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tornava despercebido, como se torna despercebido o bater do coração ou otiquetaque de um relógio de pulso. Fazia-o um doente ao bater na porta fe-chada do seu aposento. Estivesse onde estivesse, sempre havia de encontraruma porta qualquer para se pôr a bater, mesmo que fosse suficiente empurra-la para que ela se abrisse. Se a porta se abria, logo procurava outra erecomeçava o bater; não podia tolerar as portas fechadas. Batia de dia e denoite, ainda que mal o sustivessem as pernas, cheio de cansaço. É provávelque a insistência da sua ideia fixa o tivesse levado a adquirir o hábito detambém bater enquanto dormia; pelo menos, o ruído regular, monótono, quefazia, prolongava-se, noite fora. E, por outro lado, nunca era visto na cama, oque levava a supor-se que dormia de pé, junto à porta.Em conclusão, na clínica havia grande tranquilidade. Às vezes, o que sedava sempre durante a noite, quando o bosque invisível, sacudido pelo vento,soltava lastimosos gemidos, um ou outro doente, tornado duma angústiamortal, começava a gritar. Acudiam-lhe, geralmente, com rapidez para que eleacalmasse; mas havia ocasiões em que o terror e a angústia eram tão fortesque tornavam ineficazes todos os sedativos - e o enfermo continuava a gritar.Então a angústia contagiava todos os habitantes da clínica, e os doentessemelhantes a bonecos mecânicos a que se tivesse dado corda, punham-se apercorrer, cheios de nervosismo, os seus aposentos, ao mesmo tempo queesbracejavam e proferiam coisas estúpidas, ininteligíveis. Todos, incluindo osdoentes menos agitados batiam violentamente nas portas e pediam que oslibertassem.Assustada, cabeça esvaída e juízo extraviado, a enfermeira corria aotelefone para chamar o Dr. Chevirev, que se encontrava no café Babilónia,onde costumava entreter as noites. O doutor possuía o dom de, só com a suapresença tranquilizar os doentes. Contudo, bastante tempo após a suachegada, os enfermos ainda balbuciavam, por trás das portas dos seusquartos, coisas fantásticas, e a clínica lembrava um galinheiro em que tivesseentrado uma raposa.Mas era raro que tudo isto acontecesse e ninguém, de fora, o notava,porque a estrada, à noite, conservava-se completamente deserta. Além disso,ouvidos através das paredes, os gritos pareciam emitidos por criaturas que sedivertiam, para o que contribuíam bastante certos doentes cuja crise lhes davapara cantar.
II
O quarto de Pomerantzev ficava no andar de cima e a sua janela davapara o bosque. No Verão, quando o invadia o perfume dos pinheiros e dasacácias e se via sobre a mesa uma jarra com flores, dir-se-ia que,efectivamente, estava ali uma casa de campo. Das paredes pendiam trêsquadros levados por Pomerantzev, a que se juntava o retrato de um seu filhoque, havia muito tempo, morrera de difteria; e estas coisas concediam aoaposento um aspecto bastante agradável. Pomerantzev sentia-sesatisfeitíssimo com as suas dependências e passava longos momentos nacontemplação dos quadros, um dos quais representava uma rapariga aguardar patos, outro um anjo abençoando a cidade e o terceiro um rapazitaliano. Convidava toda a gente a visitar o seu quarto e comprazia-seextraordinariamente em fazer que o Dr. Chevirev fosse vê-lo o maior número
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