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Direitos exclusivos para língua portuguesa:
Copyright © 2007 L P BaçanPérola — PR —
Brasil
Edição do Autor. Autorizadas a reprodução e distribuição gratuita
desde que sejam preservadas as características originais da obra.
ÍNDICE
 
 
 
PREFÁCIO
 
Aliando sensibilidade com o uso inesperado das palavras, Baçan revela as profundezas daalma humana e disseca esse sentimento chamado amor com a imparcialidade de umapaixonado, pois, em suas palavras, o amor revela nuances extremas, indo da desilusão aoerotismo com uma facilidade incrível.Em determinados momentos, com uma precisão Quase cirúrgica, ele disseca seus própriossentimentos, expondo-se intimamente à visão do leitor.Para isso, no entanto, é preciso que esse leitor esteja atento à trama oculta em cadapoema, aos atos falhos que transferem sutilmente a visão pessoal do mundo para uma visãopessoal da própria intimidade.Cada poema é um desafio, uma descoberta e uma surpresa, onde o olhar do poeta capta,com uma sensibilidade ardente e muitas vezes atônita, a própria perplexidade e o própriodeslumbramento.
Rubens Francisco Lucchetti
 ALCHIMIA
ignea formarebeldestaticaflamadentes rompendo o freioalternanciasviracoesoficio do penduloplenitude de imagensfugaz aprisionadoinvazio inesperadopluriencontrosignificadosgenesereinvencaofilosofal alchimiasemente desaninhadasemem semanticopalavra dissecada
 
CRIMINAL
Um crime violenta a tua alma simples.Idéias acorrentadaslimitamo poder da palavradomando reações e sentidos.Um crime violenta a tua alma simples.A palavra cria o vazioo vazio idolatra a palavra.
 
HERÓI
Imagin...ação...Imag...em...ação!Por onde começarse o herói ficousó?
 
POMAR
Há um pomarfadado à solidãode frutos simplesque nunca serão colhidose um vigilanteostentando tristeuma espingarda de matar crianças.E a meninice tentando atravessar a cercaem busca do fruto simplesencontra sempre o olhar durodo cano da espingarda vigilante.E todos os dias a meninice morree os frutos continuamapodrecendo em vão.
FIAT LUX
A sombra do machadolimparápidae necessárianão reconhece a florestanem os coraçõesriscados nos troncos.A sombra do machadoabomina o cortemas elabora continuamentea tragédia da luz.
 
DEBANDADA
Batem na porta.O eco dos ventose das paisagens passadas ensejam a interminável procissão dos amigosna irreverência de uma entrada forçada.Inútil providência!O que se quer evitar é a fuga!
OPERÁRIO
Ronca o motor em sua mentenoite e diaenquanto as mãoselaboram a máquina.De peças e poliasrodas e engrenagensé feito o motore mais as mãos.Depois de prontoele sabedia e noiteem sua barriga roncará o motorelaborado por suas mãos vazias.
INSTANTÂNEO
Ave em vôo verticalvelozdesafia o movimento da pedra.Súbitop l a n ah o r i z o n t a l i z a n d oa queda.O vítreo pássarode asas quebradasfinca-se na terra:natureza final da pedrana intenção temporária do pássaro.
FÊNIX
Na madrugada planeja sua voltano barulho do primeiro ônibus urbanono perfume de pão fresco e café quentena pele da manhã.Hálito purificado de hortelãolhos de ave reaprendendo o diarepensao que poderia sero que poderia ter sidose recusasse o destino de fênixe fugisse ao prazer do fogo.
DESCOBERTA
Despojada flor de seu instinto alado:o perfume próprio abstraídono canteiro mal interpretado.Cansaço marcado no perfil circunflexo.Nos olhos marinhos cintilando a lembrança da onda passageira.As pétalas ousando ainda o frescor de outrora.Patético jardineiro de gestos atônitos ante a rosa inesperada:terrível dilema da colheita suspensaconquanto desejada.
 
BANQUETE UNIVERSAL
Abstrair a imagemda barca de velas murchas e escudos prostradosanunciando a concha para sempre vazia.Negar o gigantesco banquete anunciadoque eclodirá de nóse fará de nosso romance vitala última e frugal refeição.Afinal, quem sabiadesde o primeiro gritoo destino final da barcao prato principal da refeição?
 
ENIGMA
Ingrato ofício da buscanuma natureza solidificada...Captar o sutila música terminadao sabor perdidoo que ésendosido.Garimpar palavrasdecifrandocompondoo enigma dos signos imperfeitos.Ingrato ofício da busca...
 
LEITURA
Apenas chegare acontecerinesperadosem índiceapenassujeito de seu objeto dissecado.Assim conhecero sentido pleno do verboe se fazer versona sintaxe insofismáveldapalavra desvendada.
TESTAMENTO
Dorme como quem morrecom a obra inacabadaA esperança no sonhoé o encontrodo movimento perpétuo.Cada pedaço agregado à obracobra seu preço eé só mais umnão o último e o definitivoDorme como quem acreditana obra inacabada
 
INTERMEZZO
Acima das tendase dos travesseirosser amorsem rimas intermediáriasé o dilemado verso!
 
PASSOS
Indeléveis na poeiradão consistênciaà passagem do caminhante.Transcendem às horasarbitrários em sua levezaimpregnando a paisagemcomo rugas inesperadas e incômodas no tapeteensinando os porquês do caminhoe o sentido da viagem.
 
RESISTÊNCIA
Indefinível semblante no espelho assustadobusca a natureza petrificada.Ouvidos atentos esperam o cantono vestido inquieto das ondas.Visão e sentido se confundemno gesto indefinidode deter as horas.O tempo assiste impassível a resistência inútil.
CONQUISTA
Vencer o geloe instalar a brasafabricando a chama.Traçar o assombrona revelação desprendidaà altura da pétala oferecida.Dissipar a neblinae vislumbrar o corpo.Conviver com a chama.
 
RECOMEÇO
Gestos e palavras ensaiam a dança recomeçada.Sabores e odores insinuam a fome redescoberta.No espelho reprimidoolhos atônitos encaram a estrelarefeitano céu reinventado.
 
ERÓTICA
Pecados.Pecadilhos.Rubros entreabertos.Posse espalmada.Frenesi.Perfume.Umidade.O cheiro e o gesto.O respirar apressado.O vaso onde a flor se exibe.Languidez.Os olhos de não dizendo o sim do talvez.O fogo gerando a fenda na terra.A nudez exposta ao vítreo maravilhado.A seta o raio o punhal implacávelabrindo a ferida feitabuscando o significado da dor ultrapassadaalém do corteà procura da fusão cauterizadora do prazer.Como não fazer da lassidão a recompensa?
 
AMAR
Quem ama não morre:adormece na calmado amor alimentado de si próprio.Passa de um estado a outrocruzando a frágil fronteirade seus próprios limites:transforma-se na pessoa amada.Quem ama não morreao perceber-se invadido e limitado em novas fronteiras.Fica em convulsãoterrível estado que antecede a paz.
MUDANÇAS
Avaro e desnudo sentimentode perplexidadeante o nervo exposto.O passo novo é o mesmo passo de antigos erros cometidos.A experiência aponta o caminho não traçadoao desbravador esgotado em si mesmo.A angústia da direção perdidae o objetivo ao alcance da mãochocam seus dedos crispados.
 
ELOQÜÊNCIA
Eloqüente silêncioabafado no travesseiro móvelimpassível diante das horase do suplícioao lado o telefone mudo jamais tocarána hora mais amarga da madrugadanem o engano acompanhaos suspiros perdidos na noitecomo o lamento das árvoresou o gemido das marquisesem algum ponto da cidadeolhos espreitam na escuridãoolhando o mesmo telefone mudoabraçando o mesmo travesseiro vazioNa eloqüência do nãoo medo maior do sim.
CONTRADIÇÃO
Estranha paixão feitana espada que deve ser feridana flor que deve ser defloradano mal que deve ser gozadono bem que deve serpervertido!Estranha dádiva ofertadano ritual profanode lençóisestendidos!
 
ATO FALHO
Entre a pedra e o riopreferiu ser pedrae paredão sombreando caminhos.Não quis reflexosengolindo-se na escuridãopara ser paisageme nunca mais correnteza.Desprezando a águaeu me fiz sede.
AMOR PERDIDO
Quero o amor ocultona madrugadasua natureza noturnaexplicando os segredosda perfeição refletida nos espelhos.Quero seu brilho longínquofeito farol atormentandomeus olhos cansados.Quero o amor ainda ocultona madrugada refletidanos espelhos ainda atônitos...
 
INTIMIDADE
Penetro em teu banheiro.Teu shampu ejacula em minhas mãos.Teus cabelos...teus pêlos...Somos iguais!
 
DANÇANDO EM SUA FESTA
Não é meu somesse ritmado bater!Não são meus passosculpados dessa poeira.Apenas vie seguios movimentosinfindáveisdo seu fascínio.Disso eu me reconheço culpado!
 
ANOITECENDO EM TI
Capto apenas pequenos gestosna fluidez agonizanteda tarde em que te olho.Desvelada e reveladaencobres agora a manhãquando me fiz dia.A noite cai...lá fora e em ti.Odeio a tua escuridão!
 
FOME
Crava teus dentes sem pudorque a presa submissalouva a tua fome.O sorriso famintoreserva o golpe fatal
 
que me recolherá sangradoe me devolverá intacto ao banquete final de tua passagem.
 
CONFRONTO
E ali estávamos nós:pantera submissa recriando a pazanjo maldito reinventando a guerra.Os cabelos te animavamconfundiam-se meus pêlos.Na região intermediáriaexplodiam combates.Em teus cabelos aflorava o perfumee em meus pêlos o ataque.Desejos desencontradosinsinuavam-senas cláusulas do armistício.
 
CRIAÇÃO
Com a palavra me fazes ousadiacom a palavra te faço realidadeflor ou feravontade e momentoperfumando ou dilacerando.Com a palavra me fazes metáforaCom a palavra te faço alegoriacruz ou bálsamoferida e castigocurando ou dilacerando.Com as palavra te invento...Com a palavra me destróis!
 
MÁQUINA VIVA
Buscar o soft fora de modano hardware do teu corpo laserimprimindo colunasno formulário contínuo do lençol.Processar megabitesna superfície polidade teu peitoonde se cruzam bandoleirasque alimentam teu winchesterTe odeio máquina.Te anseio suave e permanentedigitadaprogramadaestimuladareagindona superfície envolventee áspera da memóriaonde te deitei máquinae te acordarei mulher.
PECADO
Oscilamosà mercêda atraçãoe do temor.Isto nos embalamas não nos adormece.
MARCAS
Teu olhar sabe de mimtanto quanto sabe de tio meu olhar.É passageiro!Tão passageira quanto a marca de tique trago em mimou a marca de mimque levas em ti.Lavável!Porém indelével!
 
RESTAURAÇÃO
Recompor-tea partir da palavrarestaurandoa unidadef r a g m e n t a d ana paciência do ofícioaprendido.Reconstruir-tevisão única e refeita no afã domado de te fazer imagemde meus fragmentosdesencontrados.
 
INVASÃO
Habito lentoo espaço de tua memória:oxidada marcaa espalhar-se em teu espelho.Convivo com tua realidadealastrando-me.Celebro o terreno conquistado.
 
ESFINGE
Vento em tuas dunas vi-vas raiz movediça em teuareal fértil: não apenassuperfície no ventre deteu ser desnudo.Transparência!Poupar o ofício de elabo-rar o enigma e reter o pri-vilégio de fazer esfingespara nossa mútua desco-berta.
 
LOUVAÇÃO
Louvo a força de suas garras,cômoda jaula onde aprendi o gosto pelo cativeiro.Sua atenção carcerária fechou a porta para o pássaroque deixei prender.A escravidão de reicerrou as janelase as trevas sempre me pareceramo manto sutil de seu corpo nu.
SOMBRAS
Invento o teu perfumeem minhas mãoslembrando o gestoInvento o teu saborem meus lábioslembrando o momento(as sombras do quartosão fantasmas passadosdas cenas de amor que não vivemos)Perfume e sabor inventam a sombrade tua passagem.Eu me rendo à certeza de tua ausência!
 
PARA VOCÊ
Nas entrelinhasas imagens subtraídassão para você.O que não digonão émedopudorou reserva.O que não digo está nas entrelinhase as entrelinhas são para você.
 
ENCONTRO
No silêncio compreendia-seo enigma da esperae seu engano.Nada havia para ser dito.No espelho incandescenteo vapor das horasnublava a imagem desejada.As lágrimasna poeira do tempoagarravam-seà possibilidade perdida.Um diaolhares se desencontraramirremediavelmente.
 
SOMBRAS
Tua sombra esboça a fuga e oculta o perfume mais íntimoda minha lascívia emboscada.Estamos sós.A sede e a fome elaborama fala na língua ensaiadae nos ensinama perfeição dos encaixesa penetração das formase o mistério constantede nossa natureza inesgotável.
OLHARES
A nudez constrangidaoculta-se no silêncio revelador.No diálogo incompleto dos olharesflagramo-nos à caça das mesmas respostas.Tento interpretar um simna inconsistência de seu nãoinconstante.O enigma insinua-seno jogo das respostas.
 
BRINQUEDO DE GENTE GRANDE
Alegra-me tua inquietaçãobem-amada.Alegra-me saberque ainda sou possívelna inquietaçãode nossaimpossibilidade.
 
RECUSA
Como recusar-temotivo de minha busca?Como recusartua invasão inesperada e a fome de minha própria fome?Como recusar a volta inevitávela minha solidãointacta?
 
E se...
... tivéssemos sido?Teria sentido tanta inquietaçãoe aceito com serenidadea dorde uma paixão tão antiga?
 
CONVERGÊNCIA
Tudo em mim converge para a lassidãode teu corpoonde sonho o instante morno do soproque trará teu perfume mais íntimo.Exponho esperanças no varal onde se estenderiammulticores e reveladoras as nossas peças íntimas.No lençol denunciador vejo as marcasdo que poderia ter sidodo que seriae do que estaria sendo.
 
TRAIÇÃO
Como viver à sombra alheiae traçar os mesmos caminhos de salivano corpo fascinado?Como sabero mesmo sabor dividido?Como penetraro mesmo segredo desvendado?O toque é ferro em brasa.A sombra alheiab ia nr tr re ai nr sa ponível de ciúme!
 
HOJE
A mágica indagado inesperado em nossa trajetória mutável...Somos hoje nossa própria contradição:indago de ti em meus atos e teus atos indagam de mim.Respostas inesperadas tentam a explicação plausível:Fomos umsimplesmentee isso tornou nossa busca tão trágica.
SÚBITO ENCONTRO
De novo reaprendero jogo esquecidoparte do jogo maiorque temos sempre perdido.De novo deixarde lado o apelo constanteparte do jogo intriganteque não queremos lembrar.E assimmanter o jogo renovadoe o velho apelo esquecidoignorando o resultadopara sempre repetido.Continuamos sós!Jamais aprenderemoso que foi ignorado.A noite cai lá fora e em tiodeio a tua solidãocomo odeio a escuridãoa que por ti fui condenado.
 
SUGESTIVA
Há artenas formas arredondadasque não vejo.Mais belas e suavesimaginadasarrancando o frêmitosuscitando o toque!
 
LUZ E SOMBRA
Como adivinhar a dádiva da luzna sombra fabricada em teus cabelosno perfil tombado?Que mágica:naufragar em luz e adivinharo sorriso e o enigma do tempono teu lugar vazio!Desvendar aos poucos...Porque sempre foi assime assim sempre será.Porque o sol raiasó raiae nós inventamos a luz!
 
SORRISO
Meu olhar há de cortar ao meio.O tempo seccionadocongelará o momento.Este há de ficarintocadopara meu sustentoemoldurando o súbito instanteem que me fiz sole te descobri luar.
 
JARDIM
Lírio e violetarasgam a vendano segredo do jardim.O sol brotano céu de retalhosem liquidação.A brisa ruidosalança o primeiro beija-florcontra a primeira flor despertana lacrimosa manhã.Natureza em pazno equilíbrio precárioà espera do primeiro grito.
 
ARQUITETURA
Arquitetar a rosa a partir do espinhono beijo despetaladono tronco trêmulo.Trilhar a impaciênciana trajetória vertical rumo ao vértice...Pairarabelha ou beija-flor...Desfolhar-te do jardim com que te cobres e de que te dispoelaborando tua nudez de flor.
 
CHANCE
As marcas em teu tronco não indagam de mim.Sejamosapenaspetrificados.A semente fugidiaestabelecerá o fascínioda história recomeçada.
 
SIDERAL
Gravitar tua imagem solidificadaem minha imaginação liqüefeita.Orbitar tua terra fértilfeito lua infértilexibindo faces e fasessugando tuas marés.Destino planetário:pairar sobre o apocalipseno limite da atração sempre evitada.
 
DOMA
Enredar a trama de onde eclode a flor incendiada:tenso amálgama de súbitas pétalas em contida clausura.Dessazonar o labirinto vegetal em que se escondeo fruto de intraduzíveis nuances.Engendrar a volúpia no tronco úmidopor onde garras deslizam no afã da luxúriaenxertando frêmitos.Contrariar a natureza aérea que te faz verticalimpondo minha conseqüência de furacãoque te deseja horizontal.
 
CAÇADA
Buscá-laem estranhos caminhosrecaminhadosretemidosrefascinados.Caçá-lana perturbaçãoreinvadidadas artimanhasreinventadas.(De que feitiço ou sortilégio foi feita a escolhase desde o princípio dos temposeras Evae eua serpente desconcertada?)
 
PASSAGEM
Aprendemos juntos a lição do perfumee o sentido dos coraçõesriscados nos troncos.Soubemos juntos a missão da águae o sabor dos beijos antigose das tempestades de outrora.A relva nos serviu de leito.Tentamos hoje reviver a trama vegetal que nos uniue insiste em reatar os mesmos nósmas a poeira outonalflutuando no entardecerapenas confirma a nossa passagem.
ESTAÇÃO DAS ÁGUAS
Pois que brota enfim a água
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