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O ESOTERISMO NA ARTE PORTUGUESA
As palavras "esoterismo" e "exoterismo", que por vezes confundem os leitoresmenos prevenidos, designam uma oposição relativa entre o que, de uma formageral, é entendido por toda a gente e aquilo que, de algum modo, exige uma"inicião" por se tratar de assuntos especializados ou por existir uma vontade de ocultação de que podem ser exemplosos viáriosalões (nos "profissionais" que querem guardar os segredosda profissão) ou, num outro extremo do "espectro" de ocultação, nomeio dos ladrões "profissionais" e outros fora-da-lei. Mas, nosentido mais usual, o termo esoterismo é usado para designar temasrelacionados com religiões, movimentos sticos ou filoficos, doutrinas,disciplinas ou obediências secretas menos divulgados, exigindo uma informação euma formação prévias.Nesta perspectiva, um retábulo de igreja é uma obra exotérica porquepretende dirigir-se a toda a gente e ser entendida por toda a gente que conheçaminimamente a temática religiosa; torna-se esotérica a partir do momento em queos visitantes da igreja ignorem as significações religiosas e simbólicas do retábuloou estas sejam de algum modo ocultadas. Quanto ao espectador familiarizadocom as doutrinas da religião em questão e com os respectivos símbolos, não terádificuldades de maior em apreender a significação do mesmo retábulo.Certamente isto é óbvio para muitas pessoas; mas é também uma fácildesculpa para muitos "turistas" da arte o fazerem o nimo esfoo decompreensão e ocultarem a sua ignorância, acusando a arte de não possuir nemprocurar qualquer significação para lá do mero divertimento (?) ou de um jogogratuito desprovido de objecto, de regras, de qualquer substânciasignificante.Os esoterismos e os respectivos códigos simbólicos (ou decariz intencionalmente oculto aos não iniciados) são por naturezadesconhecidos do grande público. No nosso pais, onde a história daarte e a investigação dos movimentos do pensamento artístico (nos
 
próprios aspectos de inventariação, mesmo antes de se chegar aos seus aspectosteticos, prograticos, religiosos, filoficos, estisticos e aos seusentrosamentos locais e globais) ainda são pobres e muito recentes, afigura-sedifícil arriscar vistas panorâmicas e conclusões generalizadas. A questão torna-seainda mais delicada no caso de buscarmos justamente aquilo que se quer menosperceptível para a generalidades das pessoas. Assim, é prudentemente quedevemos avançar na avaliação das "pistas" suspeitas ou das revelaçõesrecentes. Mas essa prudência não exclui o interesse vivíssimo e as descobertasque excitam a inteligência e o sentimento daqueles que se interessam ou seapaixonam por maria o excitante ou o importante para os homenssequiosos de uma perspectiva ou de uma visão mais completa e mais profunda daarte e da alma humana.
Profetismo e esoterismo
É
também preciso saber que as artes não imitam simplesmente o que é visível,mas elevam-se rapidamente até aos princípios formadores donde provém anatureza.
Plotino,
Enneada,
V,
B,
1É digno de nota, por ser único e inesperado, que quase três séculose meio depois da vaga inaugural dos escritos rosa-crucianos – osmanifestos
Fama Fraternitatis, Confessio Fraternitatis
e, sobretudo,o romance
 As Bodas químicas de Christian Rosenkreutz,
atribuídoa Valentin Andrex, e toda a literatura que daí decorre –, é digno denota, que Fernando Pessoa, um dos maiores poetas portugueses eeuropeus do século XX, tenha escrito três sonetos intitulados "Notúmulo de Christian Rosenkreutz e que o tema do
corps beau et glorieux 
do Mestre simultaneamente
corbeau,
corvo, e "corpo degloria" e do Livro ocluso que segura contra o peito contendo um tesouroprecioso tenha voltado à tona da literatura do nosso tempo. Num estiloperfeitamente moderno, no melhor sentido da palavra, o tema célebre reapareceaos nossos olhos não como uma evocação ou a celebração de uma efemérideliterária, mas como uma forma de meditação poético-filosófica inédita, a um tempobela na sua linguagem contida, rigorosa, quase matemática, e simultaneamentedensíssima e enigmática no mistério mais profundo das suas significações:meditação actual, em três andamentos, sobre a morte como um acordar do sonhoda vida, sobre o que a alma pode conhecer da Verdade e sobre Deus enquantoHomem de um outro Deus maior. No nº 8/9 (1978) da revista
Exil,
André Coynépublicou um longo estudo intitulado "Fernando Pessoa e o sentido da poesia",texto de rara inteligência sobre a obra poética do autor da
Mensagem.
Pessoa desejava que «o pensamento se transcenda a si próprio» parapoder estabelecer-se no seu «outro lado»; desejava não avançar ainda mais,corno parece desejar a maior parte dos escritores «modernos», no «sentido daHistória» – mas sim transcender todo o devir (atravessar o racionalísmo em vez de
 
o afastar na via da razão metafísica, intima, profunda, abissal» das coisas).A imagem primeira do cadáver do Mestre segurando um livro misterioso é,como todos os motivos arquetípicos, rico de contdos paradoxais e detautologias "em espelho". Começa-se por descobrir a imagem fundadora do mortoque sabe, opondo-se ao
morto saber 
do vivo. Por um lado, o Livro enquantocristalização de uma voz que definitivamente se calou. cuja mensagem se tornoutranscendente mercê desse silêncio irreversível, porque nosfala do outro lado da morte. Por outro lado, essa palavrasilenciosa que nos chega do não-dito transporta no seu ventreno seu túmulo – a consciência, enquanto experiência vivida,de um passado revoluto transformado num saber semprefuturo. O livro contem um saber absoluto nessa Palavra para sempre não-dita,(isto é, que só será dita no Absoluto, no fim dos tempos), do mesmo modo que opeito do Mestre morto contém um coração incorrompido que simboliza, que
é,
opróprio sopro, o
spir 
da Palavra.Os antigos egípcios sabiam-no: transformavam os sarcófagosem verdadeiros livros os, cobertos de uma escrita impronunciável:"livros" que manifestavam a vida do morto, a sua
imago,
a teciturada sua "escrita", a sua gramática, a força seminal da formalização, aestrutura individual de um afloramento do Ser, numa palavra, a suamensagem; continham um cadáver – o conteúdo dessa mensagem.Mas esse corpo sem vida, mumificado, era por seu turno osarcófago de outro corpo, ou o livro de um outro texto interior, que omistério da ressurreição esclarecerá, transformando-o em corpo de luz. Esta Luz,ao surgir, apagará o livro, pronunciará enfim a Palavra impronunciável, o Sentidopara além do sentido:Calmo na falsa morte a nos exposto,0 Livro ocluso contra o peito posto,Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.Já Bernard Gorceix, no prefácio que escreveu para o livro
La Bible des Rose-Croix (P .U. F., 1970), chamara a atenção para o facto de o tema dotúmulo misterioso, contendo um corpo morto e um tesouro precioso,ser relativamente frequente na literatura da Idade dia e naliteratura alquímica: cita o exemplo da Tabula Chemica, de IbnUmail, uma obra bem conhecida do século XVIII, em que se conta avisita a uma casa subterrânea cujas paredes estão cobertas defrescos e onde um ancião defunto aperta nas os um livroilustrado. Gorceix cita ainda a lenda que circulava no tempo deValenlin
Andrex, segundo a qual ter-se-iam descoberto, debaixo dogrande altar de uma igreja de Erfurt, as obras de Basílio Valentin.
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