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OS INTELECTUAIS E A ORGANIZAÇÃO DA CULTURAANTONIO GRAMSCIÍndiceI. CONTRIBUIÇÕES PARA UMA HISTÓRIA DOS INTELECCTUAISA Formação dos intelectuais 7Notas EsparsasFunção cosmopolita dos intelectuais italianos 25Intelectuais italianos no exterior 63Europa, América, Ásia 75II. A ORGANIZAÇÃO DA CULTURAA Organização da escola e da cultura 117Para a investigação do princípio educativo 129Notas Esparsas 129III. JORNALISMO 147IV. APÊNDICELorianismo 189I Contribuições para uma história dos intelectuais-- Página 3História dos IntelectuaisA Formação dos IntelectuaisOs intelectuais constituem um grupo social autônomo e independente, ou cada gruposocial possui sua própria categoria especializada de intelectuais? O problema é complexo por causa dasvárias formas que, até nossos dias, assumiu o processo histórico real de formação dasdiversascategorias intelectuais.As mais importantes destas formas são duas:1) Cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundoda produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo e de um modo orgânico, uma ou maiscamadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, nãoapenasno campo econômico, mas também no social e no político: o empresário capitalista criaconsigo otécnico da indústria, o cientista da economia política, o organizador de uma nova cultura,de umnovo direito, etc., etc.-- Página 04
 
Deve-se anotar o fato de que o empresário representa uma elaboração social superior, jácaracterizada por uma certa capacidade dirigente e técnica (isto é, intelectual): ele deve possuir uma certa capacidade técnica, não somente na esfera restrita de sua atividade e de suainiciativa,mas ainda em outras esferas, pelo menos nas mais próximas da produção econômica (deveser umorganizador de massa de homens; deve ser um organizador da "confiança" dos queinvestem emsua fábrica, dos compradores de sua mercadoria, etc.).Os empresários - se não todos, pelo menos uma elite deles - devem possuir a capacidadede_ organizar a sociedade em geral, em todo o seu complexo organismo de serviços, inclusivenoorganismo estatal, em vista da necessidade de criar as condições mais favoráveis àexpansão da própria classe; ou, pelo menos, devem possuir a capacidade de escolher os "prepostos"(empregados especializados) a quem confiar esta atividade organizativa das relações geraisexteriores à fábrica.Pode-se observar que os intelectuais "orgânicos", que cada nova classe cria consigo eelabora emseu desenvolvimento progressivo, são, no mais das vezes, "especializações" de aspectos parciaisda atividade primitiva do tipo social novo que a nova classe deu à luz. ( l)Nota de pé de página 1.Os elementos de ciência política, de Mosan (nova edição aumentada, 1923), devem ser examinados para esta rubrica. A chamada "classe política" de Mosca não é mais do que acategoria intelectual do grupo social dominante: o conceito de "classe política" de Moscadeve seavizinhar ao conceito de elite de Pareto que é uma outra tentativa de interpretar o fenômenohistórico dos intelectuais e sua função na vida estatal e social. O livro de Mosca é umenormecalhamaço de caráter sociológico e positivista, com a tendenciosidade da política imediata,ademais, o que o torna menos indigesto e literariamente mais vivo. (Final da nota de pé de página.)Também os senhores feudais eram detentores de uma particular capacidade técnica, amilitar, e é precisamente a partir do momento em que a aristocracia perde o monopólio dessacapacidadetécnico-militar que se inicia a crise do feudalismo. Mas a formação dos intelectuais nomundofeudal e no mundo clássico precedente e uma questão que deve ser, examinada à parte: estaformação e elaboração segue caminhos e modos que é preciso estudar concretamente.Assim, cabeobservar que a massa dos camponeses, ainda que desenvolva uma função essencial nomundo da
 
 produção, não elabora seus próprios intelectuais "orgânicos" e não "assimila" nenhumacamada deintelectuais "tradicionais", embora outros grupos sociais extraiam da massa doscamponesesmuitos de seus intelectuais e grande parte dos intelectuais tradicionais seja de origemcamponesa.-- Página 052) Cada grupo social "essencial", contudo, surgindo na história a partir da estruturaeconômicaanterior e como expressão do desenvolvimento desta estrutura, encontrou - pelo menos nahistóriaque se desenrolou até aos nossos dias - categorias intelectuais preexistentes, as quaisapareciam,aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não fora interrompida nemmesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas.A mais típica destas categorias intelectuais é a dos eclesiásticos, que monopolizaramdurantemuito tempo (numa inteira fase histórica que é parcialmente caracterizada, aliás, por estemonopólio) alguns serviços importantes: a ideologia religiosa, isto é, a filosofia e a ciênciadaépoca, através da escola., da instrução, da moral, da justiça, da beneficência, da assistência,etc.A categoria dos eclesiásticos pode ser considerada como a categoria intelectualorganicamenteligada à aristocracia fundiária: era juridicamente equiparada à aristocracia, com a qualdividia oexercício da propriedade feudal da terra e o uso dos privilégios estatais ligados à propriedade.(2).2. Nota de pé da página 05:Para o estudo de uma categoria desses intelectuais, a mais importante, talvez, depois da"eclesiástica", pelo prestígio e pela função social desenvolvida nas sociedades primitivas - acategoria dos médicos em sentido lato, isto é, de todos aqueles que "lutam" ou parecemlutar contra a morte e as doenças -, para isso, dever-se-á consultar a História da Medicina, deArthuroCastiglioni. Recorde-se que houve conexão entre a religião e a medicina e que esta conexãocontinua ainda a existir, em certas zonas: hospitais na mão de religiosos no que toca a certasfunções de organização, além do fato de que, onde aparece o médico, aparece o padre(exorcismo,assistência de vários tipos, etc.). Muitas grandes figuras religiosas eram também, e foramconcebidas, como grandes "terapeutas": a idéia do milagre que chegou até à ressurreiçãodosmortos. Durante muito tempo, permaneceu a crença de que os reis curavam pela colocaçãodas
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