
a menos ruim
no estado atual das coisas. A ar-gumentação procede como se segue, no contexto de uma moral do Bem: pri-meiro os pacientes. Os pacientes precisam de transplantes. É imperativo fornecê-los. É injusto deixá-los morrer.É preciso, portanto, organizar-se para dispor de matéria-prima suficiente.Todo cidadão deve admitir que isto é uma prioridade de saúde pública, e se istodemanda compensações financeiras aos doadores, que elas lhes sejam concedi-das, é um mal menor (assim Robert Veath,
2003
: “tolerate financial incentives asa lesser moral evil”, p.
19
). O detalhe dos argumentos que empurram alguns dadoutrina da gratuidade para uma doutrina da justa compensação é interessantede observar. Encontram-se primeiro os cssicos argumentos de que a gratuidadefavorece o mercado negro, que os pobres poderiam tirar proveito da venda a umpreço público (e em toda transparência) de um órgão não vital, que as partes denosso corpo são como um patrimônio que cada um deve estar livre para gerir aseu modo etc. Estes argumentos, dirigidos contra a doutrina de Titmuss, nãocarecem de plausibilidade. É notório, por exemplo, que um insuficiente renalrico pode atualmente comprar um rim para ser transplantado em tal hospital doOriente Médio, e que a coleta mais ou menos clandestina de rins para esta fina-lidade implica a exploração de doadores pobres e mal informados. Outros argu-mentos são mais incisivos, assim como aquele que compara o compromisso dodoador ao do bombeiro, do policial ou do militar. Nós temos um exército profis-sional. Consideramos normal pagar aqueles que se alistam voluntariamente nes-te exército. Ora, essas pessoas são pagas para arriscar sua vida (e às vezes morrerno combate). Mas é preciso que a nação seja defendida. Pagar aqueles que adefendem é um mal menor (seria pior não pagá-los!). Um outro argumento nostoca de perto, no momento em que se considera a redução, na França, da cober-tura social dos cidadãos: em um sistema de saúde que não cobre todos os riscos,o mínimo que se pode (e se deve) fazer para os doadores vivos (que assumem umrisco a serviço da coletividade) é garantir-lhes uma cobertura social completa – eisto representa um custo financeiro mensurável, que equivale a um pagamentoda doação.Nossas “leis de bioética”
5
não nos protegem contra a necessidade de umareflexão sobre estes problemas. De um lado, elas mantêm firmemente o princí-pio da gratuidade da doação (lei n
º94-653
, artigo
16-6
). De outro, estava pre-visto que elas fossem revisadas ao termo de cinco anos, ou seja, em
1999
, e, apósrios adiamentos, o exame definitivo pela Assembléia Nacional do projeto ado-

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