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PROGRAMA PARA UM GOVERNO QUE RESPONDA À URGÊNCIA DA CRISE SOCIAL
A criação de uma Rede de Cuidados Paliativos constitui uma prioridade da política de saúde.Mas os cuidados paliativos não impedem a progressão para a morte e, em inúmeros casos, não suprimemtodo o sofrimento físico ou psíquico dos doentes. Por esta razão já existem alguns países no mundo, que reco-nhecem o direito aos doentes terminais ou incuráveis de escolherem o momento e a forma da sua morte. NaEuropa eles são a Holanda, a Bélgica, o Luxemburgo e a Suiça. A legalização da morte assistida é uma escolhapelo direito à dignidade e à auto-determinação. O direito a recusar um final de vida de sofrimento e dor e odireito a terminar, em consciência, o corpo e a vida têm que ser direitos fundamentais. Nenhum Estado laicoe democrático deve poder determinar ou impor as condições em que cada um morre. Nenhuma teologia podedeterminar o valor da nossa vida e do nosso sofrimento. Nada nem ninguém nos pode substituir na escolha dasnossas opções relativamente ao sofrimento e à morte.Este direito não pode, contudo, ser posto em causa pelas ineficiências do sistema – o Estado tem o deverde corrigir essas ineficiências, de investir na proliferação dos cuidados paliativos, de garantir que, perante ador e o sofrimento, aqueles que escolherem o tratamento e o prolongamento da existência terão que ter acessoaos melhores cuidados e à melhor qualidade de vida possível. Aqueles que escolherem interromper a sua vida,devem-no fazer com o maior conforto e o menor sofrimento possível.O direito à morte assistida garante mais respeito pela nossa história individual de cada um.
3. COMBATER O DÉFICE DO ATRASO COM A EDUCAÇÃO
As linhas programáticas que se apresentam têm uma finalidade: combater o défice do atraso com a edu-cação. As nossas propostas localizam os problemas e justificam-se contra as debilidades, e as forças que têmorientado as políticas educativas.
OS PROBLEMAS
Apesar da extraordinária expansão da escola pública democrática, Portugal mantém evidentes défices deescolarização. Com este atraso perdura, ainda, um outro mais profundo: do ensino básico ao superior, Portugalé um dos países europeus cujo sistema educativo mais continua a reproduzir as desigualdades sociais e culturaisde partida dos/as alunos/as. A igualdade de oportunidades está, assim, muito longe de ter sido conquistada. Adesigualdade no acesso e no sucesso permanecem.Na verdade, os quatros anos de governação do PS em matéria de educação escolheram outras prioridades.Através da oferta profissional introduziram no sistema mais alunos do que há quatro anos atrás. Porém, a po- breza e a exclusão social que se escondiam por detrás do abandono escolar são hoje direccionadas para ofertasescolares que a sociedade desvaloriza. Hoje, temos as escolas que “tomam conta” das crianças e dos jovens e asque estão vocacionadas para a “aprendizagem”. As primeiras são “escolas do saber”, destinadas a estudantes-padrão; as segundas são “escolas do fazer”, para estudantes com contextos sociais e culturais desfavorecidos.A debilidade das políticas públicas para a infância e a adolescência é o cenário em que se tem pedido tudoàs escolas e muito pouco à sociedade e ao Estado. A visão permanece “escolocêntrica” porque ela é vantajosapara os poderes: pedir à escola que resolva os problemas que não criou é falacioso mas confortável, porque atorna presa fácil da culpabilização e das reformas a martelo, como o último governo mostrou à saciedade.É por isso que têm razão os que se têm batido pela abertura dos espaços públicos da escola, pelo desfazerdas suas “muralhas”, pela valorização de todos os actores que, dentro e fora dela, contam para a mudança.À multifuncionarização que vem recaindo sobre professores e professoras, à angústia das escolas às quais sepedem todos os milagres sem nada em troca, este governo acrescentou a liquidação de todos os resquícios de
 
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A POLÍTICA SOCIALISTA PARA PORTUGAL
partilha e cultura colectiva, esvaziando a componente intelectual e a autonomia necessária do trabalho docenteem troca da sua disciplina e desejada obediência acrítica.A sub-representação dos jovens em todas as tomadas de decisão da vida da escola, em particular a ver-gonhosa representação dos estudantes em todos os órgãos de gestão, só adia a responsabilidade. Temos umaescola que não reconhece os jovens como sujeitos.A encruzilhada é muito exigente: há que responder às desigualdades sociais e culturais de partida e que seprolongam no sistema de ensino; há que compatibilizar respostas aos direitos de pais e mães que trabalham,com ofertas de qualidade para os/as seus/suas filhos/as, respondendo, simultaneamente, à sobre-instituciona-lização das crianças e à debilidade dos seus direitos; finalmente, temos que dignificar as condições de exercíciodos profissionais da escola.As repostas a estes desafios começam nas creches e nos jardins de infância de oferta pública, onde é urgenteinvestir nas redes de proximidade e na conciliação dos horários de trabalho com as responsabilidades parentais,ultrapassando o actual negocismo à custa dos cuidados das crianças.O país precisa construir uma outra cultura para a escola pública – centrada nas crianças e nos jovens, que dêprioridade aos equipamentos, às aprendizagens, aos horários, e aos direitos. Este é o compromisso que projectaa escola democrática no futuro.
O PODER E A EDUCAÇÃO: GOVERNO A MAIS, ESTADO A MENOS
A governamentalização das instituições e a debilidade do papel do Estado na definição dos grandes com-promissos para a educação, consagrados na Constituição ou mesmo na Lei de Bases do Sistema Educativo,têm sustentado o experimentalismo legislativo. Nenhum governo foi tão pródigo e tão afoito como o último nahiper-produção legislativa, como nem nenhum outro foi tão consistente na afirmação de um modelo de ensinoe de escola em regime de pensamento único, que desprezou as escolas e abalou a imagem das instituições e dosseus profissionais.Apesar da guerra aberta, o país continua à espera de um projecto educativo nacional que se afirme
 universal
  – direccionado para todos e para todas, independentemente da sua idade e nacionalidade;
democrático
– por-que combate as desigualdades sociais;
 participativo
– porque se organiza numa lógica de implicação de toda/os; e ecológico – porque integra a diversidade dos saberes científicos e populares, técnicos e artísticos ao serviçoda dimensão individual e colectiva.A imposição do pensamento único produziu resultados escolares politicamente simpáticos para quem go-verna, prescindindo de fazer o investimento necessário na qualificação e na capacidade de inclusão do sistemaeducativo. Como no período em que Manuela Ferreira Leite dirigiu o ensino superior, a “reforma educativa”do PS foi de “baixo custo”: a “educação para todos” prescindiu do velho lema que insistia na educação de qua-lidade para todos e deu prioridade à igualdade do acesso sobre a igualdade de oportunidades.Nesta opção o governo PS juntou outros trunfos: desvalorizou o conhecimento e a memória, enquantoenaltecia o valor absoluto das novas tecnologias da informação. Assim se propagou o mito de que o sucessoescolar se resolve com aquelas, desde que os profissionais sejam dóceis e que a qualificação se identifique comcredenciação administrativa. Para o governo do PS, docentes motivados e jovens empenhados converteram-senuma exigência “conservadora”.Assolada pela retórica da reforma pronta-a-vestir (e pronta-a-pensar), a escola vive hoje sufocada numexcesso regulador que impôs mensurabilidades estranhas a um projecto pedagógico criativo e libertador e foisubmersa por uma linguagem importada da gestão empresarial (objectivos, medições e “competências” para omercado de trabalho), sem qualquer lógica inclusiva e democratizadora.De fora ficou o essencial: a definição da missão pública da escola e a superação da debilidade das políticaspúblicas para a infância e para a adolescência – precisamente as que impõem a urgência de um programa de
 
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PROGRAMA PARA UM GOVERNO QUE RESPONDA À URGÊNCIA DA CRISE SOCIAL
esquerda para a escola. Responder ao défice democrático, neutralizar as derivas gerencialistas, privatizadoras eselectivistas, combater a discriminação e o pacto silencioso com as desigualdades sociais e culturais de partida – eis as nossas prioridades.
1. UNIVERSALIDADE, OBRIGATORIEDADE E GRATUITIDADE
A extensão de nove para doze anos da obrigatoriedade de frequência da escola foi um dos compromissosprogramáticos que o governo do PS tardou em assumir. Tardia mas positiva, a medida não pode amortecer aexigência contra o atraso nas primeiras etapas da escolaridade. A extensão da educação pré-escolar, cuja fre-quência é consensualmente reconhecida como estruturante na entrada no 1.º ciclo. Um investimento de fundoneste mesmo ciclo é uma exigência para hoje.Defendemos a obrigatoriedade de frequência de dois anos de ensino pré-escolar e universalização destaoferta dos 3 aos 6 anos. Indo de encontro aos diversos estudos que realçam a crescente importância da educaçãopara a infância como elemento potenciador das competências da criança, bem como potenciador da igualdadede oportunidades no percurso escolar, o Bloco de Esquerda entende que o Estado deve assumir como priorida-de absoluta o alargamento da rede de educação para a infância a todas as crianças com quatro anos de idade.Todas as crianças devem ter direito a uma educação para a infância, a qual, conforme vontade expressa dafamília, poderá ser ministrada em contexto familiar. Em zonas de escassa densidade populacional ou com redu-zido nível económico, a universalidade e gratuitidade da educação para a infância deve ser alargada às criançascom três anos, de forma a permitir que as crianças que provenham de contextos familiares de reduzido nível dequalificação ou de minorias étnicas que falem em casa o português como segunda língua, não fiquem, desdetenra idade, em posição de profunda desigualdade.O governo não assume esta exigência porque não quer o ónus da equivalente oferta pública. O Bloco, pelocontrário, assume a prioridade deste investimento social.• Gratuitidade da escolaridade obrigatória. Na assunção dos princípios norteadores da Lei de Bases em vi-gor, a gratuitidade de frequência é uma condição da democratização. Defendemos a gratuitidade da escolarida-de no que respeita as condições básicas de matrícula, alimentação, manuais e material escolar, como requisitoda extensão para doze anos de escolaridade.Apesar dos passos dados, ou prometidos, pelo governo do PS, a questão dos manuais escolares e dos seuspreços é decisiva.• O direito à informação e ao conhecimento não pactua com os lóbis editoriais nem com o modelo umprofessor/um manual. O Bloco de Esquerda defendeu e defenderá as bolsas de empréstimos de manuais, bemcomo a sua certificação científica e pedagógica. Aposta na obrigatoriedade de as editoras ficarem sujeitas àoferta de manuais escolares a todos/as os/alunos/as carenciados como condição de adopção, mas valoriza adiversificação. Neste contexto, deverão ser apoiadas todas as escolas que assumam no seu projecto educativoa não adopção de manual e que apostem na diversificação de materiais e na elaboração de materiais próprios.• O Bloco de Esquerda propõe um programa faseado de aquisição e fornecimento gratuito de manuaisescolares a todos os alunos da escolaridade obrigatória, mediante a criação de bolsas de empréstimo em cadaestabelecimento escolar. A gratuitidade dos manuais escolares é condição da gratuitidade da frequência daescolaridade obrigatória.• O Bloco de Esquerda recusa a escola dualizada e hierarquizada. Esta asserção em nada questiona a ofertaprofissional no ensino secundário – correspondente, aliás, às expectativas de muitos jovens (traçadas no relató-rio do Conselho Nacional de Educação relativo aos 20 anos da Lei de Bases do Sistema Educativo) – desde queela seja uma opção e não a resposta do sistema para mitigar as desigualdades de partida. O ensino profissiona-lizante é tanto mais digno quanto maior for o seu valor social e cultural e a sua articulação com os projectos de
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