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328Francisco José Calazans FalconRevista Brasileira de Educaçãov. 11n. 32maio/ago. 2006
IntroduçãoIntroduçãoIntroduçãoIntroduçãoIntrodução
A tentativa de reunir duas formas de história – da cultural e a da educação –, que só muito raramenteandam juntas, levou-me a pensar seriamente nos mo-tivos que poderiam explicar a realidade de tal separa-ção. Ao longo deste artigo tentarei explicitar o enca-minhamento que demos ao exame dessa realidade.O texto está dividido em três partes principais: a primeira trata de algo que se afigura à primeira vistacomo uma espécie de
ausência
, isto é, ao fato de que,salvo algumas poucas exceções, não se pode consta-tar a presença da história da educação no território da
oficina da história
; a segunda aborda certas questõesdisciplinares e institucionais, mas também historio-gráficas, que têm concorrido para a exclusão de de-terminadas disciplinas históricas do âmbito do terri-tório do historiador; a terceira, enfim, busca trabalhar em linhas mais gerais o problema da história culturalna atualidade historiográfica, nele situando a questãoespecifica da história da educação.
As evidências empíricas de uma ausênciaAs evidências empíricas de uma ausênciaAs evidências empíricas de uma ausênciaAs evidências empíricas de uma ausênciaAs evidências empíricas de uma ausência
Escolhi aleatoriamente algumas das obras que, a partir dos anos de 1970, procuram analisar, segundo perspectivas bastante distintas, os rumos da produ-ção historiográfica ocidental. Entre os inúmeros as- pectos abordados em tais obras (coletivas, por sinal),observa-se sempre a importância cada vez maior da
história
 
cultural 
, de início restrita à chamada
histó-ria das mentalidades
. Mas também se pode observar nesse mesmo universo textual a ausência quase com- pleta de trabalhos relativos à história da educação,como se não competisse realmente aos historiadoreso estudo e a pesquisa de tal história.Apenas para exemplificar tal ausência, selecio-nei alguns dos trabalhos mais importantes de teoria ehistoriografia publicados ao longo das ultimas trêsdécadas, como uma forma de documentar empirica-mente essas afirmações.Em 1976 foi publicada no Brasil, pela editoraFrancisco Alves, a tradução dos três volumes organi-
História cultural e história da educação*História cultural e história da educação*História cultural e história da educação*História cultural e história da educação*História cultural e história da educação*
Francisco José Calazans Falcon
Universidade Salgado de Oliveira, Programa de Pós-Graduação em História
*Artigo redigido a partir da exposição realizada no Grupode Trabalho História da Educação na 27
a
Reunião Anual da ANPEd(Caxambu, MG, 21 a 24 de novembro de 2004).
 
História cultural e história da educaçãoRevista Brasileira de Educaçãov. 11n. 32maio/ago. 2006329
zados por Jacques Le Goff e Pierre Nora intitulados
 Faire de l’histoire
,
 
respectivamente:
 História: novosobjetos
,
 História: novos abordagens
e
 História: no-vos problemas
. Em nenhum desses três volumes, con-tudo, há qualquer referência à história da educação,ao passo que entre os “novos problemas” e as “novasabordagens” encontramos temas tipicamente culturais,além do famoso artigo de Le Goff intitulado “As men-talidades: uma história ambígua”. Quando muito se poderia hoje assinalar a presença de um artigo pre-cursor de Roger Chartier e Daniel Roche (1976) – “Olivro: uma mudança de perspectiva” –, desde que, éclaro, sejam situados os estudos sobre livros, leitorese leituras no âmbito de uma história cultural voltada para aquelas práticas sociais mais diretamente liga-das a perspectivas pedagógicas. Essa é, no entanto,uma questão a ser retomada mais adiante.Em 1997 foi publicada a obra intitulada
 Domíniosda história
, organizada por Ciro Flamarion Cardoso eRonaldo Vainfas. A respeito desse livro pode-se fazer duas observações: em seus 19 capítulos não há nenhumdedicado à história da educação; e em nenhum dos doiscapítulos que mais se aproximam de nossas atuais in-dagações – o capítulo 2, de Hebe Castro, sobre “Histó-ria social”, e o capítulo 5, de Ronaldo Vainfas, sobre“História das mentalidades e história cultural” – háqualquer referência à história da educação.Em 1998 foi editada a tradução brasileira de
 Passés recomposés
, com o título
 Passados recompos-tos
:
campos e canteiros da história
, obra organizada por Jean Boutier e Dominique Julia. Também nessecaso, apesar de a temática ser extremamente contem- porânea dos diversos artigos, a educação – e não ape-nas sua história – primou pela ausência.Em 2001 foi publicado
 Brasil-Portugal: histó-ria, agenda para o milênio
, livro organizado pelos professores José Jobson Arruda e Luís Adão da Fon-seca, que traz o conjunto das contribuições apresen-tadas no ano anterior, em São Paulo, em uma reuniãoda qual participaram algumas dezenas de historiado-res brasileiros e portugueses. Examinei, então, aten-tamente as seis partes temáticas nas quais se reúnemas diversas contribuições até agora apresentadas, enotei que em nenhuma delas foi possível localizar al-gum texto, alguma referência, à história da educação.Certamente esses exemplos poderiam ser multi- plicados, porém isso pouco acrescentaria ao meu ar-gumento. Se fosse dada preferência a textos de autoresfranceses, ingleses, italianos, espanhóis, portuguesese norte-americanos, seria possível observar algumasdiferenças com relação à inserção da temática da
edu-cação
no âmbito da disciplina histórica, ou, mais con-cretamente, na esfera da história cultural, embora nãonecessariamente com a
história da educação
. Veja-mos alguns desses casos:1. Georges Duby, em seu artigo sobre “Histoiredes mentalités”, hoje um autêntico clássico, publi-cado na coletânea
 L’histoire et ses méthodes
, orga-nizada por Charles Samaran em 1961, afirma que oestudo das mentalidades do passado deve apoiar-senuma história da educação entendida no seu sentidomais lato, isto é, deve partir de todas as comunica-ções, e do seu meio, “dos meios através dos quais oindivíduo recebe os modelos culturais, e, portanto,em princípio, deve partir de uma história da infân-cia” (p. 917-918).2. Nos textos do Colóquio Franco-Húngaro deTihany, organizados em 1982 por Jacques Le Goff eBela Kopeczi com o título
Objet et méthodes del’histoire de la culture
, só consegui destacar dois ar-tigos mais ou menos relacionados com o tema queora nos ocupa: “Universidade e sociedade na EuropaModerna”, de Jacques Revel, e “A constituição de umarede de colégios em França do século XVI ao XVIII”,de Dominique Julia.3. Roger Chartier, em
 A história cultural: entre prática e representações
(tradução portuguesa publi-cada em 1990), inclui dois capítulos bastante próxi-mos de nossos atuais interesses: o capítulo 4 – “Tex-tos, impressos, leituras”, e o capítulo 5 – “Práticas erepresentações: leituras camponesas em França no sé-culo XVIII”.4. Em
 A nova história cultural 
(1992), organiza-do por Lynn Hunt, praticamente não há nada a respei-to de educação, história e cultura, com exceção do
 
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texto de Chartier sobre “Textos, impressos, leituras”, já mencionado.Há também, embora relativamente raros ainda,alguns trabalhos mais ou menos recentes que abordame discutem os problemas principais das relações entrea história da educação e a história produzida pelos his-toriadores, assim como a questão específica das rela-ções entre história da educação e história cultural:1. Thais Nivia de Lima e Fonseca é autora deum interessante artigo intitulado “História da edu-cação e história cultural”, publicado em 2003 nacoletânea
 História e historiografia da educação no Brasil 
, por ela organizada juntamente com CynthiaVeiga Greive. Depois de definir a história culturalcomo um campo historiográfico, a autora aí situa ahistória da educação como um dos seus campos deinvestigação. Assim, entendida como uma especia-lização da história, a história da educação não podeser vista como um campo dotado de metodologia própria e construtor de seus próprios referenciais teó-ricos. Nesse particular, aliás, a autora critica as pro- postas de Diana Gonçalves Vidal e Luciano Mendesde Faria Filho (Lima e Fonseca, 2003, p. 59 e nota25), bem como a tentativa de Marta Carvalho eClarice Nunes no sentido de demarcar fronteirasentre a história cultural e a história da educação, pois,no seu entender, as duas não se equivaleriam comocampo historiográfico. Na verdade, portanto, a his-tória da educação utiliza-se dos procedimentos me-todológicos, dos conceitos e referenciais teóricos, bem como de muitos objetos de investigação per-tencentes à história cultural, e é no âmbito desta úl-tima que devemos situá-la: “os últimos balanços rea-lizados sobre a produção em história da educaçãoindicam uma forte e já reconhecida tendência das pesquisas na direção da nova história, especialmen-te da história cultural” (p. 59-60 e nota 27).Como principais evidências do que afirma,Lima e Fonseca (2003) menciona: a busca de
novosobjetos
e de
novas abordagens
; a recorrência das re-ferências a autores como Roger Chartier; a ênfase dostrabalhos, sobretudo dissertações e teses, na históriadas leituras e dos impressos; a grande utilização deconceitos como
circulação
,
apropriação
,
representa-ção
,
saberes e culturas escolares
, ou seja, a preocu- pação com as
 práticas culturais
(p. 60 e notas 28 e29). Segundo a autora, “a contribuição que a históriacultural, como campo dotado de aportes teórico-metodológicos, pode dar ao avanço da história da edu-cação está no descortinamento de dimensões ainda pouco exploradas, fora da escola e da escolarização, bem como a imposição corajosa de novos olhares so- bre essa que é uma dimensão já tradicional” (p. 72).2. Pere Solà, em comunicação apresentada por ocasião do Congresso Internacional “História a De- bate”, realizada em 1993, em Santiago de Compostela,e publicada no tomo dois das respectivas
 Actas
com otítulo “El estudio diacrónico de los fenómenos edu-cativos y las tendencias historiográficas actuales”,aborda diversas questões bastante atuais a respeito dahistória da educação em suas relações com a produ-ção historiográfica contemporânea.3. Marta Maria Chagas de Carvalho, da Pontifí-cia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP),em um artigo intitulado “A configuração da historio-grafia educacional brasileira”, publicado em 1998 nolivro organizado por Marcos Cezar de Freitas com otítulo
 Historiografia brasileira em perspectiva
, ana-lisa algumas das tendências que têm marcado a histó-ria da educação entre nós, tomando como seu princi- pal exemplo a obra de Fernando de Azevedo e atradição que se construiu a partir daí.
Tradições e querelas disciplinaresTradições e querelas disciplinaresTradições e querelas disciplinaresTradições e querelas disciplinaresTradições e querelas disciplinaresMemórias eMemórias eMemórias eMemórias eMemórias e
históriahistóriahistóriahistóriahistória
Há muitos anos, durante a segunda metade dadécada de 1960, participei das discussões que tinhamcomo tema central a questão da reforma universitá-ria. Do bojo desse debate emergiu a proposta de li-quidação das faculdades de filosofia, há muito acusa-das – injustamente, por sinal – de constituírem umsério obstáculo à implementação de uma
nova uni-
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