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SOLARISStanislaw LemSEGUNDA EDIÇÃO REVISADATRADUÇÃO JOSÉ SANZRio de Janeiro 2003A chegada 7Os solaristas 21Os visitantes 43Sartorius 55Rheya 73O Pequeno apócrifo 91A conferência 121Os monstros .141O oxigênio líquido 175Conversa 195Os pensadores 209Os sonhos 233Vitória 245O velho mimóide 257#A chegadaAS DEZENOVE horas, hora da nave, fui para a área de lançamento. Em volta dos poços, oshomens ficaram em filas para me deixar passar. Desci uma escada e entrei na cápsula.No interior da estreita cabine, eu mal podia afastar os braços do corpo. Fixei o tubo da bomba àválvula do meu escafandro, que se encheu rapidamente. A partir desse instante, fiquei impossibilitadode fazer qualquer movimento. Lá estava eu de pé, ou melhor, suspenso, envolto no meu macacãoespacial integrado na carapaça metálica.Olhei para cima. Vi, através do globo transparente, uma parede lisa e, bem no alto, a cabeça deModdard inclinada sobre a abertura do poço. Moddard desapareceu e, bruscamente, fezse noite. Opesado cone protetor havia sido colocado no lugar. Ouvi oito vezes seguidas o zumbir dos motoreselétricos que apertavam as porcas e depois o chiado do ar comprimido nos amortecedores. Meus olhoscomeçaram a se habituar à escuridão. Divisei a moldura fosforescente do único medidor.Uma voz ressoou nos fones:- Pronto, Kelvin?
 
- Pronto, Moddard - respondi.- Não se preocupe - continuou ele. - A estação colherá você em vôo. Boa viagem!Houve um rangido e a cápsula oscilou. Contraí os músculos quase sem querer. Não ouvi nenhumoutro ruído, nem qualquer novo movimento.- Quando é a partida? - perguntei.Ouvi um barulho no exterior da cápsula, como um chuvisco de areia fina.- Você já está a caminho, Kelvin. Felicidades! - respondeu a voz de Moddard, tão próxima quantoantes.Uma fenda abriu-se na altura dos meus olhos e vi as estrelas. A Prometheus navegava nosarredores de Alfa do Aquário. Mas foi em vão que tentei me orientar. Uma poeira brilhante enchia aescotilha; não reconheci nenhuma constelação; o céu daquela região da galáxia era desconhecido paramim. Esperei o momento de passar pela primeira estrela nítida; fui incapaz de distinguir alguma. Seuesplendor diminuía; elas fugiam, submersas num vago clarão púrpura. Foi assim que tive consciênciada distância percorrida. com o corpo inteiro metido no meu invólucro pneumático, eu rasgava o espaçocom a impressão de continuar imóvel no vácuo, tendo como única realidade o calor que subia lenta,progressivamente.De súbito, houve um ruído agudo, um rangido. Como se uma lâmina de aço estivesse sendoesfregada numa placa de vidro molhado. E começou a queda. Se os meros que pulavam nomostrador do contador não me tivessem advertido, eu não teria reparado na mudança de direção; comas estrelas desaparecidas havia muito tempo, o olhar se perdia, mais que nunca, na pálida claridadeamarelada do infinito. Eu podia ouvir meu coração, que batia surdamente. Sentia, na nuca, o sopro friodo climatizador. Não obstante, tinha o rosto em fogo. Lamentei não ter podido avistar a Prometheus.Sem dúvida estava fora do meu alcance quando os comandos automáticos abriram o protetor metálicoda grande escotilha.Uma sacudidela abalou a cápsula, seguida logo de outra. O veículo começou a vibrar. Penetrandonas camadas de revestimentos isolantes, atravessando meu envoltório pneumático, a vibração meatingiu e se comunicou ao meu corpo inteiro. Multiplicada, a luz fosforescente do contador espalhava-separa todos dos lados. Não fiz caso do medo. Não empreendera aquela longa viagem para ir me perder além do objetivo!- Estação Solaris! Estação Solaris - gritei. - Estação Solaris! Acho que estou saindo da trajetória!Mantenham-me no rumo! Estação Solaris, fala a cápsula vinda da Prometheus. Estou esperando,Solaris!Eu havia perdido o precioso instante da aparição do planeta! Ele surgia diante dos meus olhos jáimenso e plano. Apesar disso, em virtude do aspecto da sua superfície, pensei que ainda estava longe.Ou, mais exatamente, que ainda estava muito alto, uma vez que eu havia ultrapassado aimperceptível fronteira, a partir da qual a distância que nos separa de um corpo celeste mede-se emtermos de altitude. Eu começava a cair. Naquele instante, mesmo de olhos fechados, sentia a queda.Apressei-me a abrir os olhos, pois não queria perder mais nada do que havia para ser visto.Fiquei em silêncio durante um minuto e depois recomecei a chamar. Nenhuma resposta. Ascrepitações se sucediam nos fones, tendo como fundo um rumor, baixo e profundo, que imaginei ser aprópria voz do planeta. Um véu cobria o céu alaranjado e a vigia escureceu. Encolhi-me instintivamentedentro dos limites permitidos pelo meu macacão espacial. Quase imediatamente, vi que estavaatravessando nuvens. Como se tivesse sido aspirado para o alto, a massa de nuvens desapareceu. Euplanava, ora na luz, ora na sombra, pois a psula girava sobre si mesma, num eixo vertical.
 
Gigantesca, a massa solar apareceu finalmente diante da vidra, surgindo à esquerda paradesaparecer à direita.Uma voz longínqua chegou-me através dos ruídos e das crepitações.- Atenção, fala a estação Solaris! Aqui a estação Solaris! Vai tudo bem. Você está sob o controleda estação Solaris. A cápsula pousará no tempo zero. Repito, a cápsula pousará no tempo zero.Prepare-se! Atenção, vou começar. Duzentos e cinqüenta, duzentos e quarenta e nove, duzentos equarenta e oito...Miados secos entrecortavam os vocábulos. Aquelas palavras de acolhida eram pronunciadas por um aparelho automático. Espantoso, era o mínimo que se podia dizer. Habitualmente, todos os homensde uma estação espacial corriam para receber um recém-chegado, principalmente quando este vinhadiretamente da Terra. Não tive tempo de continuar a me espantar, pois a órbita do sol, que até entãome circundava, deslocou-se inopinadamente e o disco incandescente pareceu dançar no horizonte doplaneta, aparecendo ora à direita, ora à esquerda dele. Eu balançava como se fosse o peso de umpêndulo gigantesco, enquanto o planeta, mostrando uma superfície estriada de sulcos violáceos eenegrecidos, erguia-se à minha frente como uma parede. Minha cabeça estava começando a rodar quando descobri um pequeno tabuleiro de pontos verdes e brancos - o campo de orientação daestação. Houve um estalo e alguma coisa separou-se do cone da cápsula. O longo colar do pára-quedas desprendeu seus anéis com violência e o barulho que chegou até mim evocavairresistivelmente a Terra: pela primeira vez, depois de tantos meses, o ruído do vento.A seguir foi tudo muito rápido. Até ali eu sabia que estava caindo. Agora eu via a queda. Otabuleiro verde e branco aumentava rapidamente. Vi que ele havia sido pintado sobre um corpoalongado, em forma de baleia, com reflexos prateados, cujos flancos estavam eriçados de antenas deradar. Vi que aquele colosso metálico, cheio de fileiras de aberturas escuras, não assentava nasuperfície do planeta, mas flutuava, projetando sobre um fundo de tinta uma sombra elipsoidal de umpreto mais intenso. Distingui as rugas acinzentadas do oceano, animadas por um leve movimento e, derepente, as nuvens subiram muito, cercadas de um ofuscante halo escarlate.Mais além, o céu amarelado tornou-se cor de cinza, longínquo e liso, e tudo desapareceu. Caí emparafuso.Um choque pido estabilizou a psula. Revi, através da escotilha, as ondas do oceano,semelhantes a cristas de mercúrio refulgente. Os cabos se desamarraram subitamente e os gomos dopára-quedas, levados pelo vento, voaram de forma confusa por cima das ondas. Oscilando naqueleritmo lento todo especial que lhe era imposto por um campo magnético artificial, a cápsula desceusuavemente. Tive ainda tempo de ver as grades das rampas de lançamento e, no cimo de suas torresiluminadas, os espelhos de dois radiotelescópios. Houve um barulho de aço contra aço, a cápsula seimobilizou, uma escotilha se abriu e, com um longo suspiro rouco, a carapaça metálica, que meaprisionava, terminou sua viagem.Ouvi a voz sem vida da instalação de controle.- Estação Solaris. Zero e zero. A cápsula está pousada. Fim.com as duas mãos (eu sentia uma vaga pressão no peito e as vísceras pesaremdesagradavelmente), agarrei as alavancas e cor tei os contatos. Um letreiro se acendeu em verde:CHEGADA. A parede da cápsula abriu-se. A cama pneumática empurroume com suavidade, de maneiraque, para não cair, tive de dar um passo à frente.Com um silvo abafado, resignado, o escafandro expulsou o ar dos seus depósitos. Eu estava livre.
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