Eu me expressei mal. Hor nunca sonha e também não tem nenhuma recordação própria. Mesmo assim,toda sua existência é cheia de medos e delícias das vivências que assaltam sua alma de acordo com alembrança repentina.Todavia, nem sempre. Às vezes, sua alma permanece tranqüila durante um longo tempo, como umespelho d’água inerte; noutras ocasiões, essas vivências precipitam-se de todos os lados sobre ele, acossando-o, golpeando-o como relâmpagos, de tal modo que Hor corre pelos corredores vazios, cambaleando, até cairesgotado, deitando-se e capitulando – Hor é indefeso a essas vivências.De acordo com a lembrança repentina. Fui eu que disse isso?Eu me chamo Hor.Mas quem é esse: eu... Hor. Afinal, será que sou apenas um? Ou será que sou dois e tenho as vivênciasdesse segundo? Sou muitos? E todos os outros que sou eu vivem lá fora, do outro lado daquela última paredeexterior? E todos eles nada sabem sobre suas vivências, nem sobre suas recordações – então, elas não têmlugar neles que estão do lado de fora? Ah, mas elas permanecem com Hor, vivem a vida dele, assaltam-nosem nenhuma misericórdia. Elas confundem-se com ele que as arrasta atrás de si como uma cauda que deslizainfinita através das salas e quartos, sempre crescendo e crescendo.Ou será que existe algo entre eu e vocês aí fora – seja um ou sejam muitos –, algo que os torne unidos amim, como as abelhas à rainha? Vocês me sentem, membros de meu corpo espalhado? Escutam minhaspalavras inaudíveis, agora ou em qualquer momento? Porventura você procura por fim, meu outro? Por Hor,que é você mesmo? Por sua lembrança que está comigo? Por acaso nos aproximamos um do outro através dosaposentos infinitos, como estrelas, passo a passo, imagem por imagem?E será que um dia nos encontraremos, hoje ou em qualquer tempo?E o que seremos então? Ou não seremos mais? Ou será que nós iremos nos anular um ao outro, como oSim e o Não?Mas, uma coisa, então, você verá: eu conservei tudo fielmente.Meu nome é Hor.O FILHO SONHARA COM ASAS SOB A SÁBIA INSTRUÇÃO DE SEU PAI E MESTRE. Ele asformara no decorrer de muitos anos, pena por pena, músculo por músculo, articulação por articulação, naslongas horas do trabalho do sonho, até que elas foram assumindo cada vez mais sua forma. Ele fizera com queelas brotassem no lugar correto, em suas omoplatas (foi muito difícil para ele, distinguir em sonho as própriascostas de maneira exata) e, pouco a pouco, aprendera a movê-las convenientemente. Sua paciência passara poruma dura prova ao continuar com o exercício até que, após infinitas tentativas mal-sucedidas, ele esteve emcondições de, pela primeira vez, erguer-se no ar durante um curto lapso de tempo. Graças à cega amizade erigor com que seu pai o conduziu, ele ganhou então confiança em sua obra. Com o decorrer do tempo, eleacostumara-se tanto com suas asas que passou a vivenciá-las como parte de seu próprio corpo, de tal modoque chegava a sentir dor ou bem-estar nelas. Por fim, acabou por apagar da lembrança os anos que passarasem asas: era como se elas houvessem nascido com ele, como seus olhos ou mãos. Ele estava pronto.Não era proibido de maneira alguma sair do labirinto. Pelo contrário: aquele que conseguia, era vistocomo um herói, como um redimido, e durante muito tempo as pessoas contavam sua saga. No entanto, isso sóera permitido aos felizes. As leis às quais estavam sujeitos todos os habitantes do labirinto eram paradoxais,mas irrevogáveis. Uma das principais rezava que somente aquele que sair do labirinto poderá ser feliz,entretanto só poderá escapar dele quem for feliz.
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