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Os Juristas e os Poetas
George Marmelstein Lima
 – 
Juiz Federal Substitutoe-mail: georgemlima@jfce.gov.br  Sítio: http://www.georgemlima.hpg.com.br  Os poetas parnasianos cultuavam a forma ao extremo. A produçãoliterária desses poetas era, como dizia Bilac, uma
 profissão de fé 
,
que invejava oourives ao escrever, torcendo, aprimorando, alteando, limando a frase, na buscada Serena Forma, em prol do Estilo
. A estética era tudo. Nada importava que fossevazio o conteúdo, se a
estrofe cristalina, dobrada ao jeito do ourives, saísse daoficina sem um defeito
. A simples descrição de um
Vaso Grego
, por exemplo,exigia do poeta todo o seu talento, fazendo surgir um dos mais belos sonetos emlíngua portuguesa, mas que, no fundo, trazia nenhuma substância. A norma era"
reduzir sem danos a fôrmas a forma
", como o sapo-boi de Manuel Bandeira.No outro extremo literário, apareciam, décadas depois, os dadaístas, paraquem o objetivo seria destruir a forma ou qualquer espécie de ordenação lógica.Para os poetas dadaístas havia, contra tudo e contra todos, "
um grande trabalhodestrutivo, negativo, a executar 
" (Tristan Tzara, no seu
 Manifesto Dadá 1918
). Ser"dadá" era, antes de tudo, ter como princípio abominar todos os princípios: era umverdadeiro anarquismo poético.Se fôssemos buscar um meio termo entre esses dois movimentospendulares, teríamos uma espécie de poeta romântico. Não os românticos desegunda geração, "
mal do século
", com suas poesias impregnadas de egocentrismo,negativismo, pessimismo e dúvidas; mas uma evoluída geração
condoreira
, cujaforma poética seria apenas um meio de propagar suas idéias libertárias. A estéticanão seria um fim em si mesmo: o importante seria bradar contra o escravismo etodas as formas de aprisionamento humano. Viva liberdade!, era o lema, afinal
a praça é do povo como o céu é do condor 
.
 
Fazendo uma simbólica comparação, pode-se dizer que há três espéciesde juristas: os parnasianos, os dadaístas e os românticos.O jurista parnasiano seria aquele jurista tradicional, que cultua a lei atéas últimas conseqüências. No campo processual, o processo seria um fim em simesmo, completamente abstrato e autônomo. As formas, para este operador dodireito, deveriam ser sempre e sempre observadas, mesmo que em sacrifício a umvalor superior; afinal, para ele o valor não existiria na norma. Não haveria espaçopara liberdade. A solução jurídica do caso concreto deveria se pautar nos estritoslimites da lógica formal de subsunção dos fatos à norma (leia-se: à lei). O juiz seriameramente a "
boca da lei
", ao gosto de Montesquieu. Uma sentença prolatada porum jurista desta espécie seria esteticamente perfeita: um relatório minucioso, umafundamentação com vastas citações de leis e regulamentos que sustentariam aconvicção do juiz e um dispositivo incisivo, retirado de um modelo de um livroqualquer. Uma bela e objetiva sentença, sem dúvida, mas completamente vazia,destituída de qualquer espírito de justiça, completamente imune a paixões esentimentos sociais. Se para o poeta parnasiano a Língua Portuguesa seria "
incultae bela
", para o jurista desta espécie a Lei poderia até ser injusta, mas seria seguracomo uma corrente, e, dessa forma, o juiz deveria ser seu fiel executor, sob pena deinstitucionalizar o caos. Por isso mesmo, a forma, ou melhor, a lógica formal teriaassim sepultado o Direito, aprisionando a criatividade do jurista como uma algema,tornado-o escravo da lei.Já para o jurista dadaísta, não haveria limites.
 A lei? Que lei? Essa leidesses parlamentares corruptos? Essa a gente não aceita. E se não aceitamos esta,não aceitamos lei alguma. Nossas veleidades devem prevalecer, pois somos ossenhores da razão. Somente nós sabemos o que é justiça. Somos, portanto,absolutamente livres para dizer o que é o direito.
Este seria, hipotética eexageradamente, o discurso de um "jurista dadá". O juiz, então, julgaria conformesua própria vontade, ou melhor, seu arbítrio, jogando no lixo qualquerpossibilidade de solução racional e minimamente objetiva.
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