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Ss e Vo Pe Ms
Fernando Gabeira
 
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Para realizar esse trabalho, consultei vários livros entre os quais destaco
O crime antes da festa 
, de AguinaldoSilva, e a série histórica de Agripa Vasconcelos (Editora Itatiaia), sobretudo
Chica que manda, romance do ciclo dos diamantes nas Gerais 
, e
A vida em flor de Dona Beja, romance do ciclo do povoamento nas Gerais 
.A biografia do delegado Renato de Lima foi consultada num exemplar pertencente à família e nela incluíalgumas descrições e frases arbitrárias, sem prejuízo da verdade essencial. O poeta de Minas constantementecitado é Carlos Drummond de Andrade. O autor da estória de Maria-Maria é João Guimarães Rosa e háreferências esparsas a outros poetas e escritores ao longo do livro.Considero este um trabalho bem próximo da reportagem, uma tentativa de entender e amar, que, emalguns espaços vazios, foi preenchido com hipóteses. Não pretendo dar uma versão definitiva dos fatos, masesta me pareceu a mais adequada para descrevê-los no momento. Alguns depoimentos foram condensadosnum só testemunho, afastando-me assim da objetividade, em busca de um efeito que transforme a vida daspessoas mencionada, tanto quanto o possível, numa fonte de orientação e estímulo para os que sobrevivem.Há o perigo de matá-las de novo, sob o peso dos meus esquemas abstratos. Decidi correr o risco.F.G.
“Ah. Eis aquele que me medita.Ele sonha e esse sonho sou eu.” 
Carl G. Jung,Memórias, Sonhos e Reflexões
 
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Santa não era, nem veio ao mundo para nos salvar. Apenas uma mulher nascida nas montanhas de Minase morta à beira-mar, na Praia dos Ossos, estupefata diante do homem e sua pistola: bang, bang, sua puta;bang, bang, não me deixe. No entanto, não deixou ninguém, anos depois de sua morte. Ainda outro dia, umvelho advogado chamava-a de Vênus Lasciva, num programa de tevê, e garantia que seu corpo destilavao veneno do instinto sexual. Os olhos do advogado faiscavam e todos temíamos que ela reencarnassee aparecesse nua, copo de vodca na mão, desmoronando com uma simples mexida de cadeiras o frágilalicerce dos nossos lares.Pantera era o seu nome par aos jornais, mas a verdade é que esse bicho não existe no Planeta Minas, apesarde sua ausência ser insignificante para nos definir. Não temos nem nunca tivemos mar. E sempre nos faltouum pouco de sal, pois as tropas de burros levavam dois meses para transportá-lo à nossa mesa. Onça, sim,há muita. Uma delas, Maria-Maria, tornou-se heroína da literatura, ao aproximar-se cuidadosamente deum caçador chamado Tonho Tigreiro, fitá-lo com carinho, lamber seu rosto, apaixonar-se por ele e vivera seu lado pelo resto da vida.Tia Pantera era seu nome para as crianças e, apoiado na intuição infantil, interroguei-me por que umapessoa aparentemente rica e feliz terminava crivada de balas, num fim de tarde na praia, naquele momento,imagino, em que os barcos retardatários retornam ao porto, deslizando entre peixes-voadores que aindasaltavam alegremente da superfície clara-escura das águas. – Ela recusou todos os valores de nossa civilização – afirmava o velho advogado, contratado para absolvero matador. Será?, perguntava eu ao desembarcar na capital do Planeta, num verão cinzento e frio. Sabia,por experiência própria, que a atmosfera é rara, às vezes quase impossível, naquelas terras; que circulamcarros com frases enigmáticas como “olhe bem as montanhas”; e que, no crepúsculo, a multidão que sai dotrabalho é tangida pela polícia montada a ocupar seus lugares nos ônibus que voltam ao lar.Um amigo recolheu-me no aeroporto e levou-me diretamente para um lugar que ele disse chamar-seLadeira do Amendoim. Ali, estacionou o carro na inclinação, desligou o motor, liberou os freios e o carro,ao invés de descer ladeira abaixo, começou a subir, fiquei perplexo e suponho que minha cara parecia a dequem tinha acabado de receber uma abóbora na cabeça. Lembro-me de ter balbuciado: – Quer dizer que a gravidade...O amigo apenas perguntou: – O que é que você veio fazer aqui?
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