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Michael EndeO ESPELHO NO ESPELHOUM LABIRINTO(1984)Tradução: Reinaldo GuaranyO AUTORMichael Ende, nascido em 1929, filho do pintor surrealista Edgar Ende, vive desde 1971 com suamulher, a atriz Ingeborg Hoffmann, no campo ao sul de Roma. Seus livros mais importantes são Momo(1973) e A História Sem Fim (1979) – ambos já publicados no Brasil – Jim Knopf (1960), Gauklarmarchen(1982) e Phantasie/ Kultur/Politik (1982). Seus livros foram traduzidos para mais de 25 idiomas, alcançandouma tiragem de mais de 4 milhões de exemplares. Michael Ende obteve vários prêmios literários na Alemanhae em outros países.Ao meu pai,Edgar EndePERDOE-ME, EU NÃO POSSO FALAR MAIS ALTO.Eu não sei quando você vai me ouvir, você, a quem me dirijo.E será que você vai me ouvir?Meu nome é Hor.Eu lhe rogo, coloque seu ouvido perto da minha boca, por mais longe que você esteja de mim, agora ouem qualquer momento. Caso contrário, não conseguirei me fazer entender por você. E mesmo que vocêconsinta em atender meu pedido, ainda assim muitas coisas não serão ditas, e você as ter de completar por suaconta. Precisa da sua voz, sempre que a minha ficar presa na garganta.Essa fraqueza pode ser explicada talvez pela maneira como Hor mora. Na verdade, até o ponto em queele consegue recordar-se do passado, Hor reside em um gigantesco prédio completamente vazio, no qualqualquer palavra pronunciada em voz alta provoca um eco sem fim.Até o ponto em que consigo me recordar do passado. Que quer dizer isso?
 
Às vezes, em suas perambulações diárias através das salas e corredores, Hor ainda se encontra com umaressonância errante de um grito qualquer que ele emitiu espontaneamente, sem pensar, tempos atrás. Para ele,e um grande tormento deparar-se com seu passado dessa maneira, sobretudo porque a palavra escapada deseus lábios perdeu forma e conteúdo nesse meio tempo, tornando-se irreconhecível. Agora, Hor já não emitemais esses balbucios idiotas.Ele se acostumou a usar sua voz – quando a usa – apenas abaixo do limite capaz de produzir um eco.Esse limite situa-se um pouco acima da voz normal, pois esta casa tem ouvidos incrivelmente apurados.Sei que estou pedindo demais, mas você terá até mesmo que prender a respiração, caso estejaempenhado em ouvir a palavra de Hor. Seus órgãos da fala desapareceram pelos seus muitos silêncios – elesse transformaram.Hor não poderá se dirigir a você com uma clareza maior, típica da voz que você escuta pouco antes deadormecer. E você terá que manter o equilíbrio na estreita fronteira entre o sono e a vigília – ou flutuar comoaqueles para quem em cima significa a mesma coisa que embaixo.Meu nome é Hor.Seria melhor dizer: eu me chamo de Hor. Pois, quem a não ser eu mesmo me chama pelo meu nome? Jádisse que a casa está vazia? Quero dizer, completamente vazia? Para dormir, Hor recolhe-se a um canto, ouentão se deita onde estiver, até mesmo no meio de uma sala, caso suas paredes estejam bem distantes.Hor não tem problemas com a alimentação. A substância da qual são feitas as paredes e colunas écomestível... bem. pelo menos para ele. Trata-se de uma massa amarelada e um pouco transparente, cujaingestão aplaca rapidamente a fome e a sede. Além disso, as necessidades de Hor a esse respeito são bempequenas.O passar do tempo não significa nada; ele não tem nenhuma possibilidade de medi-lo, a não ser obatimento de seu coração. Mas isso é bem diferente. Hor não conhece os dias e as noites, cerca-o umapenumbra sempre igual.Quando não está dormindo, ele fica vagando por aí, sem qualquer objetivo. Trate-se simplesmente deum impulso. de uma necessidade cuia satisfação lhe dá prazer. Nessa perambulação, raramente acontece deele chegar a um aposento que suponha reconhecer, que lhe pareça familiar, como se ele já estivesse estado aliuma vez, em tempos imemoriais. Por outro lado, com freqüência, alguns sinais indicam infalivelmente que ele já esteve alguma vez no lugar pelo qual está passando: um canto de parede mordido, por exemplo, ou ummonte de excrementos ressecados. Esse mesmo aposento, porém, é tão estranho para Hor como qualqueroutro. Talvez os aposentos se transformem na ausência de Hor; quem sabe, eles crescem, alongam-se ouencolhem? Quem sabe seja inclusive a passagem de Hor que provoca tais transformações? Ele, no entanto,não gosta de pensar nisso.Acho impossível que além de Hor more mais alguém na casa. Todavia, pela incrível extensão do prédio,não existe prova alguma a esse respeito. Assim, é tão impossível, quanto provável.Muitos quartos têm janelas, que por sua vez se abrem para outros aposentos, os quais sãofrequentemente maiores. Apesar de até o momento a experiência não lhe ter ensinado outra coisa, Hor é àsvezes levado a imaginar que um dia chegará a uma íntima parede exterior, cujas janelas proporcionarão avisão de algo total-mente diferente. Hor não é capaz de dizer o que seria essa coisa diferente, mas vez poroutra ele se abandona a longas considerações sobre isso. Seria fuso afirmar que ele anseia francamente poruma tal visão – trata-se apenas de uma espécie de jogo, de um imaginar em torno de uma gama depossibilidades, sem qualquer intenção prévia. Algumas vezes, é verdade, Hor desfrutou em seus sonhos dessasvisões, mas sem que delas tivesse conservado qualquer lembrança que pudesse ser recordada após despertar.Ele sabe apenas que um processo desse tipo foi vivenciado e que, na maioria das vezes, despertou banhado emlágrimas. Porém, Hor não entende o significado do sonho; ele o cita apenas por seu caráter curioso.
 
Eu me expressei mal. Hor nunca sonha e também não tem nenhuma recordação própria. Mesmo assim,toda sua existência é cheia de medos e delícias das vivências que assaltam sua alma de acordo com alembrança repentina.Todavia, nem sempre. Às vezes, sua alma permanece tranqüila durante um longo tempo, como umespelho d’água inerte; noutras ocasiões, essas vivências precipitam-se de todos os lados sobre ele, acossando-o, golpeando-o como relâmpagos, de tal modo que Hor corre pelos corredores vazios, cambaleando, até cairesgotado, deitando-se e capitulando – Hor é indefeso a essas vivências.De acordo com a lembrança repentina. Fui eu que disse isso?Eu me chamo Hor.Mas quem é esse: eu... Hor. Afinal, será que sou apenas um? Ou será que sou dois e tenho as vivênciasdesse segundo? Sou muitos? E todos os outros que sou eu vivem lá fora, do outro lado daquela última paredeexterior? E todos eles nada sabem sobre suas vivências, nem sobre suas recordações – então, elas não têmlugar neles que estão do lado de fora? Ah, mas elas permanecem com Hor, vivem a vida dele, assaltam-nosem nenhuma misericórdia. Elas confundem-se com ele que as arrasta atrás de si como uma cauda que deslizainfinita através das salas e quartos, sempre crescendo e crescendo.Ou será que existe algo entre eu e vocês aí fora – seja um ou sejam muitos –, algo que os torne unidos amim, como as abelhas à rainha? Vocês me sentem, membros de meu corpo espalhado? Escutam minhaspalavras inaudíveis, agora ou em qualquer momento? Porventura você procura por fim, meu outro? Por Hor,que é você mesmo? Por sua lembrança que está comigo? Por acaso nos aproximamos um do outro através dosaposentos infinitos, como estrelas, passo a passo, imagem por imagem?E será que um dia nos encontraremos, hoje ou em qualquer tempo?E o que seremos então? Ou não seremos mais? Ou será que nós iremos nos anular um ao outro, como oSim e o Não?Mas, uma coisa, então, você verá: eu conservei tudo fielmente.Meu nome é Hor.O FILHO SONHARA COM ASAS SOB A SÁBIA INSTRUÇÃO DE SEU PAI E MESTRE. Ele asformara no decorrer de muitos anos, pena por pena, músculo por músculo, articulação por articulação, naslongas horas do trabalho do sonho, até que elas foram assumindo cada vez mais sua forma. Ele fizera com queelas brotassem no lugar correto, em suas omoplatas (foi muito difícil para ele, distinguir em sonho as própriascostas de maneira exata) e, pouco a pouco, aprendera a movê-las convenientemente. Sua paciência passara poruma dura prova ao continuar com o exercício até que, após infinitas tentativas mal-sucedidas, ele esteve emcondições de, pela primeira vez, erguer-se no ar durante um curto lapso de tempo. Graças à cega amizade erigor com que seu pai o conduziu, ele ganhou então confiança em sua obra. Com o decorrer do tempo, eleacostumara-se tanto com suas asas que passou a vivenciá-las como parte de seu próprio corpo, de tal modoque chegava a sentir dor ou bem-estar nelas. Por fim, acabou por apagar da lembrança os anos que passarasem asas: era como se elas houvessem nascido com ele, como seus olhos ou mãos. Ele estava pronto.Não era proibido de maneira alguma sair do labirinto. Pelo contrário: aquele que conseguia, era vistocomo um herói, como um redimido, e durante muito tempo as pessoas contavam sua saga. No entanto, isso sóera permitido aos felizes. As leis às quais estavam sujeitos todos os habitantes do labirinto eram paradoxais,mas irrevogáveis. Uma das principais rezava que somente aquele que sair do labirinto poderá ser feliz,entretanto só poderá escapar dele quem for feliz.
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