o afastar na via da razão metafísica, intima, profunda, abissal» das coisas).A imagem primeira do cadáver do Mestre segurando um livro misterioso é,como todos os motivos arquetípicos, rico de conteúdos paradoxais e detautologias "em espelho". Começa-se por descobrir a imagem fundadora do mortoque sabe, opondo-se ao
morto saber
do vivo. Por um lado, o Livro enquantocristalização de uma voz que definitivamente se calou. cuja mensagem se tornoutranscendente mercê desse silêncio irreversível, porque nosfala do outro lado da morte. Por outro lado, essa palavrasilenciosa que nos chega do não-dito transporta no seu ventreno seu túmulo – a consciência, enquanto experiência vivida,de um passado revoluto transformado num saber semprefuturo. O livro contem um saber absoluto nessa Palavra para sempre não-dita,(isto é, que só será dita no Absoluto, no fim dos tempos), do mesmo modo que opeito do Mestre morto contém um coração incorrompido que simboliza, que
é,
opróprio sopro, o
spir
da Palavra.Os antigos egípcios sabiam-no: transformavam os sarcófagosem verdadeiros livros os, cobertos de uma escrita impronunciável:"livros" que manifestavam a vida do morto, a sua
imago,
a teciturada sua "escrita", a sua gramática, a força seminal da formalização, aestrutura individual de um afloramento do Ser, numa palavra, a suamensagem; continham um cadáver – o conteúdo dessa mensagem.Mas esse corpo sem vida, mumificado, era por seu turno osarcófago de outro corpo, ou o livro de um outro texto interior, que omistério da ressurreição esclarecerá, transformando-o em corpo de luz. Esta Luz,ao surgir, apagará o livro, pronunciará enfim a Palavra impronunciável, o Sentidopara além do sentido:Calmo na falsa morte a nos exposto,0 Livro ocluso contra o peito posto,Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.Já Bernard Gorceix, no prefácio que escreveu para o livro
La Bible des Rose-Croix (P .U. F., 1970), chamara a atenção para o facto de o tema dotúmulo misterioso, contendo um corpo morto e um tesouro precioso,ser relativamente frequente na literatura da Idade Média e naliteratura alquímica: cita o exemplo da Tabula Chemica, de IbnUmail, uma obra bem conhecida do século XVIII, em que se conta avisita a uma casa subterrânea cujas paredes estão cobertas defrescos e onde um ancião defunto aperta nas mãos um livroilustrado. Gorceix cita ainda a lenda que circulava no tempo deValenlin
Andrex, segundo a qual ter-se-iam descoberto, debaixo dogrande altar de uma igreja de Erfurt, as obras de Basílio Valentin.
Leave a Comment