Mas se o Brasil, apesar de tudo, crescia, e por essa forma se mostrava exuberante deforça, por que, para que, essa palavra de revolução, de transformação, de integração?Porque havia um destino de povo a realizar-se, destino que dados concretos, estatísticos,apresentavam como susceptível a uma efetivação maravilhosa, e que vinha sendo, noentanto, retardado, frustrado, negado, por obscuras contingências, extrínsecas a suaprópria essência superior. Para que, num fundo impulso de ânimo heróico, noslibertássemos de peias seculares ou recentes, que nos prendiam músculos e membros, enos afirmássemos perante o mundo como sentimos que podemos ser.
A FACE PROFUNDA DO MOVIMENTO MODERNISTA
No despertar da ansiedade nova de beleza que se expressou no chamado “movimentomodernista” da literatura brasileira ao fim da segunda década do século, os primáriosnada mais viram do que um vão prurido de imitação de movimentos congênereseuropeus. Os primários nunca perceberam que cada grande período de nossa histórialiterária (Romantismo, Naturalismo, Simbolismo), oriundo, embora por força de leisuniversais do espírito, de impulsos iniciais vindos de fora, representam, para nós, algode profundamente diferente dos períodos literários europeus do mesmo nome. Nunca seaperceberam de que nós não “refletimos” simplesmente, porque não podemossimplesmente “refletir”, em razão de não sermos simples superfície. Mas “refractamos”sempre, e com violência, por motivos de extrema densidade do nosso ambiente de alma.Assim, o Romantismo, que foi na Europa afirmação do indivíduo e ruptura dahierarquia interior, com a superposição do sentimento à inteligência, constituiu noBrasil, embora conservando muito do seu caráter europeu, uma afirmação denacionalidade.
Y-Juca Pirama
e os
Timbiras
, de Gonçalves Dias, são o anseio deheroicidade de um povo tentando ingenuamente explicitar-se por meio da ingênuaalegria. Toda a novelística de Alencar é uma tomada de posse da realidade física eespiritual brasileira, e, nas páginas de
Iracema
(o nosso poema védico, se se pudessedizer), aparece como primeira tentativa de interpretação simbólica de nosso mistérioracial. Os Naturalistas e Parnasianos foram filhos, sem dúvida, do espírito negativista ecético que caracterizou a geração européia de que provieram. Coube-lhes, no entanto,para além de tal sentido ideológico, entre nós, refundir o idioma e descobrir melhor arealidade aos nossos olhos, com o apuramento do nosso senso de observação. OsSimbolistas vieram, inegavelmente, marcados de muitas das taras lamentáveis que aobra de um Baudelaire, de um Rimbaud, de um Verlaine, na velha Europa registrou.Mas o que, sobretudo, a obra de um Cruz e Souza, de um Emiliano Perneta, de umSilveira Neto ficou significando foi o retorno de nossa inteligência à fonte daespiritualidade profunda, a procura do sentido de eternidade do espírito – o despertar daansiedade metafísica no Brasil (1). Os primários não repararam em que, com os poetassimbolistas, apareceram Farias Brito, Euclides da Cunha, Alberto Torres, Nestor Vitor...Assim como não repararam em que o “movimento modernista” surgiu (não obstante opuro caráter estesíaco de alguns dos seus corifeus, e não obstante o ânimo destrutivo dealguns dos seus propugnadores) de funda fermentação de pensamento, não apenasestético, mas, principalmente, político, filosófico, religioso.Teriam notado os primários, se lhes sobrasse capacidade para tal, que havia uma ligaçãosubterrânea entre o apostolado pela “ordem”, de Jackson de Figueiredo (que acordounossa inteligência, com a sua palavra, para o interesse profundo pelo destino coletivo) e
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