mesma que ele traiu. Por causa disso, a Natureza inteira ficará alterada, tornar-se-á diferente do que é. Mas o homem, dizSaint-Martin, pode restaurar a integridade de seu ser, desnaturado hoje até o ponto da animalidade. Pode encontrar aconformidade com a fórmula de identidade absoluta de seu Nome, isto é, tornar a ser livre. Se ele introduziu sua mácula noUniverso, interrompendo, desse modo, as relações naturais de sua União com Deus, a Terra amaldiçoada se vinga, voltando-se contra o homem para fazê-lo expiar. Ora, diz Saint-Martin, o sofrimento é o que existe de mais apropriado para “reativar”as centelhas divinas que ainda se encontram, imortais, no mais decaído dos seres. Pela graça do sofrimento, subsiste pois,para cada um de nós, uma oportunidade de poder operar o que ele denomina “a Grande Obra da mudança da vontade” ou,segundo uma outra perspectiva, o restabelecimento, na Ordem própria, das quatro letras do nome de Adão, quecorrespondiam primitivamente às quatro letras do Nome divino, os quatro aromas de peso igual dos quais se compõe oPerfume, sem o qual, diz o livro do Êxodo, o homem nada pode fazer5.
1 Discurso em resposta ao cidadão Garat, professar de entendimento humano… (1795).2 Des erreurs et de la Vérité [Sobre os erros e a Verdade] (1775).3 Eheieh asher aheieh, o que se costuma traduzir como: sum qui sum, sou aquele que sou.4 Gênesis 3:17 - Tradução de João Ferreira de Almeida. Sociedade Bíblica do Brasil. Edição revista e atualizada no Brasil.(N.T.)5 Yod, Pai. He, Natureza divina do Filho. Vav, Espírito, Mãe. He, Natureza humana do Filho. Pela repetição do segundotermo, o tetragrama simboliza a persistência do ternário divino no quaternário de sua manifestação cósmica (descida esubida). O ano com seus dois equinócios, sendo apenas um e, no entanto, dois, como as duas naturezas do Cristo, a fim deseparar para reunir inverno e verão, Céu e Terra, Rei e Rainha, é uma clara imagem disso.
Claude de Saint-Martin foi, a princípio, discípulo de um taumaturgo que desempenhou na Franco-Maçonaria da época umpapel de fundador: Martinez de Pasqually, o Grande-Mestre Soberano da Ordem dos Élus Cohens, cuja história nos foicontada por R. Le Forestier6. A Ordem propunha-se nada menos do que “suprir as deficiências da Igreja, que deveriam ser total no fim dos tempos”7. E nossos Iluminados Martinistas trabalham firme no desenvolvimento de seus Poderes sobre osEspíritos perversos e os Espíritos divinos - pois, ensina Martinez - ao homem foi dado o Poder sobre as duas classes deespíritos - a fim de constituir esse novo poder espiritual, o qual permitiria que se continuasse a “garantir as comunicaçõescom o mundo sobrenatural”. Tal era a tarefa empreendida… Mas parece que Saint-Martin considerou imediatamente“violentos demais” os procedimentos teúrgicos empregados por seu mestre e enfadonhos os ritos da magia cerimonial. Entãoretirou-se para praticar exclusivamente o caminho que estava “mais de acordo com seu coração”, ao qual chamou “caminhointerior”. Parece, até, que mais tarde ele se reprovou por essa deserção, quando a leitura mais aprofundada de JacobBoehme o convenceu de que “M. de Pasqually possuía a chave ativa de tudo aquilo que nosso caro Boehme expõe em suasteorias, mas que não nos achava em condições de possuir.” 8 A doutrina de Saint-Martin, hostil a qualquer supranaturalismo,assim como a qualquer materialismo, é “a doutrina das harmonias da luz da natureza e da graça”9. Ela nada tem depanteísmo, porém insiste na onipresença do divino. Saint-Martin havia, a princípio, planejado dar a um de seus livros, L'Espritdes ChosesI [O Espírito das Coisas], este título ainda mais significativo: Les Révélations Naturelles [As Revelações Naturais].Para ele é um princípio natural que “nenhuma verdade religiosa deixe de fazer sua revelação própria no coração do homem”,se ele souber manter o pensamento, “espelho divino”, limpo de qualquer mácula. “Mas os sacerdotes”, diz ele, “fizeram dapalavra mistério uma muralha para a religião. Bem que podiam estender véus sobre os pontos mais importantes, pregar-lheso desenvolvimento como preço do trabalho e da constância e com isso provar seus prosélitos, exercendo ao mesmo tempo ainteligência e o zelo; mas não deviam tornar essas descobertas tão impraticáveis a ponto de o universo ficar, por essemotivo, desencorajado… em uma palavra, no lugar deles, eu teria pregado um mistério como uma verdade velada e nãocomo uma verdade impenetrável.” Assim, Saint-Martin apenas fazia com que se desse novamente à palavra mistério o seusentido primitivo, e não vejo o que se poderia responder a ele, senão reconhecer que o conteúdo substancial da maior partedos mistérios está hoje perdido. Por outro lado, será tão difícil discernir que o argumento costumeiro (a fé não seria mais ummérito se pudesse ser uma evidência) só é inevitável para a fé… costumeira, uma fé tão fraca que não sabe mais criar aprópria evidência e manter-se nela através de uma luta incessante? Albéric Thomas10 declarou ser “pueril sustentar queSaint-Martin seja o continuador de Martinez de Pasqually”, pois, ao abandonar seu mestre, ele se teria tornado “um místicoquem repugna qualquer gênero ativo”.
6 La Franc-Maçonnerie ocultiste e l'Ordre des Elus Cohens [A Franco-Maçonaria ocultista e a Ordem dos Elus Cohens]. (ElusCohens significa ”sacerdotes eleitos”.7 Citado por Auguste VIATTE: Les sources occultes du romantisme [Fontes ocultas do romantismo].8 Carta a Kirchberger, 11 de julho de 1796. (Tradução direta do original da carta: “Fico mesmo tentado a crer que M. Pasq.,de quem me falais (e que, já que é preciso dizê-lo, era nosso mestre), possuía a chave ativa de tudo o que o nosso caro B.expõe em suas teorias, mas que não nos acreditava em condições de sermos portadores dessas altas verdades.” - N.T.)9 Segundo testemunho de Franz von Baader, citado por E. SUSINI: F. von Baader et le romantisme mystique.10 Nouvelle notice historique sur le martinesisme et le martinisme. Biblioteque rosicrucienne [Nova notícia histórica sobre omartinesismo e o martnismo. Biblioteca Rosacruz], no. 5, 1900.
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