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WESKHEL
PoA. & R.
(desespero50@hotmail.com)
 Desert be thy grave
Thy life be mine to take or saveMine eye upon theeI taste thy deadth
 I am assassin
(
 Assassin
– Motörhead)1Sétimo Círculo do Inferno. O Bosque dos Suicidas. Na verdade, aquilo já era uma verdadeira floresta, com suas infinitas árvoresretorcidas e negras que eram almas condenadas. Os rostos visíveis nos troncos, expressando todo o seu sofrimento e angústia.Sempre revendo os últimos momentos de suas vidas, o tempo anterior ao instante em que decidiram se matar.Uma figura trajando um manto cinza escuro caminhava com passadas pesadas por entre as árvores. Um pouco mais a frente eleiria achar o motivo de sua “viagem” até lá. E sabia que não terminaria ali: voltaria para a Terra, para aquele mesmo lugar onde asdimensões estavam se cruzando e portais para o Inferno estavam sendo abertos. Isso estava deixando Weskhel irritado, muitoirritado. Tudo culpa dos malditos humanos e daqueles anjos estúpidos.Weskhel parou repentinamente entre duas árvores. Seus olhos, ocultos na escuridão do capuz do manto, percorreram as fei-ções de sofrimentos estampadas em ambos os troncos. Ele sorriu consigo e tirou o capuz. O cabelo longo, batendo um poucoabaixo dos ombros, se movimentou junto com a fria brisa que soprava no bosque, ficando ainda mais desgrenhado.A cicatriz em seu rosto - três linhas um pouco curvas de diferentes tamanhos na face esquerda abaixo do olho - ganhou umatonalidade avermelhada.- Desçam daí - disse ele erguendo vagarosamente a cabeça para cima.Seguiu-se o silêncio de antes.- Covardes igual aos humanos que os controlam - falou Weskhel e soltou uma baixa risada em seguida. - vão ter o mesmo fimque eles, posso prometer isso.Silêncio.- Hum... aposto que se perguntaram do que poderia valer a promessa de um demônio, não é? Ainda mais um Anjo Caído. Entendo...Mais silêncio que, por alguns instantes, foi quebrado pelo barulho produzido por uma harpia em algum lugar, provavelmentebicando as árvores.- Olha, vou me virar de costas, sim? - indagou Weskhel para o bosque deserto. - Vocês dois descem e atacam... se quiser euposso fingir que me surpreenderam.Weskhel soltou mais uma daquelas risadas baixa e fez o que disse: virou-se de costas, agora olhando para uma outra árvore. O rosto nestaárvore, diferente das outras, fitou Weskhel. Tinha os olhos arregalados e a boca eternamente aberta em um grito que já fora silenciado.- É novo aqui, não é? - perguntou ele para a árvore. - É... é sim. Se jogou de algum lugar, dá para perceber.
 
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Weskhel sorriu para a árvore, que limitou-se a manter aque-les olhos arregalados e a boca aberta. Porém, não mais fitavaaquela estranha figura parada a sua frente. Parecia estar olhan-do para outro lugar, para cima.- Ótimo - sussurrou ele.Houve um barulho dos galhos das árvores atrás de Weskhel.Logo duas criaturas caíram de seu topo, firmando as garras dospés - ou patas - naquele chão sujo do sangue das almas quefugiam e eram caçadas. Uma fuga em vão.As duas criaturas eram iguais. Tinham uma coloração verdemusgo, pouco menos de dois metros de altura e magras. Possu-íam garras vermelhas e enormes presas que saíam de uma bocaque ocupava quase que toda a porção inferior da cabeça. Baba-vam. A saliva de cor branca pingava sem parar.Os olhos prateados encontravam-se mortos. Estavam real-mente sendo controlados.Azar.Assim que uma das criaturas produziu um ruído e ameaçouinvestir com as garras da mão esquerda, Weskhel se virou reti-rando a espada longa de sob o manto.Metade do braço da criatura foi parar ao chão, decepadopela lâmina. Sangue de um vermelho muito escuro jorrou do lu-gar onde o pedaço havia sido arrancado, indo cair sobre umadas árvores e sobre o manto de Weskhel.Seguiu-se o grito da criatura, um som agudo.A outra criatura investiu também contra Weskhel. Primeirocom as garras do braço direito, em seguida com o esquerdo.O primeiro golpe apenas cortou o ar diante de Weskhel que deuum leve recuo para trás. O segundo também atingiu somente o ar,mas a criatura teve o braço seguro e a lâmina da espada passou pelametade da lateral esquerda do torso. Ela guinchou de dor.Uma grande torrente de sangue saiu do ferimento.Quando a criatura recuou, ouviu-se um ruído de algo sendorasgado. O braço inteiro daquele ser foi decepado, junto comum pedaço do ombro, ficando seguro na mão de Weskhel.Weskhel jogou o braço decepado para o lado e virou-se paraa primeira criatura que parecia não saber mais o que fazer. Esta-va cambaleante e emitia estranhos ruídos.- Prometi o mesmo fim, não foi? - perguntou Weskhel para acoisa que cambaleava diante de seus olhos. - Acho que minhaspromessas não valem mesmo muita coisa... fazer o que, não é?O de vocês vai ser rápido.Logo que ele acabou de falar, golpeou com a espada contrao pescoço da criatura. A cabeça voou para um lado, sangueespirrou em todas as direções e o corpo caiu sem vida no chão.Weskhel observou o corpo cair morto e guardou a espada devolta na bainha escondida sob o manto. Em seguida, virou-se paraa outra criatura que ainda estava caída sobre uma das pernas, imó-vel. Deveria ter morrido daquele jeito. Não deveria haver mais ne-nhum tipo de problema até o seu destino, foi o que pensou Weskhelvoltando a caminhar, passando ao lado da criatura imóvel.- Heh - fez ele.A criatura se ergueu e, com as últimas forças que lhe sobra-vam, investiu com o braço restante.Weskhel já esperava aquilo, podia ver de longe o movimento.Ele deu um pequeno passo para o lado, para poder se desvi-ar das garras e deu um giro completo em torno de si. Quando fezos 180 graus inicias, já estava com a sua kodachi na mão. Nosoutros finais, passou a lâmina no meio do corpo magro da cria-tura, dividindo-o em dois. Ela gritou de dor e atingiu o solo morta.A kodachi pingava de tanto sangue.- Pronto - falou Weskhel guardando a outra espada na outrabainha. Só mais um pouco agora.2Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O Nono Andar.Bianca estava sentada logo na terceira fileira, encostada na pa-rede onde, um pouco acima de sua cabeça, estava desenhadauma enorme folha de maconha. Aquilo trazia lembranças.Sobre a mesa estava um pequeno bolo de folhas xerocadas- as quais ainda não lera, fazendo com que entendesse menosainda o que estava acontecendo na aula. Mas estava poucoligando. No momento só se preocupava na batalha que estavaperdendo para o sono. Tinha dormido mal e, para piorar tudo,ainda tivera mais uma vez aquele pesadelo maluco.Em outra situação estaria se perguntando por que aquilohavia acontecido com ela. Mas agora, dúvidas e perguntas destanatureza só a fariam cair de cabeça sobre as folhas. Será que oprofessor iria se importar... muito?Ela passou os olhos cansados por sobre as folhas e, de-pois, pelo relógio no pulso. Os ponteiros marcavam a hora: 7:47.O dos segundos giravam lentamente, preguiçoso. Bianca àsvezes achava que ele retrocedia um segundo ou dois de vez emquando. E aquilo só piorava a situação. Até poderia sair da sala,beber uma água e circular pelo hall, mas suas pernas talvez nãogostassem da idéia.Bianca quase dormira logo após chegar na sala. Já passavadas sete e o professor ainda não havia chegado. Quando derasete e trinta e três e já estava se preparando para apoiar a cabeçasobre a mochila, ele apareceu na porta. Tinha no rosto estampadoseu sorriso característico, um pouquinho nervoso talvez.Para se manter desperta, rabiscava a folha e desenhava nosespaços em branco, que eram muitos - olhando a folha das ou-tras pessoas, viu que tinham anotações em todos os cantossobre o texto e ainda faziam algumas novas. Depois iria pediraquelas folhas emprestadas para anotar as observações. Masbem depois mesmo, sem dúvida.Bocejou e abaixou os olhos para a sua mão.O grafite da lapiseira tinha quebrado. Ela apertou para quesaísse mais, mas o pedaço que surgiu caiu sobre a folha e rolouvagarosamente pela mesa. “Mais essa”, pensou.Quando ergueu a mão, ainda segurando a lapiseira, viu o dese-nho na folha que fizera com que seu grafite quebrasse e terminas-se: era uma pequena paisagem montanhosa, na frente havia umlago e no céu pesadas nuvens negras. Havia ainda um rabisco nomeio desse lago, lembrava vagamente uma pessoa.O pesadelo daquela noite tinha começado com uma paisa-gem parecida com aquela. Depois fora para o habitual topo dealgum lugar alto e, lá embaixo, chamas e destruição. Já deveriater se acostumado com isso, pelo menos, era o que Bianca acha-va. Porém não conseguia já que sempre aparecia um detalhediferente que a fazia abrir os olhos no meio da noite, para mante-los assim até a hora de levantar.- Merda - sussurrou ela, esfregando os olhos com os dedos.Erguendo a cabeça, Bianca notou que o “cara do fichário”não estava na sala. Ela não fazia a menor idéia de qual períodoele era - não era do seu, isso sabia. Ele só aparecia naquela aula.Bianca também não sabia o nome dele, vendo-o apenas comoo “cara do fichário” por causa daquelas frases que tinha escritona capa. Já tinha conseguido ler todas, mas só se recordava deuma que dizia algo como “a pior coisa aconteceu comigo hoje,mas acho que não me importo mais”. Era interessante, pelo me-nos na sua opinião. As outras também eram interessantes, mes-mo não conseguindo lembrar delas.Bocejou mais uma vez. Esfregou os olhos. Deixou a cabeçacair um pouco para o lado, para a parede, encostando-a.
 
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“Sono...”, pensou.- Bia? - chamou uma voz, baixinho.- Hum? - fez Bianca, virando lentamente os olhos para o lado,na direção da voz.Era Carla, estava com o corpo projetado um pouco para frenteda cadeira. Passava os olhos pela amiga e pelo professor, ven-do que este continuava a falar e a escrever no quadro, tudo aomesmo tempo.- Você está bem? - indagou Carla.Bianca não falou nada, apenas moveu os lábios, construin-do a palavra “sono”. Carla sorriu e assentiu com a cabeça, vol-tando depois para sua posição inicial.Voltando os olhos para onde quer que eles estivesse fixos -na parede talvez? -, Bianca se lembrou do que tinha acontecidocom aquela outra Carla, na rampa que ligava o nono andar até odécimo. Tinha sido horrível, todo aquele sangue que chegara aescorrer até o chão do nono andar.Bianca se perguntava ás vezes como é que aquilo afetaraaquele “outro lado”.Ela voltou a baixar os olhos até o relógio, 7:55, ainda nãotinha passado nem mesmo dez minutos. Dez míseros minutos!O que eram dez minutos? Era pedir muito, por acaso?Seus olhos se arregalaram enquanto observava o relógio e, derepente, ignorou todo o sono que estava sentindo. Havia surgidoum outro ponteiro de segundos em seu relógio, e estava passan-do pelo 11 enquanto o outro - o original - estava no 3. “Ai... dro-ga”, pensou Bianca piscando os olhos algumas vezes.Em seguida, o ponteiro começou a se mover para o lado,ainda girava, mas estava se deslocando para
 fora
do relógio.Era como se ele estivesse flutuando no espaço, como se fossealguma figura sendo vista com aqueles óculos de 3-D.Aquilo só podia ser...O ponteiro finalmente parou no ar, a uns dez centímetros dobraço de Bianca. Logo começaram a surgir ali os outros doisponteiros. Eram sólidos, estavam realmente ali, pelo menos erao que parecia.Bianca continuou olhando para aqueles ponteiros flutuan-tes, até que os números do relógio apareceram, todos eles, do 1até o 12. Depois, foi o relógio em si, a armação redonda e prate-ada. Só faltava agora o...Um braço começou a se formar, era o braço de Bianca. Ela er-gueu a cabeça com um movimento brusco e viu que a sala tambémestava mudando. Outras mesas começaram a surgir misturadasàquelas que já estavam lá, parecia que uma parede estava para olado de fora da janela da sala. Estava acontecendo de novo.Quando Bianca olhou para a porta, viu que havia uma outraali, e estava aberta. Uma pessoa começou a adentrar a sala
atravessando
a porta fechada, a porta “original”.As dimensões estavam se misturando de novo. Iria pararlogo, Bianca tinha certeza disso. A única coisa que a deixavapreocupada era a proporção que aquilo havia tomado. Das ou-tras vezes tinham sido apenas objetos, e nada muito grande -com exceção talvez da vez na biblioteca. Mas agora havia umaparede surgindo do lado de fora da janela. Bianca achava queconseguia ver o pedaço pintado de preto e escrito “Aviso”.Ia terminar rápido, tinha de terminar rápido.Mas em seguida,
ele
iria ...3- Ah! Weskhel, eu presumo - falou uma figura trajando umrobe escuro.Era uma pessoa, um ser humano, carne e osso. Estava para-do diante de um pequeno amontoado de pedras. Usava umamáscara branca com apenas um olho, o resto era todo compac-to e liso. Não tinha orifícios para o nariz ou pinturas.Weskhel tinha surgido de entre um pedaço denso do bos-que, saindo em uma pequena clareira. Encontrava-se, agora,parado fitando o sujeito na clareira aparentemente deserta. Elesabia que havia mais criaturas por ali, espreitando. Nada quefosse trazer maiores complicações. Veria que estava enganado.- Por que não esta com a sua forma verdadeira, amigo Weskhel?As asas podres, as cicatrizes? - indagou o homem no robe.Weskhel não falou nada, limitou-se a fitar o homem.- Não precisa responder se não quiser - disse. - Hum... vocêé mesmo rápido. Estando em outro lugar, eu já deveria ter con-seguido sair tranqüilamente pelo portal sem ter de usar nenhum...nenhum aliado.- Você fala um bocado - começou Weskhel. - Já falaram issopara você?- Não, nunca - respondeu o homem. - Mas eu tenho umanoção sobre isso. Não preciso que nenhum idiota fale isso, muitomenos um anjo caído desgraçado como você.Weskhel não respondeu.- Bom, acho que já vou. O tempo está um pouco apertado.Mas não se preocupe, nos falamos de novo. Ainda vou voltarmuito aqui.Logo que o homem acabou de falar, Weskhel começou acaminhar em sua direção. Mantinha aqueles passos lentos, nun-ca tirando os olhos da figura de robe escuro.Este permaneceu parado, observando a aproximação deWeskhel. “Acho que posso observá-los um pouquinho”, pensouele. Em seguida, ergueu o braço direito para o lado e fez um movi-mento com os dedos, fechando-os um a um. O polegar foi o últimoe, com isso, das árvores atrás das pedras empilhadas, mais quatrocriaturas iguais as que Weskhel enfrentara antes apareceram.- Acho que posso me dar ao luxo de um pequeno espetáculo.o homem assim que a primeira criatura passou ao seu lado,correndo. Quando a primeira criatura chegou a uns dois metrosde distância de Weskhel, este deu salto e passou por sobre acabeça do demônio. No ar ele desembainhou a kodachi e, che-gando ao chão, virou-se rapidamente, decapitando a criaturaantes que conseguisse se virar por completo.A sua cabeça voou, fazendo com que o corpo ainda dessemais um passo para o lado antes de cair.As outras três vieram logo em seguida. Uma mais a frente eas duas seguintes uma ao lado da outra. Gritavam e moviam asgarras velozmente contra Weskhel.Ele deu um passo para o lado e pulou dando uma cambalho-ta para trás. Quando sua cabeça voltou a ficar na direção dastrês criaturas, ele arremessou a kodachi paralelamente ao solo.A lâmina atingiu em cheio a base do pescoço do primeirodemônio, atravessando-a enquanto começava a jorrar uma enor-me torrente de sangue pelo ferimento, colorindo o ar do Bosquedos Suicidas com um vermelho escuro.Weskhel colocou os pés de volta ao solo já tirando a espa-da longa da bainha.Com um golpe na diagonal, cortou o peito da criatura. San-gue jorrou para o alto e ela caiu para trás guinchando de dor,cuspindo aquela saliva esbranquiçada para os lados.Em seguida, a segunda sucumbiu tendo a lâmina cravadano meio de sua barriga.
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