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L'OSSERVATORE ROMANO
EDIÇÃO SEMANAL
Unicuique suum
EM PORTUGUÊS
Non praevalebunt
Ano
XL
, número 31 (2.067), sábado 1 de Agosto de 2009 Cidade do Vaticano Preço
;
1,00. Número atrasado
;
2,00
No Angelus em Les Combes, o Papa recorda a missão de salvação confiada aos sacerdotes
Os avós, depositários e testemunhasdos valores fundamentais da vida
que me concedeu a alegria destes diasmarcados por um verdadeiro repouso – apesar do pequeno acidente que vósbem conheceis, e também vivel.Aproveito o ensejo para agradecer comcarinho àqueles que se preocuparamem estar ao meu lado com discrição ecom grande dedicação. Saúdo o Car-deal Poletto e os Bispos presentes, emparticular o Bispo de Aosta, D. Giu-seppe Anfossi, a quem agradeço as pa-lavras que me dirigiu. Saúdo cordial-mente o Pároco de Les Combes, asAutoridades civis e militares, as For-ças da ordem e todos vós, queridosamigos, assim como aqueles que es-tão unidos a nós mediante a rádio e atelevisão.Hoje, neste domingo maravilhoso,onde o Senhor nos mostra toda a bele-za da sua criação, a liturgia prevê co-mo página evangélica o início do capí-tulo 6 de João, que contém primeiro omilagre dos pães – quando Jesus deude comer a milhares de pessoas comapenas cinco pães e dois peixes; depois,o outro prodígio do Senhor que cami-nha sobre as águas do lago em tempes-tade; e enfim o discurso em que Ele serevela como «o pão da vida». Narran-do o «sinal» dos pães, o Evangelistasublinha que Cristo, antes de os distri-buir, abençoou-os com uma prece deacção de graças (cf. v. 11). O verbogrego é
eucharistein
e remete directa-mente para a narrão da ÚltimaCeia em que, com efeito, João nãomenciona a instituição da Eucaristia,mas sim o lava-pés. Aqui, a Eucaristiaé como que antecipada no grande si-nal do pão da vida. Neste Ano sacer-dotal, como deixar de recordar que es-pecialmente nós, sacerdotes, podemosreflectir-nos neste texto joanino, identi-ficando-nos nos Apóstolos, quando di-zem: onde poderemos encontrar o pãopara toda esta multidão? E ao lermossobre aquele jovem anónimo que dis-põe de cinco pães de centeio e doispeixes, também nós dizemos esponta-neamente: mas o que é isto para tama-nha multidão? Com outras palavras: oque sou eu? Como posso, com os meusmento. Confio à salvaguarda de SantaAna e de São Joaquim todos os avósdo mundo, concedendo-lhes uma bên-ção especial. A Virgem Maria, que – segundo uma bonita iconografia – aprendeu a ler as Sagradas Escriturasno colo da mãe Ana, os ajude a ali-mentar sempre a fé e a esperança nasfontes da Palavra de Deus.
Aborto e futuro
A crisedo dom
L
UCETTA
S
CARAFFIA
D
uas notícias recentes – a pro-messa de Obama de empe-nhar-se pela redução do nú-mero de abortos nos Estados Unidose a aprovação pela grande maioriana Câmara dos deputados da Itáliade uma moção a ser apresentada àAssembleia Geral das Nações Unidascontra o aborto como instrumentode controle demográfico parecemindicar que está a terminar uma fasehistórica, iniciada nos anos 70,quando se difundiu a opinião de queo aborto devia ser garantido comodireito de liberdade das mulheres e,portanto, considerado uma possibili-dade positiva no exercício de um di-reito individual.Como eco desta convicção – con-firmada devido à propaganda ideoló-gica radical e feminista o abortodifundiu-se como meio de controledos nascimentos nos países do Ter-ceiro Mundo, inclusive por intermé-dio das agências internacionais, e foipropagado como instrumento paragarantir a liberdade das mulheres,até quando era imposto pelo Estado.Hoje, a crise demográfica e as vozesde protestoque se levantaram, sobre-tudo por parte da Igreja católica – que sempre lutou para que nas con-ferências mundiais o aborto não fosseconsiderado oficialmente um métodode contracepção e um sinal de liber-tação das mulheres – estão a suscitaruma reflexão sobre a questão, quetambém envolve o feminismo.De resto, já é evidente que não serealizou o que se divulgava comoum bom motivo para apoiar a lega-lização do aborto, ou seja, a garan-tia de que deste modo o recurso àinterrupção da gravidez diminuiriaaté ao seu desaparecimento, inclusivegraças à difusão sem impedimentosdos anticoncepcionais. Não osabortos continuaram a ser pratica-
C
ONTINUA NA PÁGINA
2
N
ESTE NÚMERO
Página 2:
Intervenção da Santa sobre a pobreza e a falta de saúde.
Página 3:
Homilia do Papa na cele-bração das Vésperas, na Catedral deAosta.
Página 4:
Considerações de G. Valli-ni a respeito da obra «Human smo-ke», de Nicholson Baker.
Página 5:
Interpretações e mal-en-tendidos da última encíclica, segun-do G. Crepaldi.
Páginas 6-8:
A «Caritas in veritate»no discurso do Cardeal Bertone, noSenado da República Italiana.
Página 9:
Relatório do Cardeal Staf-ford sobre a figura do Cura d'Ars.
Página 10:
Conclusão dos trabalhosda
XIII
Assembleia Geral da
KEK
.
Página 11:
As Comunidades Eclesiaisde Base no Brasil.
Após duas semanas passadas no Vale de Aosta
Bento
XVI
em Castel Gandolfo
«Acabei de voltar da montanha. Nãoobstante o meu pequeno acidente, fo-ram dias lindos. Mas agora sinto-mefeliz por estar em Castel Gandolfo,nesta bonita cidade, e espero passarconvosco algumas semanas», disse oPapa na tarde de quarta-feira 29 de Julho ao chegar à residência de Ve-rão à margem do lago de Albano,proveniente do aeroporto de Roma-Ciampino, onde foi recebido por di-versas autoridades religiosas e civis,depois de ter transcorrido 16 dias noVale de Aosta. Sucessivamente, o Pa-pa foi acolhido na residência pelosCardeais Bertone, Secretário de Esta-do; Lajolo, Presidente do Governato-rato; e Vallini, Vigário-Geral para aDiocese de Roma; por D. Viganò,Secretário-Geral do Governatorato;D. Semeraro, Bispo de Albano; D.Corbellini, Presidente do Departa-mento do Trabalho; o Pároco e oPresidente da Câmara Municipal deCastel Gandolfo; os Directores dasVilas pontifícias e do Observatóriodo Vaticano. O Papa cumprimentou-os e depois apareceu à janela do Pa-lácio pontifício para abençoar os fiéisreunidos na praça adjacente.limites, ajudar Jesus na suamissão? É o Senhor que dáa resposta: precisamentecolocando nas suas mãos«santas e veneveis» opouco que eles são, os sa-cerdotes, nós sacerdotestornamo-nos instrumentosde salvação para muitos,para todos!Uma segunda indicaçãode reflexão vem-me da ho-dierna memória dos Santos Joaquim e Ana, pais deNossa Senhora e, portanto,avós de Jesus. Esta cele-bração faz pensar no temada educação, que ocupaum lugar importante napastoral da Igreja. Emparticular, convida-nos arezar pelos avós, que nafamília são os depositáriose muitas vezes as testemu-nhas dos valores funda-mentais da vida. A tarefaeducativa dos avós é sem-pre muito importante, etorna-se ainda mais quan-do, por diversos motivos,os pais não são capazes deassegurar uma presençaadequada ao lado dos fi-lhos, na idade do cresci-
O Papa confirmou a suaintenção de ir na próximaPrimavera a Turim, por ocasião do ostensão do SantoSudário, assegurando-o aoCardeal Severino Poletto,Arcebispo dessa Sedeitaliana, com quem almoçouno domingo 26 de Julho emLes Combes, depois doencontro com os fiéis que sereuniram numerosos para aoração do
Angelus
ao redor do chalé onde o Santo Padretranscorria as suas férias.Mais de cinco mil pessoas participaram no encontroque teve sabor de despedida,dado que no dia 29 Bento
XVI 
se transferiu para asua residência de Verão emCastel Gandolfo.
Prezados irmãos e irmãsBom domingo a todosvós! Encontramo-nos aquiem Les Combes, na aco-lhedora casa que os Sale-sianos põem à disposiçãodo Papa, onde estou a ter-minar o período de des-canso no meio das bonitasmontanhas do Vale deAosta. Estou grato a Deus
 
A crise do dom
Lucetta Scaraffia
Duas notícias recentes a promessa de Obama de empenhar-se pela redução do númerode abortos nos Estados Unidos e a aprovação pela grande maioria na Câmara dosdeputados da Itália de uma moção a ser apresentada à Assembleia Geral das NaçõesUnidas contra o aborto como instrumento de controlo demográfico parecem indicar queestá a terminar uma fase histórica, iniciada nos anos 70, quando se difundiu a opinião deque o aborto devia ser garantido como direito de liberdade das mulheres e, portanto,considerado uma possibilidade positiva no exercício de um direito individual.Como eco desta convicção confirmada devido à propaganda ideológica radical efeminista o aborto difundiu-se como meio de controle dos nascimentos nos países doTerceiro Mundo, inclusive por intermédio das agências internacionais, e foi propagadocomo instrumento para garantir a liberdade das mulheres, até quando era imposto peloEstado. Hoje, a crise demográfica e as vozes de protesto que se levantaram, sobretudopor parte da Igreja católica que sempre lutou para que nas conferências mundiais oaborto não fosse considerado oficialmente um método de contracepção e um sinal delibertação das mulheres estão a suscitar uma reflexão sobre a questão, que tambémenvolve o feminismo.De resto, já é evidente que não se realizou o que se divulgava como um bom motivopara apoiar a legalização do aborto, ou seja, a garantia de que deste modo o recurso àinterrupção da gravidez diminuiria até ao seu desaparecimento, inclusive graças àdifusão sem impedimentos dos anticoncepcionais. Não só os abortos continuaram a serpraticados, também nos países onde a informação sobre os anticoncepcionais é vasta,mas o fenómeno envolve faixas etárias cada vez mais baixas.Por que as nossas sociedades não conseguem debelar este mal? Este seria o momentoadequado para formular tal pergunta e procurar respostas convincentes e nãoideológicas. A este propósito, podemos encontrar uma ajuda para entender tudo isto nolivro do psicanalista Claudio Risé (
 La crisi del dono. La nascita e il no alla vita,
Cinisello Balsamo, San Paolo, 2009, 160 páginas), segundo o qual "o aborto não nascesó da malvadez ou distracção individual, ou do oportunismo de grupos políticosinconscientes ou irresponsáveis. O aborto afirma o autor afunda as suas raízes numterreno psicológico, cognitivo e afectivo muito maior e é alimentado pela maiortentação regressiva, desde sempre presente na psique humana: a de matar o novo, odesenvolvimento, a mudança, quando começa a tomar forma. Antes que nasça e teobrigue a mudar com ele".Com um longo percurso, que inicia nos mitos da época greco-romana para chegar àtradição judaico-cristã, o autor redescobre o significado do nascimento nas tradiçõesreligiosas, isto é, renovação e renascimento, ao qual frequentemente se opõe o medo:"Matar o nascente, parar o tempo, naturalmente é também um modo de pensarinconscientemente em vencer a nossa morte, detendo o tempo no qual ela está inserida".
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