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A Efetivação Judicial do Direito à Saúde: decisão comentada
Por George Marmelstein Lima, mestrando e Juiz Federal Substituto
SUMÁRIO
: 1. Introdução; 2. A falta de UTIs em Fortaleza no início de 2003; 3. AAção Civil Pública; 4. Comentários à decisão; 5. A Decisão.
PALAVRAS-CHAVE
: Direito Fundamental
 – 
Direitos Sociais
 – 
Direito à Saúde
 – 
 Ação Civil Pública
 – 
Efetividade
 – 
Limites e Possibilidades de Atuação Judicial.
1. Introdução
Comecei a estudar a fundo os direitos fundamentais em 1998. Naquele ano
 – 
recorde-se
 – 
comemoravam-se os dez anos da Constituição brasileira de 1988 e ocinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948.Em homenagem à data, o Tribunal de Justiça do Ceará lançou um concursode monografias cujo tema seria o Poder Judiciário e os Direitos Humanos. Minhaintenção inicial era participar do referido concurso na categoria estudante, já que euainda estava no sexto semestre da Faculdade de Direito da Universidade Federal doCeará.Não cheguei a apresentar a monografia, mas, em 2001, já formado eparticipando de concursos públicos, resolvi publicar meus escritos sobre o tema sob aforma de livro, cuja tiragem foi de pouco mais de cem exemplares. O livro foi intitulado
“Os Direitos Fundamentais e o Poder Judiciário: e
lementos para a concretização dos
direitos fundamentais pelo Poder Judiciário” e encontra
-se disponível na minha páginapessoal na Internet(www.georgemlima.hpg.com.br).Pouco tempo depois, também resolvi publicar outros escritos, maisprofundos que o primeiro, que foi
intitulado “O Direito Fundamental à Ação: o
direitode ação, o acesso à justiça e a inafastabilidade do controle jurisdicional à luz de umaadequada e atualizada teoria constitucional dos dir
eitos fundamentais”, cuja temática,
como o próprio nome sugere, era bastante influenciada pela chamada teoria jurídica dosdireitos fundamentais. Referido livro também encontra-se disponível
on-line
na mesmapágina.
 
O interesse pelos direitos fundamentais não se limitou à vida acadêmica.Ainda como estagiário da 2ª Vara da Fazenda Pública (1998), tive a oportunidade deauxiliar o juiz titular daquela Vara (Dr. Francisco Chagas Barreto Alves) a elaborar umadecisão favorável a uma mulher, portadora do HIV, que pedia que o Estado do Cearácusteasse seu tratamento.Como Procurador do Estado de Alagoas (2000), acompanhei um mandadode segurança em que um rico advogado requeria que o SUS (Sistema Único de Saúde)pagasse seu transplante de pâncreas, no melhor hospital do país (Albert Einstein
 – 
SP),devendo, inclusive, o poder público pagar a sua hospedagem e transporte, bem como deum acompanhante. Esse caso, apesar de eu não ter atuado diretamente, foi fundamentalpara a construção do meu pensamento sobre o direito à saúde. A partir daí, percebi quedeveria haver limites à concretização judicial de direitos fundamentais.Pois bem. Já em 2002, como juiz federal, uma oportunidade ímpar bateu-me às portas: a de participar de um curso de especialização em direito sanitário pelaUniversidade de Brasília (UnB) em parceria com a FIOCRUZ. O curso proporcionou-me conhecer mais profundamente o Sistema Único de Saúde e fez-me escrever uma
monografia cujo tema foi precisamente “A Efetivação do Direito Fundamental à Saúde
pelo
Poder Judiciário”.
Na defesa da monografia, em Brasília, todos gostaram dasminhas teses e sugeriram que eu aprofundasse ainda mais o estudo da matéria, poispraticamente nada existia sobre o assunto na literatura nacional.Coincidentemente, iniciei o mestrado em 2003 e minha pretensão édesenvolver a dissertação sobre o mesmo tema (direito fundamental à saúde), dando umenfoque mais abrangente e mais aprofundado em relação ao que escrevi naespecialização.Em abril de 2003, atuando como juiz federal, ao apreciar um pedido doMinistério Público Federal em uma ação civil pública, tive a oportunidade de colocarem prática várias idéias que desenvolvi no curso de especialização.Antes de comentar a decisão, é preciso situar historicamente o problema.
2. A falta de UTIs em Fortaleza no início de 2003
A chuva, em Fortaleza, geralmente é mais intensa no início do ano. Com achuva, aumenta-se a demanda por leitos hospitalares em decorrência do incremento donúmero de casos de doenças como a dengue.
 
No início de 2003, a demanda por leitos hospitalares aumentouenormemente. A fila nos hospitais públicos não parava de crescer. A cada dia,aumentava-se o número de mortes pela falta de leitos de UTI (Unidade de TratamentoIntensivo) em hospitais públicos.Os leitos dos hospitais particulares conveniados ao SUS tambémesgotavam-se rapidamente. Houve boatos de que estava ocorrendo boicote desseshospitais no intuito de corrigir o valor da tabela do SUS que estava bastante defasado,mas isso não foi comprovado. Também havia sérios indícios de que o problema não eraapenas falta de leitos, mas uma série de outros problemas que não convém mencionar, jáque não interessa para o entendimento da decisão.
3. A Ação Civil Pública
O certo é que todo dia morriam mais pessoas à espera de leitos de UTI e,em razão disso, o Ministério Público Federal ingressou com uma ação civil pública,com pedido de liminar, requerendo que o Município de Fortaleza, o Estado do Ceará e aUnião providenciassem o internamento das pessoas que estavam na fila da UTI emhospitais particulares, mesmo não conveniados ao SUS.O pedido de liminar foi apreciado, em caráter de urgência, pelo JuizFederal Plantonista, Dr. João Luís Nogueira Matias, que deferiu a medida,determinando que o Poder Público, em suas três esferas (municipal, estadual e federal),providenciasse a transferência de todos os pacientes que se encontrem ou venham a seencontrar necessitando de atendimento em Unidades de Tratamento Intensivo
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UTI,para Hospitais públicos ou particulares detentores de tais unidades de tratamento quedeverão ser contratados para esse fim. Foi aplicada a multa de R$ 10.000,00 por dia dedescumprimento da decisão.Dois dias depois, o Ministério Público Federal ingressou com um pedidopara que o valor da multa fosse aumentado, pois nada estava sendo feito para que adecisão fosse cumprida. Foram anexadas notícias de jornais em que o Governador doEstado alegava que era impossível cumprir a liminar, pois não havia verba disponível.Naquela ocasião, eu apenas acompanhava o processo pelos jornais. Meuinteresse no caso era meramente acadêmico e como cidadão. O processo tramitava na 3ªVara e, portanto, dificilmente eu nele atuaria. Ocorre que a Dra. Germana de Oliveira
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