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O eurodeputadoMiguel Portas falado seu trabalho, dacrise, da Europa e daesquerda europeia.GLOBALPela terceira vez emPortugal, centenas dejovens mobilizam-separa mais uma paradaMayday no primeirodia do mês de Maio.PÁG. 12
Esquerda
Nº 35 | 50 CÊNTIMOS | ABRIL 2009 | MENSAL
JORNAL DO BLOCO DE ESQUERDA | WWW.ESQUERDA.NET
MAYDAY 2009: UM GRITO CONTRA APRECARIEDADEEM GAZA OU LAMPEDUSA, SENTI QUE VALIA APENA SER DEPUTADO
A Assembleia da República aprovou, após 10 anos de luta do Bloco de Esquerda, o fimdo sigilo bancário, essencial para o combate ao crime económico. Após a aprovação, osdefensores do capitalismo tóxico lançaram uma feroz ofensiva contra a medida e a luta irácontinuar. PÁG. 4 e 5
FIM DA IRRESPONSABILIDADE FISCAL
 
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ESQUERDA
 
ABRIL
09 |
PINOCHET
 
E
 
AS
 
CONTAS
 
ESCONDIDAS
 
NOBES
Há quatro anos que a justiçachilena tenta saber onde estãoos 27 milhões de dólares queAugusto Pinochet desviou doEstado para as contas nos Es-tados Unidos. Face à falta deresultados, no passado mês de
Março o Conselho de Defesa do
Estado do Chile interpôs uma
acção judicial contra os bancos
que esconderam o dinheiro dePinochet, sediados nos EUA:Banco Chile, Santander, PNC(antigo Banco Riggs), e Banco
Espírito Santo, numa subsidiáriaem Miami, na Flórida.Um relatório da subcomissão
de inquérito do Senado norte-americano, elaborado em Mar-ço de 2005, confirmou que o
antigo ditador chileno, falecidoem 2006, tinha 125 contas nes-
tes quatro bancos nos EUA. Oprocesso movido pelo Estado
chileno contra estas instituições
financeiras tem precisamentepor base a ocultação de infor-mações de contas secretas que
o ex-ditador mantinha no país.
O relatório da comissão deinvestigação do senado indicaque, entre 1991 e 2000 o BESterá recebido transferências nomontante de 3,91 milhões dedólares (2,9 milhões de euros),depositados em contas pesso-ais e de off-shores detidos por
Pinochet.
Os cerca de 27 milhões de
dólares desviados durante os 17
anos em que esteve no poder,terão como proveniência prin-cipal os fundos reservados doEstado, mas também subornos
e comissões que o ditador ame-alhava em negócios militares.
A dimensão deste desfalque
tornou-se pública na sequência
do ataque às torres gémeas de
Nova Iorque, a 11 de Setembro
de 2001, quando as autorida-des norte-americanas desenca-dearam investigações sobre ofinanciamento do terrorismo e
lavagem de dinheiro.
O escrutínio efectuado às
operações do Banco Riggs aca-bou por dar origem a uma inves-
tigação autónoma do Senadonorte- americano sobre as rela-
ções deste banco com Pinochet,conduzida pelos senadores CarlLevin (democrata) e Norm Cole-man (republicano).
A investigação concluiu queo BES contratou para liderar asua filial em Miami o mesmohomem que tinha feito carreirano banco Riggs e administravapessoalmente as contas bancá-
rias onde Pinochet depositava o
produto dos seus crimes e eva-
são fiscal.O relatório do Senado diz ain-
da que banco tentou esconderaos investigadores as contas dePinochet na sua filial nas IlhasCaimão, um banco fantasma
que na altura não tinha um úni-co empregado.
A investigação diz ainda que
mesmo após a justiça espanhola
ter ordenado, em 1998, o con-gelamento dos bens de Pino-chet em todo o mundo, o BES
nunca avisou as autoridades dodinheiro criminoso que guarda-va deste cliente muito especial.
Nos dois anos seguintes, fezsair esse dinheiro para outrosdestinos, sempre agindo sob asordens do ex-ditador, segundotestemunharam responsáveis
do banco em Miami.
Pinochet controlava ao todoseis contas no BES, sob nomesdisfarçados por iniciais comoA.P. Ugarte e empresas criadasno off-shore do banco como oSanta Lucia Trust ou TrilateralInternational Trading. A únicaque podia ser directamente as-sociada ao ditador estava aber-
ta em nome da filha, JacquelinePinochet.
No relatório final afirma-seque esta é “uma história sórdi-da de lavagem de dinheiro” eas instituições não escapam aduras críticas: “a informação
mostra que a rede de contas de
Pinochet nos EUA era mais ex-tensa, durou mais tempo e en-
volveu maior número de bancosdo que se pensava. Alguns ban-cos ajudaram-no activamente aesconder o seu dinheiro”.
No documento constam ain-da graves acusações que con-
trariam a imagem impoluta que
Pinochet sempre quis passar àopinião pública.”Como antigogeneral e presidente do Chile,Pinochet era bem conheci-do como violador dos direitoshumanos e ditador violento.
Mesmo a mais rudimentar obe-diência às regras federais de ‘co-
nheça o seu cliente’ teriam su-
gerido que estas contas deviam
ser investigadas e fechadas há
muito tempo”.
Na altura da divulgação dorelatório, o senador Carl Levinacusou os bancos referidos de“ajudarem um ditador estran-
geiro a esconder os recursos doseu próprio povo”.
O documento do senadoamericano dá conta do esque-ma utilizado por Pinochet paraocultar a origem das contas: oex-ditador distribuía os mon-
tantes amealhados por dezenasde contas, todas elas abaixo do
limite legal de 13 milhões deeuros, para evitar que fossemdenunciadas às autoridades
chilenas.
No debate na AR, Francisco
Louçã comentou uma entrevista
de Ricardo Salgado, dias antesao Jornal de Negócios, em queo presidente do banco fez uma“proposta” ao Parlamento: os
bancos deveriam aceitar acabarcom os ‘offshore’ se lhes prome-terem uma amnistia sobre a sua
actividade. “Das duas uma: ou
é uma amnistia para crimes co-
metidos nesses off-shores, e eudigo-lhe que não, ou trata-sede uma amnistia fiscal para odinheiro que não foi pago por
quem utilizou esses ‘off-shores’e eu digo que não também”, de-fendeu Francisco Louçã, na suaintervenção.
E rematou: “os ‘offshores’, ascontas secretas, protegeram o
crime e não, não pode haver ne-
nhuma amnistia para os crimes
económicos. Respondo por issoa Ricardo Salgado: todos têm deser responsabilizados pelos seuscrimes, não há amnistias para os‘offshores’”.
Na ocasião o deputado do
Bloco trouxe todo o caso para aordem do dia, quando acusou o
BES de ter “escondida parte da
fortuna de Augusto Pinochet, se-gundo a Justiça chilena que nãoconsegue reaver o dinheiro”.No mesmo dia, através de um
comunicado, o BES desmentiuestas declarações, acusando
Louçã de mentir de forma pro-
positada”, garantindo não exis-tir qualquer relação financeiracom o antigo ditador chileno eque não ocultou nenhuma in-formação relativamente a esse
assunto.
No documento, o BES cha-mou três vezes “mentiroso”aFrancisco Louçã e atribuiu-lhe
obsessões patológicas”.A resposta foi pronta. O Blocolembrou que “o processo abertopelo governo chileno foi noticia-do pela imprensa económica de
referência internacional” – no-meadamente a revista Forbes,
PINOCHET E AS CONTASESCONDIDAS NO BES
O BES e outras três instituições financeiras, colaboraram com o ditador Pinochet, mantendo contas secretas, numa sub-sidiária na Florida, EUA, para onde este desviou cerca de 27 milhões de dólares. O caso foi referido por Francisco Louçãno debate do pacote anti-corrupção do Bloco, na AR, no dia 16 de Abril, e esdocumentado num relatório do Senadonorte-americano e em diversa imprensa estrangeira.
TEXTO DE CATARINA OLIVEIRA
“Assim funciona osegredo bancário ouas sociedadesoff-shores: servempara esconderdinheiro e, no casodo Chile, paraesconder o dinheiroque tem a marcado sangue de umaditadura militar”
 
 
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CONTAS
 
ESCONDIDAS
 
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CARLOS SANTOS
EDITORIAL
O ILUSTRE BENFEITOR
No dia 23 de Fevereiro de 2009 as pessoas que jantavamnum certo restaurante de Braga ficaram espantadas: umilustre benfeitor tinha-lhes pago a conta e não sabiam por-quê. Mas é facilmente explicável. O homem não cabia emsi de contente. Tentara corromper o vereador Sá Fernandescom 200 mil euros para que este não contestasse o fabu-loso negócio da permuta entre os terrenos da Feira Populare do Parque Mayer, em Lisboa. Denunciado, tinha ouvido asentença naquele dia: multa de cinco mil euros por tenta-tiva de corrupção para acto lícito. A tentativa de corrupçãotinha ficado provada, mas a lei, que o PS não quis mudar,diferencia de forma absurda entre acto lícito e acto ilícito.E o tribunal, apesar de dar como provada a tentativa decorrupção, condenou o réu com a referida multa.Por isso, é bem compreensível a sua enorme felicidade. Fi-cou provado que tinha tentado corromper e, com isso, fi-caram desmascaradas as patranhas que inventou, negandoo que fizera e vitimizando-se. Mas isso pouco lhe importa,porque sabe que haverá sempre um qualquer autarca quefaz jus à velha máxima de um antigo político brasileiro: “Euroubo, mas faço!Agora a multa de cinco mil euros eraverdadeiramente importante, afinal era apenas 2,5% doque tinha oferecido ao vereador. E, pensando bem, ser co-nhecido como um corruptor não era mau, porque alargavao mercado. No final de contas, bem aventurado o momen-to em que tinha tentado corromper o vereador, tornara-seuma personalidade conhecida nacionalmente, um homemdo qual todos diriam: “tem um poder imenso”.Alguns dos seus amigos autarcas, nomeadamente o edilsocialista” de Braga, acharam que o homem não podiaficar sozinho na sua euforia e que era preciso rapidamentedar-lhe melhores condições para alargar os seus negócios.Daí, presentearam-no com a presidência da Braval, a em-presa de tratamento de resíduos sólidos do Baixo Cávado,que engloba os municípios de Braga, Póvoa de Lanhoso,Amares, Vila Verde, Terras do Bouro e Vieira do Minho.Uma iniciativa que, portanto, envolvia politicamente umlargo bloco central, com autarcas do PS, do PSD e doCDS.Só que o Bloco de Esquerda não se calou. Denunciou o es-cândalo, tornou-o um caso nacional, acabando por obrigara, depois de vários dias, todos os restantes partidos viremcondenar a decisão das Câmaras do Baixo Cávado. Domin-gos Névoa achou que mais uma vez tinha perdido a partidae que, para evitar males maiores, o melhor era demitir-sede presidente da Braval.Na política em Portugal há uma realidade indesmentívelnos últimos 10 anos: o Bloco de Esquerda não se acomoda,denuncia e combate a corrupção, por mais ilustres que se- jam os corruptores, apesar dos silêncios de uns e da cum-plicidade de outros. Foi por isso que foi possível aprovar noparlamento o fim do sigilo bancário. Independentementedas vicissitudes que o projecto aprovado ainda possa so-frer, toda a gente sabe que pode confiar no Bloco paracombater a corrupção, um dos principais meios com queo poder económico viola a democracia e se impõe sobre opoder político.
o jornal Financial Times ou aagência Reuters, entre vários
outros meios de comunicação
social – e que essas notícias“nunca foram desmentidas
pelo banco”.
Na resposta o Bloco frisoutambém que “não há nenhu-ma amnistia - seja ela globalou não - que possa entrar emvigor em território nacional
sem a prévia aprovação da As-sembleia da República”.
E foi ao cerne da questão:“no momento em que, a nívelinternacional, se aperta o cer-co aos offshores e os despu-dorados prémios dos gestoresbancários, o Bloco de Esquer-da compreende bem o ner-vosismo de Ricardo Salgado.Tem muito menos a ver comas declarações do deputado,mas antes com os diplomas
do Bloco hoje aprovados pelo
Parlamento”, referiu o comu-
nicado.
No dia seguinte, Francisco
Louçã reiterou ainda, em con-
ferência de imprensa, que se
confirma “a relação financeira
entre o banco e o ex-ditador,protegida pelo segredo das
contas e dos off-shores ao lon-
go de oito anos”, ao contrário
do que afirmou Ricardo Salga-
do. Louçã entregou diversas
notícias publicadas na impren-sa estrangeira sobre este assun-to, que tal como o relatório doSenado norte-americano se en-contram disponíveis para con-sulta no portal esquerda.net.“A grande imprensa de refe-
rência internacional identificao Banco Espírito Santo comoreceptador de uma parte dafortuna de Augusto Pinochet.Foi há quatro anos e a Justiçachilena ainda não tem res-posta”, sublinhou o dirigentebloquista. “O BES tem é quese preocupar em dar uma res-posta cabal à justiça chilena”,
avisou.
E lembrou que no passadoRicardo Salgado reconheceua existência dessas contas,
quando informou que iria des-
pedir o director da agência deMiami. “Não se vai despedirum director pelo facto de ele
ter recusado o dinheiro e de tercumprido as leis. Só se poderiadespedir se ele tivesse recebidodinheiro sujo”, insistiu.
“Assim funciona o segredo
bancário ou as sociedades off-
shores: servem para esconderdinheiro e, no caso do Chile,para esconder o dinheiro que
tem a marca do sangue de umaditadura militar”, disse Louçã.
A 
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