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NEGAÇÕES E SILENCIAMENTOSNO DISCURSO ACERCA DA JUVENTUDE*
1
tia Andres sa da Sil va
Bo ris escutava atenta mente. Era sem pre inte res sante al  guém ex  plicar como vê a gente. E ade ma is, Se re no ti nha uma voz ba i xa mu ito agravel. Os olhos eram inco modativos.  À pri me i ra vista pa reci am velados de ter  nu ra,  mas quando se olhava melhor  desco bria-se neles qual quer co i sa de duro, qua se de ma níaco. “Está que rendo me pas sar um trote”, pen sou Bo ris, e se manteve atento.
Jean-Paul Sar tre
Neste artigo, procuro compreender como se construí ram as ações jovens em épocas nas quais imperou o totalitarismo. Um importante período que investigo é o nazismo de Hitler, olhando de for ma mais aproximada, o que aconte ceu com essa  juventude? Onde estava a juventude em todo esse complexo pe- ríodo hisrico? Nada oferece, sobre isso, a historiografia tradi- cional, por isso, a busca de outras fontes. Outra im portante fase hisrica que es tudo é o ano de 1968 no Bra sil. Aqui se verifi ca cer ta abertura na histori ografia à idéia de que os jovens foram su jeitos, agentes polí ticos. Mas será que é suficiente para a com- preensão da época? Será que, no exercí cio de historiadores/ professores de hisria, isso está sendo destacado? Realizo a leitura destes momentos de outro lugar, de outro ângulo de observação. Este é um artigo com uma pro posta analí tica, e como tal, não pode ca mi nhar sem uma
conce itu ação
, que implica crí tica e constante revisão e sempre levar em conta as
condições his ri-
1Texto baseado em
Uma análi se acer ca do discur  so so bre a juventude no en si no de his ria
, trabalho de conclusão do curso de Hisria na Universidade do Vale do Rio dos Si nos
UNISINOS
, desenvolvido pela autora, sob a orientação do Prof. Dr. Nilton Mullet Pereira e sob sua argüição e do Prof. Dr. Car los Alfredo Gadea de Castro, ambos da mesma instituição de ensino superior. O trabalho obteve aprovação com distinção no segundo semestre de 2005.
 
cas
que motivam nossas conceituações. A
consciência his rica
das circunstâncias do momento analisado é necesria. Na pri - meira seção do artigo, desenvolvo essa proposta. Após concei- tuar a juventude e suas representações e investigar a historiogra - fia recente, na segunda seção, dedico-me à busca desta agên- cia polí tica da juventude nos momentos selecionados, distintos entre si pelo ca ter dos ob jetivos de sua atuação. Já a metodo- logia empregada na terceira seção deste artigo é o estudo de al- gumas obras diti cas e como elas apre sentam os seus discur - sos. A
 ra zão
é o principal fator de análise dos conteúdos desen- volvidos, e suas implicações, os eixos da crí tica apresentada, alia- das à troca entre conhecimento e poder.
1 Conceituando
 Ao escolher a juventude como meu ob jeto de investigação, a primeira preocupação foi a de conceituá-la. Não é possí vel afir- mar a existência de um con ceito imuvel para designar este ob-  jeto. Escolhendo Michel Foucault e sua análise de discurso como referencial teórico, permito tornar-me autora, já que ele afirma aos seus leitores que se evita a individualização na crí tica aos discursos, surgindo, assim, possibilidades múltiplas de diá- logo entre os
 auto res
, tanto criadores quanto transformado res, sem morais pretensamente abrangentes ou universais para construir este diálogo. Aqui esclareço também que pretendo
 pen sar com Foucault 
, não
usá-lo
, porque, segundo Vaz, “o uso requer uma paciência e uma micia extrema no estudo”
2
, oque não é o caso em meu recente e prazeroso encontro com oautor.Parto da Sociologia para realizar a tarefa da conceituação.  Aliás, é das Ciên ci as Soci ais que par te a ma ior parcela dos es tu- dos sobre juventude, além desta ter sido a prime ira das Ciências Humanas a considerá-la como Categoria Social
3
. Considero a ju- ventude como uma
cate go ria soci al 
, afastando a noção biogi- ca que a conside ra como sen do uma fase da vida, numa con- cepção naturalista. Também ela não se resume a uma
clas se so-ci al 
, definição equivocadamente utilizada em algumas áreas do pensamento das ciências humanas, porque condiciona os indi- ví duos, “aprisionando-os”
 a prio ri
.Como categoria social, a juventude é uma representação sociocultural, ao mesmo tempo que é uma situação social. Apre - senta-se como uma construção simlica, uma representação social de grupos ou indiví duos, assim como pode ser descrita
2
tia Andressa da Silva
2
VAZ
, Paulo.
Um pen sa mento infa me:
Hisria e Liberdade em Michel Foucault. Rio de Ja neiro: Imago, 1992. p. 37. 3
GROPPO
, Luís Antonio.
 Juventude
: ensaios sobre sociologia e hisria das ju- ventudes modernas. Rio de Janeiro: Difel, 2000. p. 7–27.
 
como situação comum a certos indiví duos. Sua importância é fundamental para o entendimento das características das socie - dades modernas, para o funcionamento destas sociedades, e de suas transformações. Por exemplo,
 Acom pa nhar as meta mor fo ses dos sig nificados e vivênci as  soci a is da juventude é um recur  so ilu mi nador para o enten- di mento das meta mor fo ses da pró pria moder  nidade em di- ver  sos as pectos, como a arte-cul tu ra, o la zer, o mer cado de con su mo, as relações cotidi a nas, a polí tica não-institucio -  nal, etc
 4
.
 As especificidades da juventude são gestadas historica- mente, isto é, a modernidade
5
construiu a juventude como hoje ela é conhecida. A característica moderna do instanneo, da fa- ci lidade de cons truir e destruir valores e instituições transforma e remodela as variáveis, isto é, os elementos sociais, conforme as necessidades hisricas que se apresentam. Segundo Borrego
6
,“a juventude reflete as realidades de qualquer sociedade”.É preciso remontar ao surgimento da categoria social
 ju-ventude
no discurso das Ciências Soci ais. Com o advento do ca- pitalismo, as relações de produção destacam novos elementos que compõem a sociedade. A juventude é uma construção his- rico-social, que aparece nos discursos dos séculos
XVII
e
XVIII
,de forma insuficiente e, quando isso ocorre, está representada apenas no seio da sociedade burguesa. Mais tarde é percebida em todos os estratos sociais. A divisão social do trabalho, até este mo mento, se dava por idade e nero, e os mem bros des- sas sociedades, cresciam seguindo o exemplo paterno, paradig- ma de su jeito adulto
7
. Com a modificação das relações familia- res e so ci ais, a in fân cia se prolon ga, e a ju ventude pas sa a ser um gru po em fase de pre para ção para assumir as rendas do ca- pital familiar. A escola surge, então, para assumir esse papel pre -
Cadernos IHU Idéias
3
4Ibidem, p. 17.5A modernidade, segundo Marshall Ber man (1986: 15), constituiu-se “nas aven- turas, no po der, no cres cimento e na transfor mação das coisas ao re dor”. Implica mais complexidade nas relações entre ser humano e ambiente, mas im- plica também a efemeridade destas relações. A modernidade aproxima cultu- ras, raças, ideologias no que concerne ao humano e também enfraquece as teias que se engendram no seio das nossas relações. Modernidade e juventude são dois conceitos que podem ser trabalhados de forma paralela, encontrando-se em algumas etapas do caminho e distanciando-se, na medida em que as le- sões modernas na juventude são causas de certos silenciamentos sobre os nossos agentes polí ticos. 6
BORREGO
, Natividad Guerrero. Concepções e realidades atuais da juventude:
 
aexperiência cubana. In:
 AZEVEDO
, Fábio Pa cio de (org.).
 Juven tude, Cul tu ra e Polí ticas Pú blicas
: intervenções apresentadas no Semirio Teórico-Polí tico do Centro de Estudos e Meria da Juventude (
CEMJ
). São Paulo: Anita Garibaldi, 2005.7
PÀMPOLS
, Carles Feixa.
 A Construção His rica da Juventude
. In:
CACCIA-BAVA
, Augusto;
PÀMPOLS
, Carles Feixa;
CANGAS
, Yanko Gonles (org.).
 Jovens na Amé rica Lati na
. São Pa u lo: Escri tu ras, 2004. p. 257 327.
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