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Os últimos 30 anos de eleições legislativas; perspectivaspara Setembro
Desde a queda do fascismo celebraram-se em Portugal 12 actos eleitoraispara a escolha de deputados para a AR e, em 27 de Setembro, haverá maisuma versão. Se as firmas de sondagens se enganam a valer por errospróprios de concepção de amostras e, principalmente, devido à volubilidadedas intenções de voto de muita gente, não seremos nós a ter melhorescondições para fazer projecções.Por outro lado, o parece estar em risco a preponderância da mafiabicéfala PS/PSD, pese embora a confirmação de alguma erosão, como severificou nas eleições para o Parlamento Europeu. Daí que as próximaseleições devam constituir um momento de aferição do impasse político quegarante o poder do capital financeiro e dos sectores imobiliário ou das obrasblicas, no exercício do controlo da aplicação das receitas blicas. Também servirá para se observar a margem de descrédito dos partidos,através do que se possa chamar de taxa de abstenção. E, finalmente, paradetecção das capacidades de absorção do descontentamento pela esquerdainstitucional ou pela direita xenófoba.No que respeita ao provável crescimento da esquerda institucional, no seuconjunto, há várias questões que pretendemos sublinhar:
A votação vai englobar uma massa significativa de cidadãos que nãotem grandes contactos com esses partidos e não está organizadapoliticamente, dado o cacter primordialmente eleitoral da suaactuação, mais virada à exposição mediática do que aoenquadramento organizativo. E, portanto essa massa de votantes é,naturalmente volúvel, podendo involuir para um apoio ao PS se este,uma vez na oposição, se “esquerdizar” com toda a carga dubidativaque isso terá, no caso concreto;
A escassa aposta na organização e na iniciativa militante,nomeadamente com a mobilização dos sectores sociais maisvulneráveis – precários, desempregados, jovens, reformados, utentesdo SNS, professores, – não favorece a fidelidade do voto em futurosactos eleitorais;
Por outro lado, a aposta deliberada no cenário parlamentar, com umaquase certa maioria PS/PSD torna pouco profícua essa sede para adefesa dos trabalhadores e dos pobres face à ofensiva do capital acontinuar pelo futuro governo. E, não correspondendo a esquerdainstitucional às expectativas (ingénuas) de muitos cidadãos, estestanto poderão engrossar as fileiras dos abstensionistas passivos comoaumentar o número dos que quererão contestar o regime cleptocráticode formas mais radicais.
Em suma, o previsível marcado acréscimo da votação na esquerdainstitucional - cujo principal mérito cabe ao carácter agressivo e anti-
 
social do governo socratóide – coloca essa esquerda perante umagrande responsabilidade e uma enorme pressão, que é a decorresponder às expectativas do seu eleitorado, utilizando a limitadaarma parlamentar. Mais, terá a esquerda institucional lideranças aptase quadros intermédios virados para colaborar na organização daresistência, através de formas mais ousadas e criativas de luta?
1 - A participação eleitoral
O estudo da série dos resultados eleitorais dos últimos 30 anos ajuda àcomprensão do que representam eleições de deputados em democracia demercado e o seu escasso potencial transformador; nas mudanças na galeriados vencedores e vencidos, sabe-se que nesse catálogo não esrepresentada a multidão, os trabalhadores e os pobres residentes emPortugal.O quadro seguinte oferece um panorama dos votos não dirigidos a partidos,onde se incluem aqueles passíveis de serem utilizados nos actos eleitorais eque deveriam ser os correspondentes a idêntico número de cidadãos que,por motivos vários, se não deram ao trabalho de uma deslocação ao localdas urnas de voto. Esta designação – urna – não deixa de ser curiosa peloque significa de local onde o cidao enterra os seus direitos nadiscricionaridade dos seus putativos representantes. Tendo em conta o dilatado lapso de tempo, seria normal e correcto começarpela observação do número de inscritos, como universo de referência queengloba todos os potenciais participantes nas eleições. Porém, o número deinscritos não é uma varvel fidedigna, dada a qualidade dasactualizações dos recenseados, verdadeira montra da atenção e do cuidadocom que os governos tratam a democracia.Conforme se referiu recentemente (v. Eleições europeias 2009 – limitações eoportunidades), como a eleição de mandarins o é prejudicada pelonúmero de abstenções e este, não é considerado um elemento com impactocastigador no financiamento dos partidos, a classe política não investe napermanente actualização do recenseamento. Sendo assim, o número deeleitores tanto pode descer, como subir pouco ou acentuadamente, emborase mantenha bastante estável em 1995/2005. Tal como se verificou para aseleições europeias, tudo indica que, este ano, a colheita de eleitores seráabundante.Uma vez que as taxas de abstenção conduzirão a algumas imprecisões,sobretudo em periodos de menores corrões da base de dados dosrecenseados, o volume de votantes torna-se um objecto mais razoável deanálise. Nesse contexto, observa-se:
Uma grande estabilidade do mero de votantes, apesar docrescimento de 2,7 M de inscritos durante os 30 anos considerados;
 
A crença inicial nas virtualidades transformadoras do sufrágio, após asrestrições e falsificações impostas pelo fascismo, rapidamente sediluiu, duplicando o número de abstenções entre 1975 e 1976;
O número de votos nulos nas duas primeiras eleições prendem-se,certamente com o desconhecimento sobre o preenchimento e,curiosamente, os votos em branco foram assimilados a votos nulosnesses dois primeiros actos, embora a sua leitura seja distinta;
Sobressaem os recordes de votação nas duas vitórias da AD com SáCarneiro, em 1979/80 e os crescimentos da comparência nas urnas em1995 e 2005 quando, respectivamente foi enterrado o cavaquismo eafastado Santana Lopes;
Em 2005 o volume de votos em branco duplica, depois de 20 anoscom uma expressão em torno dos 50 mil e, a manutenção dos votosnulos, num mesmo patamar desde 1987, depois de um periodo comvalores bem mais elevados em 1979/85;
Mesmo considerando as dúvidas sobre a qualidade do recenseamento,é nítido o gradual crescimento dos votos não dirigidos a concorrentesespeficos, nomeadamente desde 1999, para mais de 3 M deeleitores, quando o volume de inscritos se mantêm praticamenteconstante.
Milhares InscritosVotantes Abstenções Brancos NulosVotos nãodirigidosnº % nº % nº % nº % nº %1975 6.231 5.712 91,7 520 8,3 0 0,00 397 6,95 916 14,701976 6.565 5.483 83,5 1.081 16,5 0 0,00 258 4,70 1.339 20,401979 7.249 6.007 82,9 1.242 17,1 43 0,71 121 2,01 1.406 19,391980 7.179 6.026 83,9 1.153 16,1 35 0,57 103 1,71 1.290 17,971983 7.337 5.708 77,8 1.629 22,2 42 0,74 104 1,83 1.776 24,211985 7.819 5.799 74,2 2.020 25,8 49 0,84 97 1,67 2.165 27,691987 7.931 5.676 71,6 2.254 28,4 50 0,88 74 1,30 2.378 29,981991 8.462 5.735 67,8 2.727 32,2 48 0,83 63 1,10 2.838 33,531995 8.907 5.905 66,3 3.002 33,7 46 0,78 67 1,14 3.115 34,971999 8.865 5.415 61,1 3.450 38,9 57 1,05 51 0,95 3.558 40,132002 8.903 5.474 61,5 3.429 38,5 55 1,01 53 0,96 3.537 39,732005 8.945 5.748 64,3 3.197 35,7 104 1,80 66 1,14 3.366 37,63
2 – Os votos dirigidos a partidos
À semelhança do que se fez no artigo sobre as eleições europeias acimareferido, procede-se a um conjunto de observações sobre os votos dirigidosa partidos, no seu conjunto e, seguidamente, a cada um dos três grandessegmentos – a esquerda institucional, a direita e a direita xenófoba, emborao posicionamento ideológico e a prática politica, em todos esses segmentos,
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