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Questão de Fé

Questão de Fé

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Published by bad_robot_
Conto ambientado em um mundo paralelo, onde Nadomide, depois de esgotar todas as tentativas de salvar a filha doente por vias de fé, conhece Aurélio, um jovem que diz ter a cura para a doença da menina.
Conto ambientado em um mundo paralelo, onde Nadomide, depois de esgotar todas as tentativas de salvar a filha doente por vias de fé, conhece Aurélio, um jovem que diz ter a cura para a doença da menina.

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07/24/2009

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1
Questão de Fé
IOs corpos dos animais sacrificados ficavam em um canto dotemplo, vertendo sangue aos montes e exalando um cheiro nauseante demorte prematura. Cordeiros, cabras, galinhas e até mesmo uma cabeça deboi perdiam-se na confusão de sangue e moscas.Hoje, todos os animais sacrificados pertenciam a apenas umhomem: Nadomide.
Iluminado dos deuses 
significava o seu nome.Latifundiário, dono de riquezas incontáveis, Nadomide observava osanimais sendo sacrificados sucessivamente, enquanto rezava por sua Amélie. Sua filhinha, acamada e frágil. Ah, se ele pudesse!, trocaria todasas riquezas pela saúde de sua pequena.O homem já se havia utilizado de inúmeros artifícios: patrocinararezadeiras para que a curassem com a força das palavras; recrutara amigose conhecidos para um círculo de orações; apelara até mesmo para os velhos mendigos que se diziam curandeiros e receptáculos de entidadesdivinas, trocando seus poderes por um punhado de fumo ou umamoringa de aguardente. Nada adiantava. Como último recurso,Nadomide resolvera apelar para os pedidos divinos em sua forma maisradical: o sacrifício das criaturas terrenas. Conversara com o sacerdote dotemplo. Como primeira orientação, o homem santo lhe dissera que vintee seis animais das sagradas escrituras deveriam ser dados em sacrifíciopara Salyr, deus da vida humana, além de uma contribuição financeiraque deveria ser feita em benefício do templo.Lá estava Nadomide, ao lado do sacerdote, ouvindo o balido dascabras e o mugido das vacas guiadas por seus empregados, todasenfileiradas, esperando por seu desafortunado fim, enquanto doisoráculos, com suas vendas a cobrir os olhos queimados, cortavam a carnee o fio da vida que ligava os animais a terra.- Isso deverá ser suficiente para aplacar a fúria dos deuses. – sussurrou o sacerdote Alassael ao ouvido de Nadomide, que se mantinhaquieto, com os braços cruzados e o rosto enrugado. – Os deuses nãogostam de ostentação, Nadomide. Ostentação e acúmulo de riquezas. – o
 
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sacerdote fingiu um calafrio de repúdio. – Eles odeiam com todas asforças.Nadomide já estava anestesiado; mal ouvia o que o sacerdote lhedizia. Todas as suas forças, físicas e mentais, estavam canalizadas em suasorações:
‘clamo a vós, senhores do céu, da terra, do mar e de toda a vida que aqui habita, não permitais que minha querida Amélie morra. Ela é nova demais para compreender os mistérios da morte. Tudo o que peço é que a existência da menina seja a mais prolongada possível. Que me levem no lugar dela. Vós já levastes a mãe da menina, não leveis também ela própria. Não suportarei. Clamo a ti em particular,Salyr, senhor da vida humana, não permitas que nada de mal aconteça com minha  pequena’ 
.Estava tão absorto em suas próprias orações que sequer percebeuquando o último par de galinhas foi sacrificado; não percebeu os estalidosdos ossos sendo despedaçados pelas mãos já manchadas de carmesimdos dois oráculos, que tinham suas túnicas e vendas completamentetingidas; não percebeu quando o sangue se perdeu entre os litros jácoagulados por todo o altar e os corpos dos animais foram jogados a umcanto, em uma pilha crescente que já começava a feder. O sol entravapelas grandes janelas circulares, incidindo diretamente sobre os animais.O cheiro insuportável chamava a atenção das moscas, que não tardavama depositar seus ovos nas carnes, fazendo crescer os primeiros magotes.O sacrifício, que se iniciara na madrugada do dia anterior, estava enfimterminado.- Agora terás que lidar com a paciência, meu caro. – disse Asselael,aproximando-se lentamente do altar. Abraçou os dois oráculos sujos desangue, sussurrando algo em seus ouvidos. Os dois assentiram emsilêncio, retirando-se logo em seguida.O sacerdote esperou que os dois desaparecessem para que pudessefalar.- Agora que estamos sozinhos, há algumas coisas de que precisassaber: a fúria dos deuses é infinita. Sua ira pode se manifestar com amesma intensidade de sua bondade. Os esforços de todos, durante anoite de ontem e o dia de hoje, foram tremendos, mas isso não é garantiade que seu pedido seja atendido. Não sou eu ou você quem decide. Sãoos deuses, e apenas eles. Tudo o que podemos fazer é agradá-los eesperar por sua decisão.
 
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Nadomide já sabia de tudo aquilo. Estava tão calejado de falsasesperanças que não se admiraria se sua Amélie continuasse doente.Estava cansado de tantas promessas e nenhum resultado concreto.- E quanto ao pagamento? – perguntou latifundiário.- Entregue o dinheiro aos oráculos, do lado de fora do nossotemplo. – disse o sacerdote. – Não tratamos de negócios num localsagrado.Pagou aos oráculos e voltou para casa, mãos nos bolsos e cabeçabaixa, os ouvidos cheios das palavras dos pedintes, que apinhavam asruas a essa hora da manhã. De seus olhos já não caíam mais lágrimas:suas forças estavam voltadas para a cura da pequena Amélie.IICiência- Quando o papai volta, Dayena? – perguntou Amélie, puxando asgrosas colchas até o pescoço. O sol já estava quente, mas a febreimplacável da menina fazia-a sentir calafrios cada vez mais acentuados.Dayena, dama de companhia da menina, preparava mais uma levade panos frios para tentar controlar a alta temperatura da menina, que jáperdurava por cinco dias.- Por que ele não veio me ver ontem à noite?- O senhor Nadomide está muito ocupado, Amélie. – disse Dayenacom sua voz doce e paciente, aproximando-se da cabeceira e colocandodelicadamente o pano na testa suada da criança. – Não se preocupe, ele volta logo.- Quero-o aqui agora! – ela reclamou, chorosa. – Estou nessa camahá quase uma semana e ele ainda assim parece não se importar comigo!- Não fale bobagens, criança. – respondeu a dama. – Teu pai estápreocupadíssimo contigo. E por falar nele... – estacou por um segundo,fazendo silêncio – ouço passos. Ele deve estar chegando.Os passos aproximaram-se, mas não eram de Nadomide. Eram docriado Daniel.- Senhora Dayena. – dissera o empregado. Suas roupas,impecavelmente limpas, transpareciam todo o cuidado que o homemtinha com os protocolos exigidos pelo patrão. Sussurrava para que Amélie não o ouvisse. – Há um homem na porta querendo falar

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