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Um trecho do
 De Profundis
 
por Oscar WildeNotasBruna T. GibsonWikipédia e Google
[umeoutro.net]
 
 
 
2Oscar
Fingal O’Flahertie Wills
Wilde
(16/10/1854 – 30/11/1900) foi um drama-turgo, poeta, contista e novelista irlandês. Conhecido por sua espirituosidade, tor-nou-se um dos escritores mais famosos do final da era vitoriana, e uma das gran-des celebridades da sua época.Wilde era dotado de uma profunda sensibilidade, senso estético e gênio, mas, comoele mesmo revela, se deixou “atrair por longos períodos de ócio sensual e insensa-to. Divertia-me ser um
 flâneur 
, um dândi, um homem da moda. Cerquei-me de na-turezas menores e de inteligências medíocres. Dissipar o meu próprio gênio e des-baratar uma juventude que me parecia eterna provocava em mim uma estranhaalegria.” E nesse estado de espírito manteve uma conturbada relação com o Lord Alfred Douglas, que resultou em uma série de julgamentos amplamente acompa-nhados pela mídia. Foi condenado em 25 de maio de 1895 por
gross indecency
 (grave indecência) e sentenciado a dois anos de trabalhos forçados, pena que aca-bou sendo cumprida da prisão de Reading.
 De Profundis
foi uma carta escrita a Lord Douglas (ou “Bosie”, como Wilde costu-mava chamá-lo) durante os dois últimos meses de cárcere.“Eram oitenta páginas escritas em letra miúda, em vinte folhas de papel azul enci-mado pelas Armas da Coroa, fornecidas pela direção do presídio. Wilde só podiareceber uma folha de cada vez, e esta, uma vez preenchida, era retirada e substitu-ída por outra. Assim, ele não chegou a revisar o documento final, sendo portantoextraordinária a maneira como este flui naturalmente, já que o manuscrito originalquase não apresenta correções.” (do prefácio de Vyvyan Holland, segundo filho deW., em junho de 1949) A expressão
 De Profundis
é comumente utilizada em referência ao Salmo 130, noqual o salmista, em grande sofrimento, implora a Deus pela misericórdia que,quando experimentada, leva a uma concepção mais profunda da divindade. A temática desenvolvida por Wilde neste trecho, a partir da idéia suscitada pelotítulo, se resume em uma nova concepção de vida. Descrevendo todas as etapas deseus sofrimentos (mais internos do que externos) na prisão, ele fala de como a dor,sentimento repudiado na sua vida repleta de prazeres, tornou possível a constru-ção de uma nova idéia sobre a beleza e a arte. (curiosidade: Wilde, que tinha umaBíblia em sua cela, tece comentários acerca dos “quatro poemas em prosa” sobreCristo, e como este foi o maior poeta romântico que já existiu.)Sim, o texto é longo. Mas vale a pena.Distribuam à vontade. Abraços,Bruna
 
 
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 De Profundis
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 Coleção L&PM Pocket, 2002Tradução de Júlia TettamanzyRevisão de Flávio Dotti CesaÉ preciso que eu diga a mim mesmo que fui o único responsável pela minha ru-ína e que ninguém, seja ele grande ou pequeno, pode ser arruinado exceto pelaspróprias mãos. Estou pronto a afirmá-lo. Tento fazê-lo, embora eles possam nãoconcordar comigo neste momento. Esta impiedosa acusação eu a faço sem piedadecontra mim mesmo. Terrível foi sem dúvida o que o mundo fez comigo, mais terrí-vel ainda foi o que eu fiz contra mim mesmo.Fui um homem que se colocou em relação simbólica para com a arte e a culturado seu tempo. Concebi essa idéia desde a mais tenra juventude e mais tarde obri-guei meus contemporâneos a aceitá-la. Poucos homens conseguem atingir tal posi-ção enquanto ainda vivos e fazer com que os outros a reconheçam. Geralmente elasó é percebida pelo historiador - quando isso acontece - muito tempo depois,quando tanto o homem quanto a sua época já desapareceram. Comigo foi diferente:eu percebi por mim mesmo e fiz com que os outros o percebessem. Byron
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tambémfoi uma figura simbólica, mas suas relações eram com a paixão da sua época e ocansaço e o tédio que essa paixão inspirava. As minhas relações eram com algobem mais nobre, permanente, vital e abrangente.Os deuses me concederam quase tudo: eu possuía o gênio, um nome, posição,agudeza intelectual, talento. Fiz da arte uma filosofia e da filosofia uma arte, nãohavia nada que dissesse ou fizesse que não provocasse a admiração das pessoas.Peguei o drama, a mais objetiva das formas da arte que se conhece, e transformei-onuma forma de expressão tão pessoal quanto o poema lírico ou o soneto, ao mes-mo tempo que ampliava o seu alcance e enriquecia as suas características. Drama,novela, poema em prosa ou verso, diálogos fantásticos ou sutis, o que quer que eutocasse tornava belo, com um novo tipo de beleza; atribuí à própria verdade, comosua legítima jurisdição, tanto o que é falso quanto o que é verdadeiro e demonstreique o falso e o verdadeiro são apenas formas de vida intelectual. Tratei a arte comoa suprema realidade e a vida como uma mera ficção. Despertei a imaginação doséculo em que vivi, para que criasse um mito e uma lenda em torno da minha pes-soa. Resumi todos os sistemas numa única frase e toda a existência numa epígrafe. Além de todas essas coisas eu ainda tinha algo diferente. Mas me deixei atrair porlongos períodos de ócio sensual e insensato. Divertia-me ser um
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, um dân-di
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, um homem da moda. Cerquei-me de naturezas menores e de inteligências me-díocres. Dissipar o meu próprio gênio e desbaratar uma juventude que me parecia
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