O Reforço das Lideranças nas Escolas
A escola portuguesa encontra-
se numa fase de profundas alterações,
que irão condicionar a sua actuação nos próximos anos. Um dos ele-mentos legislativos que está na base dessas alterações é o Decreto-Lein.º 75/2008, de 22 de Abril. Fazendo uma análise genérica do docu-mento podemos identificar que está organizado em função de trêsobjectivos bem definidos: 1.
«Reforçar a participação das famílias ecomunidades na direcção estratégica dos estabelecimentos de ensino»;
2. «Reforçar a liderança das escolas» e 3. Reforçar a «autonomia das
escolas» (preâmbulo do Decreto-Lei n.º 75/2008).
No passado dia 18 de Maio, o Conselho Geral do Agrupamento Vertical de Murça (AVM)procedeu à eleição do seu director, aspecto decorrente do segundo objectivo definido nalei. A figura do novo director apresenta diferenças marcantes em relação ao cargo dePresidente do Conselho Executivo. Enquanto que este chefiava uma equipa, o director éum órgão unipessoal coadjuvado por um pequeno número de adjuntos. De notar que, oConselho Geral, não elegeu uma equipa, mas sim uma pessoa para dirigir o AVM nos pró-ximos quatro anos. Salienta-se também o facto de no acto eleitoral não poder participarum universo mais alargado, como acontecia anteriormente. O Conselho Geral, é umórgão com vinte e um elementos, sendo a ele que cabe a tarefa de analisar os projectosde intervenção, os
curricula
e as entrevistas de cada um dos candidatos ao cargo de
director (n.º 3, do artigo 7.º da Portaria n.º 604/2008, de 9 de Julho).Os poderes do director são mais vastos que a figura que ele vem substituir, salientando-se o poder de nomeação dos coordenadores de departamento curricular, principaisestruturas de coordenação e supervisão pedagógica, que responderão pela execução daslinhas de orientação definidas pelo director. Num debate promovido no AVM, no início de
2008, defendi que me parecia que se exagerava nas atribuições previstas para o cargo de
director. Hoje mantenho essa opinião, todavia, no espírito de quem legislou prevaleceu anecessidade de
“criar condições para que se afirmem boas lideranças e lideranças fortes,
para que em cada escola exista um rosto, um primeiro responsável, dotado da autoridade necessária para desenvolver o Projecto Educativo e executar localmente as medidas de polí-tica educativa
‖ (
preâmbulo do Decreto-Lei n.º 75/2008).
Uma coisa é o que a lei prevê, outras poderão ser as práticas que se virão a instituir.Quem faz a escola é todo um conjunto de partes interessadas, que vão desde os alunos,aos professores, aos pais e encarregados de educação, aos funcionários e à restantecomunidade educativa. O director pode desempenhar um papel importante neste novoregime de autonomia e gestão dos estabelecimentos de ensino, no entanto, precisará docontributo de todos para que se possa atingir o verdadeiro desígnio do sistema educativoque consiste em
“dotar todos e cada um dos cidadãos das competências e conhecimentos
que lhes permitam explorar plenamente as suas capacidades, integrar-se activamente na
sociedade e dar um contributo para a vida económica, social e cultural do País”
(
preâmbulodo Decreto-Lei n.º 75/2008).
Votos de um bom trabalho para o director eleito, que possa contribuir decisivamente,com o contributo de todos, para a melhoria do AVM.
Humberto Óscar Parreira Nascimento
Conversa com o Director do Agrupamento
CJ- Que perfil tem o novo director da nossaescola?D-
Perfil humanista, dialogante e, espero,mobilizador do melhor de cada um para ocolocar ao serviço de todos, ao serviço donosso agrupamento.
CJ- Para ser director tem que deixar deleccionar?D-
É uma decisão que terei de tomar. A leipermite-me leccionar uma turma. A complexi-dade do cargo, no entanto, exige muito tempoe energias. Como não quero prejudicar osalunos, receio ter de optar pela não docência.
CJ- O que valoriza no seu projecto?D-
O meu projecto valoriza os professores, osalunos, a autoridade e o respeito na relaçãopedagógica, a componente desportiva e a abertura do agrupamento às realidades culturais, cien-
tífica, universitárias…
CJ- Mudanças, quais?D-
Reduzir a burocracia, responsabilizar directamente cada actor (professor, aluno, pai…), agili-
zar processos e procedimentos, aumentar a componente desportiva, criar eventos de aproxima-ção entre os membros da comunidade educativa, envolver os alunos mais velhos no acompanha-
mento dos mais novos…
CJ- O que mais teme neste desafio?D-
Que o diálogo esmoreça e que a solidariedade e capacidade de entrega a uma causa comumdeixe de envolver todas as nossas competências. Cada um de nós terá de estar profundamente vinculado a uma realidade de pertença (agrupamento).
CJ- Que lugar consagrará ao nosso jornal quando assumir o cargo de director?D-
Vejo o jornal ―O Berrão‖ como o veículo necessário para transmitir a nossa realidade, ligando
-a ao concelho. Isto só será possível reforçando a sua tiragem e trazendo até si, artigos e preocu-pações da própria comunidade.
CJ- O que fará pelos nossos professores?D-
Tudo o que puder. Como? Motivando-os, ouvindo-os, trabalhando ao seu lado, responsabili-zando-os e fazendo-os sentir imprescindíveis neste processo sempre em construção que é o ensi-no e a educação.
CJ- E para os nossos alunos?D-
Os alunos precisam de gostar da escola, de a sentir sua. É importante criar espaços de conví- vio, dentro de fora das salas, dinamizados pelos próprios alunos. Tudo isto com plena assunçãode regras de respeito mútuo. Por outro lado, e isto é muito importante, a escola deve existir paratodos, bons e maus alunos, sem qualquer prejuízo mútuo. Não vou admitir que alunos mal com-portados condicionem e prejudiquem efectivamente os alunos que querem trabalhar e têm objec-tivos a alcançar. Não podemos continuar a ser permissivos com alunos que já tiveram todas asoportunidades e receberam todo o apoio e que rejeitam qualquer mudança no seu comportamen-to.
CJ- Qual é a sua visão acerca desta reforma do ensino?D-
Sou muito crítico. Há mexidas a mais, intempestivas algumas, incoerentes outras, pouco articu-ladas quase todas. A necessidade de mostrar serviço, construiu alicerces frágeis, estruturas inse-guras. Na educação as alterações devem ser poucas, lentas e envolver quem sabe da obra, ouseja, os professores. Como seria construir uma casa desprezando o saber dos engenheiros? Oufazer uma intervenção cirúrgica expulsando os médicos do bloco operatório? É isto o que temsido feito aos professores.
CJ- O que pensa dos professores do Agrupamento, que chefiará em breve?D-
Para mim são os melhores. É com eles que conto. Temos de potenciar as suas capacidades,diminuir as suas fragilidades. O ser humano é sempre passível de melhoria. Não devemos desis-
tir dos nossos sonhos e de prosseguir o ideal de perfeição. ―Que homem é aquele que não contri-bui para melhorar o mundo em que vive?‖
-
frase do filme ―O Reino dos Céus‖
- que tivemos opor-tunidade de ver no Ciclo de Cinema.
CJ- A juventude está perdida?D-
Nunca esteve, não está e nunca estará. A juventude é um conceito generalista. Há jovens res-ponsáveis e outros que o são menos. Sempre foi assim. Uma coisa para mim é certa: não se cons-trói o futuro sem os jovens e o futuro será o resultado da acção dos jovens. Deitemo-nos pois aotrabalho que o tempo urge e há tanto a fazer!
CJ- Porque é que acha que o ensino caiu em descrédito?D-
Há política a mais no ensino. Há alterações a mais. Ouve-se pouco quem está no terreno. Oensino está, por vezes, à mercê de teóricos, homens e mulheres que não dão aulas há muito tem-po e só conhecem os alunos através de filtros e preconceitos recuados os vanguardistas. Ensinaré uma obra de paciência, de vitórias e de derrotas. Queremos, com frequência, esconder as der-rotas e não cuidamos suficientemente das vitórias. Parece que todos os problemas do país têm deser resolvidos pela escola e na escola! Estranho, não acham?
CJ- É professor de História e ficará na História deste Agrupamento. O que pretende que seeternize?D-
Gostaria que se eternizassem a felicidade, a solidariedade, a partilha, a responsabilidade e,especialmente, a memória. Hoje, não temos memória da memória. Quem não tem memória vive àderiva, correndo o risco de ser fantoche de vontades alheias.
CJ- Que valores é que mais preza?
D- Trabalho, honra, dignidade, integridade, honestidade. Há mais; no fundo, todos os valores queagigantam a nossa humanidade e a vontade de partilhar o futuro.
CJ- Indique-nos aquilo de que nunca prescinde.D-
A luta pela verdade, pela dignidade, a defesa dos mais fracos, a defesa de todos os valoresque indiquei e da matriz espiritual e cultural da vida humana, hoje tão pouco respeitada e valori-zada. Somos muito mais do que aquilo que temos e do que compramos. Reparem: somos!
CJ- Sabemos que reside em Mirandela mas que já trabalha cá há muitos anos. Que signifi-cado tem Murça para si?D-
Gosto de Murça. Sou um privilegiado pois sinto-me em casa nos dois lugares. As pessoas destaterra sempre me trataram muito bem. Gosto também delas. Qualquer obra que eu possa fazeraqui é uma obra feita em casa.
CJ- O que é que o motivou a candidatar-se a este cargo?D-
A vontade de servir e de contribuir para o crescimento deste agrupamento. Já o fiz noutras ediversas funções, agora chegou a altura de ser com Director.
CJ- Como lida com o poder?D-
Com respeito e com desconfiança. Com respeito porque o poder é essencial na orgânica dasnossas sociedades, com desconfiança porque não quero ser dominado por ele. Não quero esque-cer nunca que ao meu lado, repito, ao meu lado, estão pessoas que comigo lutam para melhorar onosso agrupamento.
CJ- Sabendo que o seu cargo acarretará uma responsabilidade acrescida, qual é a posiçãoda sua família face a esta nova realidade?D-
Não me teria candidatado a esta nova função se não tivesse o apoio da minha família. Em todosos momentos da minha vida sempre o tive. Há uma profunda solidariedade entre nós. Falamosabertamente de tudo e as decisões são tomadas em grupo.
CJ-
A História ―passou à história‖?
D-
A História pode reflectir sobre ela própria mas isso não é uma forma de se ultrapassar. Nãopodemos e não devemos fugir da História. Anular o passado é impossível e não é convenientefechar os olhos às realizações humanas, no que tiveram de positivo ou de negativo. Não quereraprender, achar que o futuro é algo de inteiramente novo, surgido do vazio ou do nada, é umaatitude pouco fundamentada. A História ensina-nos a ter cuidado com povos ou sociedades semmemória. Não cultivar a memória, não respeitar o esforço/ trabalho de todos os que viveramantes de nós, é malbaratar uma herança que altruisticamente nos foi doada, é sentirmo-nos Deu-ses quando, na realidade, nem homens pequenos somos.
CJ
O BERRÃO PÁGINA 3 EDIÇÃO 3 - JUNHO 2009
O Desafio da Cidadania
Confrontado com o desafio colocado pela Associação de Estudantesdo Agrupamento de Escolas de Murça, para escrever um pequenoartigo sobre o Conselho Geral Transitório e a minha experiência,enquanto presidente desse órgão, não deixei de pensar o quanto asgerações se têm alterado, e como os nossos jovens, se ouvidos eincentivados, se deixam fascinar pela cidadania e pelas questões daspolíticas públicas.O acto de fazer parte de um órgão com a importância do ConselhoGeral na escola actual é não só um direito, mas sobretudo um deverque toda a comunidade deve considerar como um valor inigualável. A escola ocupa hoje um lugar na sociedade que não pode ser des-considerado. A protecção de valores que induzam o caminho da transparência e da since-ridade, é cada vez mais um património que as comunidades devem almejar, visando oreforço de uma matriz cultural assente em princípios humanistas que devem alimentar eorientar as sociedades democráticas modernas. Neste contexto, a escola assume umpapel extremamente relevante, que através dos seus órgãos traçam estratégias e orienta-ções que podem fazer toda a diferença na comunidade.O Conselho Geral é por excelência o órgão de administração e gestão, com atribuiçõesestratégicas, responsável pela definição das linhas orientadoras da actividade do agrupa-mento, assegurando a participação e representação da comunidade. Trata-se de umórgão que deve desenvolver uma actividade crítica, constante, no sentido de percebertoda a envolvência, com a aspiração de ser motor na introdução de processos e dinâmicasalternativas e inovadoras, que puxem pelos vários pólos que compõem o nosso tecidosocial. O interior não pode obviamente ser esquecido. A participação dos alunos nesteprocesso é por demais importante. O incremento do orçamento participativo, o planoanual e plurianual de actividades são dois documentos que podem incutir um sentido depertença e de responsabilidade para a cidadania, que importa considerar. A minha experiência como Presidente do Conselho Geral Transitório sintetizo -a, dizen-do que, enriqueceu o meu ser. Destaco acima de tudo, a forma aberta e clara de cada umdos membros que dele fizeram parte: pelo sentido e empenho como agarraram o desafioe pelo facto de terem acreditado num pai para dirigir o órgão, rompendo com algo que hámuito pouco tempo era impensável. Dando um sinal de que as realidades são mutáveis, eque podem transformar-se numa arma contra o comodismo e o desinteresse. No entanto,é também com base em experiências como estas que cada um de nós cresce, aprende eacima de tudo respeita e agarra aquilo que dá significado à nossa existência.
Mário Sampaio
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