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COLABORAÇÃO
Lembranças de São João
Tribuna da Saudade
Ferreira Moreno
V
em já dos tempos an-tigos a tradição ates-tando que a água está benta no diade S. João, desde as ondas do mar embraçando as ilhas às gotinhasde orvalho do sereno enroupandoa madrugada. Por isso, em pre-
núncios de alegria esfuziante, a
gente das ilhas ia banhar-se nomar e dispersava-se por ribeirase nascentes, lagoas e fontanários,numa peregrinação feita de can-
torias e ramalhetes de ores.
Nos quintais, era costume deixar-se ao sereno um alguidar comágua, cumprindo uma crendicede longa data que atributava aessa água grandes virtudes.
Bebia-se, então, a água p’ra re
- juvenescer a velhice e abater oquebranto. Era crença, igualmen-te observada, em amassar o fer-mento com essa água benta.Daí resultava um pão saborosíssi-mo, que não só nos regalava, mastambém nos livrava das malditasdoenças provocadas por mausolhados.Em chegando o mês de Junho,Mês da minha devoção,Vou festejar o meu Santo,Meu querido S. João.O vinte e quatro de Junho
P’ra muitos é tradição,
Pois se celebram as festasEm louvor de S. João. Não há dia mais bonitoQue o dia de S. João,É de todos o maior Que consegue ter o Verão.Pega lá nessa viola,Toca nela com paixão,Como tocava meu pai Nas noites de S. João. Neste momento estou a lembrar-me da folia criada à volta dasfogueiras na noite de S. João,
com os rapazes saltando numaalgazarra, enquanto as raparigas
mais afoitas davam pulos e griti-nhos semelhantes a guinchos degarajaus.A alegria desdobrava-se em ro-dos de gargalhadas sempre que olume “pegava” no cú das calças
dos rapazes e “pelava” as pernas
das raparigas.Em noite de S. JoãoJunto à fogueira te vi;O lume não me queimou,
Mas ardi d’amor por ti.
Vamos saltar as fogueirasCom grande satisfação,
P’ra vermos qual de nós
É que abraça o S. João.
Dizer o sim certo dia
Foi a minha perdição,Quando pulava contigo Na noite de S. João.Vai de roda, vai de roda,Da fogueira ao luar,
À procura da donzela
Que contigo irá casar. Num testemunho do saudosoManuel Inácio de Melo obtivea informação que, antigamen-
te as famílias organizavam uma burricada p’ra ir ao mato apa
-
nhar louro verde p’ra queimar
nas fogueiras. Assim, “era rara acasa que, à noite, não tinha à sua porta uma fogueira feita só comlouro do mato e do macho (folhalarga) que estala melhor. As fa-
mílias saíam p’rà rua p’ra ver as
fogueiras maiores ou menores e
o rapazio a saltá-las. As ruas
-cavam cheias de fumo cheiroso,que entrava nas casas de portas
e janelas abertas, e servia p’ra
as desinfectar das epidemias, dagripe, do sarampo, papeira, tosseconvulsa, etc.” (Santos Tempos,Usos & Costumes Tradicionais,Edição 1993).Vamos, raparigas, todas,Ao rosmaninho que cheira, Na noite de S. João,
A fazer uma fogueira.
Donde vindes, S. João,Que vindes tão molhadinho?Venho de ver as fogueiras,De colher o rosmaninho.Ó S. João, donde vindes
P’las calmas, sem chapéu?
Venho de ver as fogueiras,Que se acenderam no céu.Donde vindes S. João,Com uma capa de chita?Venho de ver as fogueirasDa Senhora Santa Rita.Lá vem S. João abaixo,
C’o’a capa cor de fogo;
Que vem de ver as fogueirasDa Senhora do Socorro.S. João é divertido,Amigo das brincadeiras,Abençoa as criancinhasQuando saltam as fogueiras.Tempos de inocência, certamen-te, sem maldade nestes e tantosoutros divertimentos típicos daquadra anual de S. João quan-do, por exemplo, a gente “tiravaas sortes” com uns papelinhosonde estavam escritos os nomesde namorados e desejados, que asraparigas escondiam cuidadosa-mente lá fora nos quintais. Na noite de S. JoãoPõe sortes à madrugada,
P’ra ver que nome te sai
Na sorte desenrolada.Eu só vi nascer o Sol No dia de S. João,Quando recolhia as sortesQue tinha posto ao serão.Era crença, então, que o sereno damanhã encarregar-se-ia de abrir este ou aquele papelinho com onome do futuro noivo. Acontecia,
no entanto, que alguns rapazes
malcriados tinham a “mania” de,encobertos pela noite, andarem
p’los quintais abrindo os bilheti
-nhos.
Botei sortes ao sereno
Na noite de S. João;
Aquele que m’as roubou,
S. João secai-lhe a mão.S. João não me deixes
Na incerteza e na dor;Traz-me aquele que seráP’ra sempre o meu amor.
O extenso número e variedade desortes revestia-se duma extraor-
dinária curiosidade, perfazendo
um rol de usos e costumes, tra-dições e superstições, revertendoem meiguice e garridice, desmo-tivando assim a monotonia das
nossas ilhas de bruma e pacatez.
Lá do céu caiu um cravo Na manhã de S. João;Tu é que és o meu bem,Descansa o teu coração.S. João era moreno,E moreno o seu amor;Anda ao sol, anda ao sereno, Nunca perde aquela cor.
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