Gigantesca, a massa solar apareceu finalmente diante da vidraça, surgindo à esquerda paradesaparecer à direita.Uma voz longínqua chegou-me através dos ruídos e das crepitações.- Atenção, fala a estação Solaris! Aqui a estação Solaris! Vai tudo bem. Você está sob o controleda estação Solaris. A cápsula pousará no tempo zero. Repito, a cápsula pousará no tempo zero.Prepare-se! Atenção, vou começar. Duzentos e cinqüenta, duzentos e quarenta e nove, duzentos equarenta e oito...Miados secos entrecortavam os vocábulos. Aquelas palavras de acolhida eram pronunciadas por um aparelho automático. Espantoso, era o mínimo que se podia dizer. Habitualmente, todos os homensde uma estação espacial corriam para receber um recém-chegado, principalmente quando este vinhadiretamente da Terra. Não tive tempo de continuar a me espantar, pois a órbita do sol, que até entãome circundava, deslocou-se inopinadamente e o disco incandescente pareceu dançar no horizonte doplaneta, aparecendo ora à direita, ora à esquerda dele. Eu balançava como se fosse o peso de umpêndulo gigantesco, enquanto o planeta, mostrando uma superfície estriada de sulcos violáceos eenegrecidos, erguia-se à minha frente como uma parede. Minha cabeça estava começando a rodar quando descobri um pequeno tabuleiro de pontos verdes e brancos - o campo de orientação daestação. Houve um estalo e alguma coisa separou-se do cone da cápsula. O longo colar do pára-quedas desprendeu seus anéis com violência e o barulho que chegou até mim evocavairresistivelmente a Terra: pela primeira vez, depois de tantos meses, o ruído do vento.A seguir foi tudo muito rápido. Até ali eu sabia que estava caindo. Agora eu via a queda. Otabuleiro verde e branco aumentava rapidamente. Vi que ele havia sido pintado sobre um corpoalongado, em forma de baleia, com reflexos prateados, cujos flancos estavam eriçados de antenas deradar. Vi que aquele colosso metálico, cheio de fileiras de aberturas escuras, não assentava nasuperfície do planeta, mas flutuava, projetando sobre um fundo de tinta uma sombra elipsoidal de umpreto mais intenso. Distingui as rugas acinzentadas do oceano, animadas por um leve movimento e, derepente, as nuvens subiram muito, cercadas de um ofuscante halo escarlate.Mais além, o céu amarelado tornou-se cor de cinza, longínquo e liso, e tudo desapareceu. Caí emparafuso.Um choque rápido estabilizou a cápsula. Revi, através da escotilha, as ondas do oceano,semelhantes a cristas de mercúrio refulgente. Os cabos se desamarraram subitamente e os gomos dopára-quedas, levados pelo vento, voaram de forma confusa por cima das ondas. Oscilando naqueleritmo lento todo especial que lhe era imposto por um campo magnético artificial, a cápsula desceusuavemente. Tive ainda tempo de ver as grades das rampas de lançamento e, no cimo de suas torresiluminadas, os espelhos de dois radiotelescópios. Houve um barulho de aço contra aço, a cápsula seimobilizou, uma escotilha se abriu e, com um longo suspiro rouco, a carapaça metálica, que meaprisionava, terminou sua viagem.Ouvi a voz sem vida da instalação de controle.- Estação Solaris. Zero e zero. A cápsula está pousada. Fim.com as duas mãos (eu sentia uma vaga pressão no peito e as vísceras pesaremdesagradavelmente), agarrei as alavancas e cor tei os contatos. Um letreiro se acendeu em verde:CHEGADA. A parede da cápsula abriu-se. A cama pneumática empurroume com suavidade, de maneiraque, para não cair, tive de dar um passo à frente.Com um silvo abafado, resignado, o escafandro expulsou o ar dos seus depósitos. Eu estava livre.
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