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UM CONDOR SOLITÁRIO
"No pó que habito não terei as rosas, As doces preces que os felizes têm;Pobres ervinhas brotarão viçosas,E o esquecimento brotará também".
(
Pressentimento
,
Tobias Barreto
, 1868.)
Tobias Barreto
foi um poeta que não recebeu, necessariamente, o reconhecimento quemerecia. Menosprezada pela crítica, sua obra poética não foi explorada o bastante, tampoucoevidenciou-se sua qualidade estética. É necessário que se revele ao público esta boa produção, que serevejam posições críticas a seu respeito e que se faça justiça.
Tobias Barreto de Menezes
(07-06-1839/26-06-1889), mestiço, pobre, nasceu na vilade Campos, província de Sergipe, e faleceu em Recife, Pernambuco. Bacharel em direito pelaFaculdade do Recife, foi jornalista, advogado e deputado provincial. Destacou-se no campo dafilosofia por sua atuação polêmica contra o conformismo retórico. Questionou a concepção de físicasocial do positivismo, relacionou o conceito de cultura à constituição de normas para a compreensãodo social e do humano. Entendia a metafísica como teoria do conhecimento divergindoprofundamente do positivismo. Admitia a liberdade humana como realidade não empírica. Defendeuo liberalismo na política, a emancipação feminina e a libertação dos escravos. Foi uma figura centralna Escola do Recife, disseminando o pensamento filosófico alemão no Brasil que, naquela época,sofria forte influência da cultura francesa. Certamente, foi um importante pensador brasileiro noséculo XIX.Publicou
Ensaios e estudos de filosofia e crítica
(1875),
 Dias e Noites
(1881),
Estudosalemães
(1883),
 Menores e Loucos
(1884),
 Discursos
(1887) e
Questões vigentes de filosofia edireito
(1888). O restante de sua obra, dispersa em jornais, foi reunida em três edições de Obrascompletas, em 1925, 1963 e 1989.
 Dias e Noites
foi seu único livro de poesias e, pelo que sei, teve seis edições. As trêsedições primeiras, organizadas por Sílvio Romero, vieram a público, por editoras do Rio de Janeiro,respectivamente em 1881, 1893 e 1903. Preparada por Oliveira Teles, em 1925, sai a quarta edição.Em 1951 é editada no Rio de Janeiro por Simões dos Reis
 
a quinta edição e em 1978, pelo Governodo Estado de Sergipe, a sexta. A edição de dispus é a sexta, revista e aumentada, cuja organizaçãoficou a cargo de Paulo Mercadante e Antonio Pain e que teve direção geral de Luiz Antônio Barreto,
 
UM CONDOR SOLITÁRIO
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com introdução e notas de Jackson da Silva Lima, publicada pela Editora Record com 378 páginasem 1989 em edição comemorativa por ocasião do Centenário da República.O que observo nos estudos que se fizeram até o momento sobre sua obra é que boa partedos críticos classificam-no como um grande pensador, filósofo e revolucionário das idéias, não comopoeta. Realmente o foi, leve-se em conta que a maior parte de sua produção tenha tido cunhofilosófico, conta-se apenas um único livro de poesias. Entretanto, ao contrário de outros autores de“livro único”, como o paraibano
 Augusto dos Anjos
, que tiveram seu nome registrado na histórialiterária brasileira, Tobias Barreto é sempre colocado num segundo plano.Sua obra, quando mencionada por alguns críticos ilustres, ocupa pouquíssimas linhas emque se delineiam comentários não muito amistosos.
 José Veríssimo
(1) chega mesmo a afirmar quesua educação
roceira
e
rudimentar 
fazia sobressair-lhe nos textos mais o aspecto
rústico
do que oletrado de sua personalidade, o que justificaria sua predileção pela
vulgaridade
, que não raro chegavaao
chulismo da expressão
.
 Afrânio Coutinho
(2) afirma que sua produção lírica descai para o
maugosto
e para a
banalidade
, que
 Dias e Noites
(1881) nada vale e ninguém se lembraria de TobiasBarreto, não fossem as apologias de seu amigo
Sílvio Romero
. Sugerindo ainda que alguns de seustextos nada mais eram que
 plágio
de poesias de
Casimiro de Abreu
. E ainda, além disso, quasesempre a crítica coteja sua produção com a do poeta baiano
Castro Alves
colocando-se em evidênciaesta em detrimento daquela.Não pretendo aqui, por puro bairrismo, supervalorizar a obra do sergipano encontrando-lhe forçosamente traços de genialidade turvados pelo visível preconceito a ele dirigido pela crítica.Tampouco colocá-lo nos píncaros da glória como fazem, o mais das vezes, com o seucontemporâneo baiano. Busco, sobretudo, uma reflexão equilibrada sobre o real valor literário quepode ser atribuído a vários poemas seus e, de certa forma, pretendo, mesmo que de maneiraincipiente, dissipar a densa nuvem de segregação que se instaurou sobre sua obra poética,obscurecendo-lhe a importância no cenário literário brasileiro.Talvez o primeiro contato com a poética
tobiática
não pareça despertar no leitor asensação de grandiosidade e altivez que se nota em alguns poemas de
Castro Alves
ou de
Gonçalves Dias
. Entretanto, “genialidade” não é algo que se possa requerer de nenhum artista, tampoucoconstância. Os grandes nomes de nossa Literatura não produziram somente obras-primas. Umaanálise criteriosa (talvez tendenciosa) de qualquer grande obra quase sempre termina por encontrar-lhe o que se poderia chamar, levianamente, de falhas. Houve os que, pretensiosamente, encontraram-
 
JORGE HENRIQUE VIEIRA SANTOS
3
nas em
Os Lusíadas!
É mister, portanto, concordar-se que há nelas textos a que se possa atribuirvalor literário e outros desprovidos deste.O que se percebe nitidamente em determinados críticos é uma predisposição gratuita adepreciar os poemas de
Tobias Barreto
e uma mesma predisposição a supervalorizar poemas outrosde outros autores.O poema
 Ano Bom
(3), por exemplo, é uma amostra de pobreza poética, ausência delirismo e, talvez,
chulismo de expressão
. Parece não ter havido nenhuma outra preocupação formal,tão somente a de rimar o final dos versos. O poema está distribuído em doze estrofes de quatroversos à maneira das quadras populares, com rimas somente no 2º e 4º versos de cada estrofe,mantendo-se o 1º e 3º versos ímpares. Estranhamente ao que estava em voga na época (a preferênciapor versos livres e brancos), o texto é decassílabo. Em seus versos, repletos de um prosaísmoextremo, há quase ausência de conotação:
Chega a viola, o único pecúlio De um dos muitos escravos da fazenda: Mas falta arame; manda-se um moleque Buscar depressa um carretel na venda.Volta o emissário; a coisa está completa;E o sertanejo afina o instrumento. (...)
Além de sua linguagem, em alguns momento, beirar o mal-gosto:
 Nem sequer sabe dar uma embigada!...
Salva-se no texto a temática que, segundo o título e a data de sua criação, sugere umafesta de Reveillon aristocrática (que pode ser percebida pela presença do piano – instrumentoincomum nas camadas sociais mais modestas) cuja harmonia é interrompida pela presença inusitadade um sertanejo rudemente caracterizado que pede uma viola – instrumento representativo dacamada popular – para demonstrar sua cultura. A oposição entre o aristocrático e o popular, quedeixa transparecer o preconceito e a discriminação entre os dois extremos da sociedade, consistenuma abordagem mais equilibrada e reflexiva das questões sociais, sem apelos a idealizações,característica notória de uma poesia mais madura da fase condoreira do nosso Romantismo.O que não se pode, entretanto, é afirmar que as poesias de Tobias Barreto são
chulas
ou
grosseiras
tomando-se por parâmetro um único poema, ou alguns menos burilados.
Castro Alves
 

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