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Quadro Natural das Relações ExistentesEntre Deus, o Homem e o Universo
Louis-Claude de Saint-Marti
O FILÓSOFO DESCONHECIDOAPRESENTAÇÃO de PHILIPPE LAVASTINEExplicar as coisas pelo homem, e não o homem pelas coisas.SOBRE OS ERROS E A VERDADEPor um Filósofo Desconhecido.(Tradução da obra publicada porËDITIONS DU GRIFFON D'OR 41, RUE GAMBETTA, ROCHEFORT-SUR-MER 1946)SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.............................................................................................................................................1Quadro Natural das Relações Existentes Entre Deus, o Homem e o Universo.............................................4GLOSSÁRIO...............................................................................................................................................90ANEXO........................................................................................................................................................93INVOCAÇÃO DE RECONCILIAÇÃO......................................................................................................93MEMORANDO MÍSTICO DE MADAME PROVENSAL....................................................................... 95O ORIGINAL ACOMPANHADO..............................................................................................................95INVOCAÇÃO DE RECONCILIAÇÃO......................................................................................................96O MEMORANDO MÍSTICO DA SRA. PROVENSAL............................................................................ 97
INTRODUÇÃO 
“Não podemos ler-nos a não ser no próprio Deus e compreender-nos a não ser em seu próprio esplendor.” SAINT-MARTIN,Ecce homo, p 19. Louis-Claude de Saint-Martin, chamado “o Filósofo Desconhecido” (1743-1803), a quem Joseph de Maistrechamou “o mais instruído, mais sábio e mais elegante dos teósofos”, foi “uma das almas mais religiosas e mais puras que jápassaram pela terra”, como escreveu Henri Martin em sua História da França; “o representante mais completo; o intérpretemais profundo e mais eloqüente que o misticismo já teve em nosso país e o que mais influência exerceu”, conforme escreveuVictor Cousin, um homem que recebeu “luzes sublimes”, segundo disse Mme. de Staël, e reabilitou para a época de Diderot ede Holbach todos os “ídolos metafísicos” que estes acreditaram ter derrubado. Ele restabeleceu contra a opinião de Garat “aexistência de um sentido inato e a distinção entre as sensações e o conhecimento”1. Restaurou a idéia de que o homempode conhecer intimamente “o princípio de seu ser, Causa ativa e inteligente”2. Retomou a idéia da queda, decadência deum estado primitivo, de realeza, no qual o homem, fiel a seu Modelo divino, conformava-se exatamente à sua tarefa de ser um portador de seu Fogo (SER É SER)3, no meio de sua criação. Mas Adão desobedeceu a essa lei de liberdade absoluta,cedeu aos atrativos de sua substância sensível, e confundiu seu ser a ponto de esquecer o ser de seu ser, cometendo o atoque Saint-Martin denomina “Adultério primitivo”. A Cabala chama a Terra de “Divina Noiva”, destinando ao homem o papel demediador entre o Céu e a Terra. Pois esta é, ela própria, “celestial”, conforme dizia a cavalaria, e o homem não tem, pois, odireito de unir-se a ela em estado de impureza. Se o Valete do Rei se torna o valete de sua própria sensualidade, macula aDama. “Visto que atendeste à voz de tua mulher, maldita é a Terra por tua causa”4, dizem as Sagr adas Escrituras numresumo admirável. Realmente, se o homem cede à mulher, no momento em que ela cede a Satã, nesse momento é a ela
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mesma que ele traiu. Por causa disso, a Natureza inteira ficará alterada, tornar-se-á diferente do que é. Mas o homem, dizSaint-Martin, pode restaurar a integridade de seu ser, desnaturado hoje até o ponto da animalidade. Pode encontrar aconformidade com a fórmula de identidade absoluta de seu Nome, isto é, tornar a ser livre. Se ele introduziu sua mácula noUniverso, interrompendo, desse modo, as relações naturais de sua União com Deus, a Terra amaldiçoada se vinga, voltando-se contra o homem para fazê-lo expiar. Ora, diz Saint-Martin, o sofrimento é o que existe de mais apropriado para “reativar”as centelhas divinas que ainda se encontram, imortais, no mais decaído dos seres. Pela graça do sofrimento, subsiste pois,para cada um de nós, uma oportunidade de poder operar o que ele denomina “a Grande Obra da mudança da vontade” ou,segundo uma outra perspectiva, o restabelecimento, na Ordem própria, das quatro letras do nome de Adão, quecorrespondiam primitivamente às quatro letras do Nome divino, os quatro aromas de peso igual dos quais se compõe oPerfume, sem o qual, diz o livro do Êxodo, o homem nada pode fazer5.
1 Discurso em resposta ao cidadão Garat, professar de entendimento humano… (1795).2 Des erreurs et de la Vérité [Sobre os erros e a Verdade] (1775).3 Eheieh asher aheieh, o que se costuma traduzir como: sum qui sum, sou aquele que sou.4 Gênesis 3:17 - Tradução de João Ferreira de Almeida. Sociedade Bíblica do Brasil. Edição revista e atualizada no Brasil.(N.T.)5 Yod, Pai. He, Natureza divina do Filho. Vav, Espírito, Mãe. He, Natureza humana do Filho. Pela repetição do segundotermo, o tetragrama simboliza a persistência do ternário divino no quaternário de sua manifestação cósmica (descida esubida). O ano com seus dois equinócios, sendo apenas um e, no entanto, dois, como as duas naturezas do Cristo, a fim deseparar para reunir inverno e verão, Céu e Terra, Rei e Rainha, é uma clara imagem disso.
Claude de Saint-Martin foi, a princípio, discípulo de um taumaturgo que desempenhou na Franco-Maçonaria da época umpapel de fundador: Martinez de Pasqually, o Grande-Mestre Soberano da Ordem dos Élus Cohens, cuja história nos foicontada por R. Le Forestier6. A Ordem propunha-se nada menos do que “suprir as deficiências da Igreja, que deveriam ser total no fim dos tempos”7. E nossos Iluminados Martinistas trabalham firme no desenvolvimento de seus Poderes sobre osEspíritos perversos e os Espíritos divinos - pois, ensina Martinez - ao homem foi dado o Poder sobre as duas classes deespíritos - a fim de constituir esse novo poder espiritual, o qual permitiria que se continuasse a “garantir as comunicaçõescom o mundo sobrenatural”. Tal era a tarefa empreendida… Mas parece que Saint-Martin considerou imediatamente“violentos demais” os procedimentos teúrgicos empregados por seu mestre e enfadonhos os ritos da magia cerimonial. Entãoretirou-se para praticar exclusivamente o caminho que estava “mais de acordo com seu coração”, ao qual chamou “caminhointerior”. Parece, até, que mais tarde ele se reprovou por essa deserção, quando a leitura mais aprofundada de JacobBoehme o convenceu de que “M. de Pasqually possuía a chave ativa de tudo aquilo que nosso caro Boehme expõe em suasteorias, mas que não nos achava em condições de possuir.” 8 A doutrina de Saint-Martin, hostil a qualquer supranaturalismo,assim como a qualquer materialismo, é “a doutrina das harmonias da luz da natureza e da graça”9. Ela nada tem depanteísmo, porém insiste na onipresença do divino. Saint-Martin havia, a princípio, planejado dar a um de seus livros, L'Espritdes ChosesI [O Espírito das Coisas], este título ainda mais significativo: Les Révélations Naturelles [As Revelações Naturais].Para ele é um princípio natural que “nenhuma verdade religiosa deixe de fazer sua revelação própria no coração do homem”,se ele souber manter o pensamento, “espelho divino”, limpo de qualquer mácula. “Mas os sacerdotes”, diz ele, “fizeram dapalavra mistério uma muralha para a religião. Bem que podiam estender véus sobre os pontos mais importantes, pregar-lheso desenvolvimento como preço do trabalho e da constância e com isso provar seus prosélitos, exercendo ao mesmo tempo ainteligência e o zelo; mas não deviam tornar essas descobertas tão impraticáveis a ponto de o universo ficar, por essemotivo, desencorajado… em uma palavra, no lugar deles, eu teria pregado um mistério como uma verdade velada e nãocomo uma verdade impenetrável.” Assim, Saint-Martin apenas fazia com que se desse novamente à palavra mistério o seusentido primitivo, e não vejo o que se poderia responder a ele, senão reconhecer que o conteúdo substancial da maior partedos mistérios está hoje perdido. Por outro lado, será tão difícil discernir que o argumento costumeiro (a fé não seria mais ummérito se pudesse ser uma evidência) só é inevitável para a fé… costumeira, uma fé tão fraca que não sabe mais criar aprópria evidência e manter-se nela através de uma luta incessante? Albéric Thomas10 declarou ser “pueril sustentar queSaint-Martin seja o continuador de Martinez de Pasqually”, pois, ao abandonar seu mestre, ele se teria tornado “um místicoquem repugna qualquer gênero ativo”.
6 La Franc-Maçonnerie ocultiste e l'Ordre des Elus Cohens [A Franco-Maçonaria ocultista e a Ordem dos Elus Cohens]. (ElusCohens significa ”sacerdotes eleitos”.7 Citado por Auguste VIATTE: Les sources occultes du romantisme [Fontes ocultas do romantismo].8 Carta a Kirchberger, 11 de julho de 1796. (Tradução direta do original da carta: “Fico mesmo tentado a crer que M. Pasq.,de quem me falais (e que, já que é preciso dizê-lo, era nosso mestre), possuía a chave ativa de tudo o que o nosso caro B.expõe em suas teorias, mas que não nos acreditava em condições de sermos portadores dessas altas verdades.” - N.T.)9 Segundo testemunho de Franz von Baader, citado por E. SUSINI: F. von Baader et le romantisme mystique.10 Nouvelle notice historique sur le martinesisme et le martinisme. Biblioteque rosicrucienne [Nova notícia histórica sobre omartinesismo e o martnismo. Biblioteca Rosacruz], no. 5, 1900.
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Esse julgamento é por demais severo. E, ao menos, não existe vestígio algum de quietismo na doutrina do homem queglorificava no Cristo um “herói da vontade” e cuja obra não passou de uma exortação ao “exercício de todas as virtudes quedeixem a alma pronta para assenhorear-se de suas luzes e a fazê-las frutificar para a glória da Fonte”11. Em seu Traité sur l'Influence des Signes [Tratado sobre a Influência dos Símbolos], ele expôs seu método de autoconhecimento por meio deprovas ativas. E Caro apresenta uma citação suficiente dessas provas em seu Essai sur la Vie et la Doctrine de Saint-Martin(1850). Escreve Saint-Martin: “Aqui (no que concerne à Ciência de si mesmo) somos, ao mesmo tempo, o sujeito anatômicoe o doente ferido em todos os membros, o que acontece depois de uma dissecação Completa, feita em todos nós, os vivos, eé somente através de atos perscrutadores que podemos atingir os confins da Ciência.” Assim, Saint-Martin preconiza umaobservação ativa, dolorosa, que somente poderia arrancar gritos da alma que a ela se submete, e que lhes deve arrancá-los,o que Caro, chocado em seu Cartesianismo comenta assim: “Não se trata mais, como se vê, do método experimental, calmo,lúcido, instrumento da verdadeira ciência: é uma ciência mística!… O ato perscrutador, para falarmos essa língua estranha, équase um ato cirúrgico. Não se estuda o homem no desenvolvimento de sua vida regular: ele é colocado num estadoviolento, numa crise. É preciso pressionar, esmagar, quebrar-lhe a alma para forçá-la a responder. É preciso fazer com queele proclame seu mal em altas vozes. Eis o que Saint-Martin denomina uma prova ativa.” E conclui doutamente: “Estamoslonge do verdadeiro método e do bom senso.” Entretanto, essa é a idéia profunda de Saint-Martin e o centro de sua doutrina,que não é mais do que a da Cruz, Arma do Conhecimento. É preciso “dar madeira para ter o pão”, segundo a expressão doProfeta. É preciso passar pelo lagar para se conseguir o licor da imortalidade. É preciso participar voluntariamente nossofrimentos do Cordeiro, pois não temos o direito de “nos eximirmos de contribuir com ele na obra como se ele tivesse deexecutá-la sozinho e sem o concurso de nossa livre vontade”, escreveu Saint-Martin. É nessa perspectiva que ele voltaráincansavelmente à idéia de que o destino do homem, o sentido mesmo da vida, é “anunciar Deus ao mundo manifestandoseus poderes, e não usurpando-os”12. Estamos aqui nos antípodas da atitude passiva. Foi um primeiro “êxtase” queacarretou a queda do primeiro homem, dizia Martinez abertamente13. Esse é um ensinamento que Saint- Martin jamaisesqueceu. Mas é também o ensinamento tradicional que a espiritualidade, na época de Mme. Guyon e de Dutoit, haviaesquecido de maneira perigosa. E por que se pregava o distanciamento do mundo? É que não se sabia mais que não é “estemundo” que é mau, mas que é má a nossa escravização ao mundo, pela qual nós o traímos, privando-o da Única coisa queDeus espera de nós: o Serviço ativo de manifestar-lhe seu Nome. A linguagem da religião ativa é a da admiração, daadoração e da vontade de representar, de encarnar, de santificar aqui no mundo o Nome admirado e amado. Retomando umpensamento de Saint-Martin, escreveu Franz von Baader: “As Sagradas Escrituras dizem que o homem foi criado para ser aimagem de Deus. Em outras palavras, que o homem consegue gerar ou realizar essa imagem nele e por ele…” Assim diziaVivekananda: “Não se trata de nos tornarmos cada vez mais puros, mas de manifestarmos a pureza que está em nós.”
11 Nouvel homme [O Novo Homem].12 Era a doutrina dos alquimistas, que viam na Cruz o crisol em que o mundo devia ser refundido. I.N.R.I lia-se: Igne NaturaRenovatur Integra. (N.T.: Toda a Natureza será renovada pelo Fogo.)13 “L'homme est tombé dans l'extase” [O homem caiu no êxtase. N.T.] (Traité de la Réintégration des êtres dans leurs premières propriétés spirituelles et divines.)
Uma pureza, uma liberdade imortal, é o poder recebido por todo homem juntamente com o dom da vida. Mas “o homemacreditou-se mortal”, escreveu Saint-Martin, “porque encontrou em si qualquer coisa de mortal.” É preciso ensinar-lhe queisso não era Ele. Tudo se acha, pois, na parábola dos talentos: “Minha palavra, diz o Senhor, não deve ser por vós a mimdevolvida sem conteúdo.” Saint-Martin teve, em grau bem elevado, o sentido do “esforço que é o homem por inteiro”, comodisse Blanc de Saint-Bonnet. Mas sua visão não se limita jamais à perspectiva religiosa de salvação individual. “O homemverdadeiro”, diz a tradição do Extremo Oriente, “não se detém a completar a si mesmo: ele completa também as coisas.”Tem, assim, um papel intermediário no Cosmos, sendo o mediador indispensável entre o Céu e a Terra. Ninguém podetornar-se verus homo sem tornar-se filho de Deus. Mas, como disse Mestre Eckart, “houvesse mil filhos, não poderiam ser senão o Único Filho”. Foi isso o que Joseph de Maistre chamou de “cristianismo exaltado” de Saint-Martin. No princípio,houve um sacrifício divino, qualquer coisa como uma negação do Princípio até à fraqueza das coisas e esse ato afirmativo doamor - um Sim tem a natureza de ser na medida em que tem amor - foi a criação. Mas, como disse, Tauler, “a saída só existepor causa do regresso, e o rebaixamento do Criador teve como finalidade realizar uma elevação deste último.” O Criador pôs-se à disposição da Criatura; permanece em sua dependência; espera, com sua Inteligência, que ela reconheça a dívida eque seja libertada. Todas as criaturas nascem como uma dívida para com o Senhor. “Se apenas”, exclamou Saint-Martin,“pudéssemos jamais esquecer que Ele não nos deve nada…” O homem cai, segundo Saint-Martin, todas as vezes que deixade desejar um ser superior a si mesmo, pois “a alma só pode viver em admiração.” E é essa necessidade de admiração queé a prova de Deus. “Quando o homem não mais admira, está vazio e nulo. Está como que mergulhado num sono espesso etenebroso.” A Cabala denomina esse mundo como “mundo da Separação…” Mas, se um homem coloca em si a resolução deuma outra Separação, de um sacrifício, ele afirma Deus: força-se a ser livre, opera o ato salvador. E o que Saint-Martinchamava, juntamente com seu Mestre, de Reintegração, pode agora cumprir-se devagar. É a Páscoa de luz. Ora, todas astradições conhecem, ao lado do Ioga individual, esse tipo de Ioga cósmico em que, por uma Alquimia sacrificial, que está naprópria natureza das coisas, produz-se incessantemente um processo de Redenção do Divino. Quer queira o homem, quer não, ele colabora nela. Mas se não participa, ritual ou conscientemente, dessa exaltação, não terá parte alguma nessa glória.
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