PREFÁCIO
Aliando sensibilidade com o uso inesperado das palavras, Baçan revela as profundezas daalma humana e disseca esse sentimento chamado amor com a imparcialidade de umapaixonado, pois, em suas palavras, o amor revela nuances extremas, indo da desilusão aoerotismo com uma facilidade incrível.Em determinados momentos, com uma precisão Quase cirúrgica, ele disseca seus própriossentimentos, expondo-se intimamente à visão do leitor.Para isso, no entanto, é preciso que esse leitor esteja atento à trama oculta em cadapoema, aos atos falhos que transferem sutilmente a visão pessoal do mundo para uma visãopessoal da própria intimidade.Cada poema é um desafio, uma descoberta e uma surpresa, onde o olhar do poeta capta,com uma sensibilidade ardente e muitas vezes atônita, a própria perplexidade e o própriodeslumbramento.
Rubens Francisco Lucchetti
ALCHIMIA
ignea formarebeldestaticaflamadentes rompendo o freioalternanciasviracoesoficio do penduloplenitude de imagensfugaz aprisionadoinvazio inesperadopluriencontrosignificadosgenesereinvencaofilosofal alchimiasemente desaninhadasemem semanticopalavra dissecada
CRIMINAL
Um crime violenta a tua alma simples.Idéias acorrentadaslimitamo poder da palavradomando reações e sentidos.Um crime violenta a tua alma simples.A palavra cria o vazioo vazio idolatra a palavra.
HERÓI
Imagin...ação...Imag...em...ação!Por onde começarse o herói ficousó?
POMAR
Há um pomarfadado à solidãode frutos simplesque nunca serão colhidose um vigilanteostentando tristeuma espingarda de matar crianças.E a meninice tentando atravessar a cercaem busca do fruto simplesencontra sempre o olhar durodo cano da espingarda vigilante.E todos os dias a meninice morree os frutos continuamapodrecendo em vão.
FIAT LUX
A sombra do machadolimparápidae necessárianão reconhece a florestanem os coraçõesriscados nos troncos.A sombra do machadoabomina o cortemas elabora continuamentea tragédia da luz.
DEBANDADA
Batem na porta.O eco dos ventose das paisagens passadas ensejam a interminável procissão dos amigosna irreverência de uma entrada forçada.Inútil providência!O que se quer evitar é a fuga!
OPERÁRIO
Ronca o motor em sua mentenoite e diaenquanto as mãoselaboram a máquina.De peças e poliasrodas e engrenagensé feito o motore mais as mãos.Depois de prontoele sabedia e noiteem sua barriga roncará o motorelaborado por suas mãos vazias.
INSTANTÂNEO
Ave em vôo verticalvelozdesafia o movimento da pedra.Súbitop l a n ah o r i z o n t a l i z a n d oa queda.O vítreo pássarode asas quebradasfinca-se na terra:natureza final da pedrana intenção temporária do pássaro.
FÊNIX
Na madrugada planeja sua voltano barulho do primeiro ônibus urbanono perfume de pão fresco e café quentena pele da manhã.Hálito purificado de hortelãolhos de ave reaprendendo o diarepensao que poderia sero que poderia ter sidose recusasse o destino de fênixe fugisse ao prazer do fogo.
DESCOBERTA
Despojada flor de seu instinto alado:o perfume próprio abstraídono canteiro mal interpretado.Cansaço marcado no perfil circunflexo.Nos olhos marinhos cintilando a lembrança da onda passageira.As pétalas ousando ainda o frescor de outrora.Patético jardineiro de gestos atônitos ante a rosa inesperada:terrível dilema da colheita suspensaconquanto desejada.
BANQUETE UNIVERSAL
Abstrair a imagemda barca de velas murchas e escudos prostradosanunciando a concha para sempre vazia.Negar o gigantesco banquete anunciadoque eclodirá de nóse fará de nosso romance vitala última e frugal refeição.Afinal, quem sabiadesde o primeiro gritoo destino final da barcao prato principal da refeição?
ENIGMA
Ingrato ofício da buscanuma natureza solidificada...Captar o sutila música terminadao sabor perdidoo que ésendosido.Garimpar palavrasdecifrandocompondoo enigma dos signos imperfeitos.Ingrato ofício da busca...
LEITURA
Apenas chegare acontecerinesperadosem índiceapenassujeito de seu objeto dissecado.Assim conhecero sentido pleno do verboe se fazer versona sintaxe insofismáveldapalavra desvendada.
TESTAMENTO
Dorme como quem morrecom a obra inacabadaA esperança no sonhoé o encontrodo movimento perpétuo.Cada pedaço agregado à obracobra seu preço eé só mais umnão o último e o definitivoDorme como quem acreditana obra inacabada
INTERMEZZO
Acima das tendase dos travesseirosser amorsem rimas intermediáriasé o dilemado verso!
PASSOS
Indeléveis na poeiradão consistênciaà passagem do caminhante.Transcendem às horasarbitrários em sua levezaimpregnando a paisagemcomo rugas inesperadas e incômodas no tapeteensinando os porquês do caminhoe o sentido da viagem.
RESISTÊNCIA
Indefinível semblante no espelho assustadobusca a natureza petrificada.Ouvidos atentos esperam o cantono vestido inquieto das ondas.Visão e sentido se confundemno gesto indefinidode deter as horas.O tempo assiste impassível a resistência inútil.
CONQUISTA
Vencer o geloe instalar a brasafabricando a chama.Traçar o assombrona revelação desprendidaà altura da pétala oferecida.Dissipar a neblinae vislumbrar o corpo.Conviver com a chama.
RECOMEÇO
Gestos e palavras ensaiam a dança recomeçada.Sabores e odores insinuam a fome redescoberta.No espelho reprimidoolhos atônitos encaram a estrelarefeitano céu reinventado.
ERÓTICA
Pecados.Pecadilhos.Rubros entreabertos.Posse espalmada.Frenesi.Perfume.Umidade.O cheiro e o gesto.O respirar apressado.O vaso onde a flor se exibe.Languidez.Os olhos de não dizendo o sim do talvez.O fogo gerando a fenda na terra.A nudez exposta ao vítreo maravilhado.A seta o raio o punhal implacávelabrindo a ferida feitabuscando o significado da dor ultrapassadaalém do corteà procura da fusão cauterizadora do prazer.Como não fazer da lassidão a recompensa?
AMAR
Quem ama não morre:adormece na calmado amor alimentado de si próprio.Passa de um estado a outrocruzando a frágil fronteirade seus próprios limites:transforma-se na pessoa amada.Quem ama não morreao perceber-se invadido e limitado em novas fronteiras.Fica em convulsãoterrível estado que antecede a paz.
MUDANÇAS
Avaro e desnudo sentimentode perplexidadeante o nervo exposto.O passo novo é o mesmo passo de antigos erros cometidos.A experiência aponta o caminho não traçadoao desbravador esgotado em si mesmo.A angústia da direção perdidae o objetivo ao alcance da mãochocam seus dedos crispados.
ELOQÜÊNCIA
Eloqüente silêncioabafado no travesseiro móvelimpassível diante das horase do suplícioao lado o telefone mudo jamais tocarána hora mais amarga da madrugadanem o engano acompanhaos suspiros perdidos na noitecomo o lamento das árvoresou o gemido das marquisesem algum ponto da cidadeolhos espreitam na escuridãoolhando o mesmo telefone mudoabraçando o mesmo travesseiro vazioNa eloqüência do nãoo medo maior do sim.
CONTRADIÇÃO
Estranha paixão feitana espada que deve ser feridana flor que deve ser defloradano mal que deve ser gozadono bem que deve serpervertido!Estranha dádiva ofertadano ritual profanode lençóisestendidos!
ATO FALHO
Entre a pedra e o riopreferiu ser pedrae paredão sombreando caminhos.Não quis reflexosengolindo-se na escuridãopara ser paisageme nunca mais correnteza.Desprezando a águaeu me fiz sede.
AMOR PERDIDO
Quero o amor ocultona madrugadasua natureza noturnaexplicando os segredosda perfeição refletida nos espelhos.Quero seu brilho longínquofeito farol atormentandomeus olhos cansados.Quero o amor ainda ocultona madrugada refletidanos espelhos ainda atônitos...
INTIMIDADE
Penetro em teu banheiro.Teu shampu ejacula em minhas mãos.Teus cabelos...teus pêlos...Somos iguais!
DANÇANDO EM SUA FESTA
Não é meu somesse ritmado bater!Não são meus passosculpados dessa poeira.Apenas vie seguios movimentosinfindáveisdo seu fascínio.Disso eu me reconheço culpado!
ANOITECENDO EM TI
Capto apenas pequenos gestosna fluidez agonizanteda tarde em que te olho.Desvelada e reveladaencobres agora a manhãquando me fiz dia.A noite cai...lá fora e em ti.Odeio a tua escuridão!
FOME
Crava teus dentes sem pudorque a presa submissalouva a tua fome.O sorriso famintoreserva o golpe fatal
Leave a Comment