/  7
 
Quimera Genética
Um fator de dúvida nos exames de DNA
Ainda recentemente, a literatura especializada considerava o resultado dosexames de DNA para fins de verificação da paternidade e da maternidade ou para comprovação de autoria de delitos criminosos, como infalíveis quanto ànegativação.A questão modificou-se de forma radical com a descoberta de seres humanoshíbridos denominados quimeras.As pesquisas divulgadas em publicações científicas de renome, constaram publicizadas parcialmente, para o grande público, em programa produzido pelo Discovery Channel.Entre as pesquisas divulgadas, tratou-se de um caso pesquisado pela médicaMargot Kruskall (I) do Centro Médico Beth Israel Deaconess de Boston(EUA).Uma paciente renal com 52 anos, necessitando de transplante de rim, teve asua família composta por três filhos adultos e o marido examinada quanto à possibilidade de compatibilidade. O resultado apresentou impossibilidadequanto à maternidade de dois dos filhos da paciente.A documentação e o médico pediatra que acompanhara o parto dos três filhosda paciente foram cruciais para que a questão fosse analisada pelosespecialistas em genética. Após dois anos de minuciosa pesquisa da equipemédica o enigma foi decifrado comprovando-se que a paciente renal é umaquimera tetragamética. Uma pessoa com dois tipos de célula, geneticamentediferentes. Ou seja, trata-se de um ser humano composto – originado de doisindivíduos, gêmeos não idênticos, que se fundiram no útero da mãe de forma perfeita, ainda na fase embrionária. Segundo os exames, o sangue e algunstecidos receberam o material genético de um dos gêmeos. Já os demais tecidose os ovários, mostraram a existência de material genético de outro gêmeo.Interessante, no caso, a questão dos cabelos. Uma região da cabeça tem tecidocapilar diferenciado de outra.A paciente renal que recebeu o transplante tendo como doador o marido não éum caso único na literatura médica. Segundo divulgado, são conhecidosatualmente cerca de 40 casos de quimerismo.Conhecidos os mecanismos quanto à geração de gêmeos idênticos (com omesmo DNA) ou fraternos (com DNA diferente). Porém, existe uma terceiraforma de gêmeos recentemente descoberta por outra equipe de pesquisadoresmédicos do Centro Samaritano Banner Good, nos EUA, liderados por Vivienne Souter onde um dos alelos – da mãe – é igual nas duas crianças. O
 
alelo paterno difere em 50% comprovando origem em um óvulo e doisespermatozóides do mesmo pai. O zigoto formado teria se dividido em doisdando origem a dois embriões que geraram dois bebes, um dos quais comhermafroditismo e o outro aparentemente normal.O fenômeno é complexo ao extremo, posto que, descoberta a existência dequimerismo (mosaicismo) nas crianças. Dependendo das partes do corpo oDNA é diferente tanto na criança normal como no irmão gêmeo hermafrodita.Outra descoberta diz respeito à miscigenação do sangue do feto com o sangueda mãe durante a gestação. Segundo pesquisa efetuada no Centro de Pesquisade Câncer Hutchinson, em Seattle - EUA, pelos imunologistas J. Lee Nelson,e Natalie Lambert - 80% a 90% das mulheres carregam células ou DNA deseus filhos no sangue durante a gravidez.Tal fenômeno -microquimerismo -consolida-se no período posterior ao parto resultando em possibilidades decâncer em razão da rejeição das células do filho ou filha gerados e que permaneceram no corpo da mãe. O mesmo fenômeno se dá no lado da criançagerada, onde 22% das mulheres adultas apresentam glóbulos brancos deorigem materna.Pior, por ocasião de uma segunda gestação, as células sanguíneas originadasdo feto da primeira gestação contidas na corrente sangüínea da mãe podemultrapassar a barreira placentária e adentrar na corrente sanguínea do feto dasegunda gestação.Em fenômeno descrito como quimera partenogenética, descoberto em ummenino com três anos de idade, comprovou-se a existência de partenogêneseiniciada antes da fecundação do óvulo. Como resultado, a criança apresentatecidos com o mesmo material genético da mãe enquanto outros tecidosmesclam material genético da mãe e do pai. O fenômeno foi descrito por LisaStrain e colegas da Universidade de Edimburgo (Escócia, Reino Unido) edivulgado pelo cientista M. Azim Surani em comentário registrado na revista"Nature Genetics", ainda no ano de 1995.Onde tais descobertas científicas afetam o Direito de Família e o DireitoPenal?Logo após a divulgação, em Boston-EUA, da questão da mãe quimérica (52anos) com dois filhos, na época já adultos, que aparentemente não teriam sidogerados por ela, houve um novo caso nos EUA. Neste caso, mais complicadodevido à menoridade das crianças, houve a necessidade de comprovar a paternidade quanto aos filhos. Realizada a perícia o resultado deu positivo para a paternidade e negativo para a maternidade. Os Promotores requereram a perda do poder familiar (mátrio poder) e o Juiz estava prestes a conceder o pedido quando um dos Promotores tomou conhecimento da questão
 
quimérica, em leitura de revista especializada. Na dúvida, o Juízo ordenou perícias para determinação da possibilidade dequimerismo. Até a data da divulgação da questão não havia comprovação doquimerismo no corpo da mãe. O nascimento de uma terceira criança, cujo parto foi acompanhado de forma rigorosa pelos investigadores comprovou oquimerismo de forma indireta, posto que a terceira criança tem total afinidadecom os irmãos e com o pai, inobstante novamente não tenha qualquer afinidade com o DNA coletado da mãe. Evidente o pesadêlo com nuances defilme de terror impingido à mãe que persistiu até a divulgação da análisegenética do DNA da terceira criança.Tais constatações foram elucidadas nos EUA, onde evidentemente ascondições econômicas presumem instalações hospitalares e científicas commuito maiores condições do que as brasileiras para detectar fatores que fogemda normalidade e indiciam descobertas científicas. É o caso do quimerismo,do microquimerismo e do quimerismo partenogenético. Não consta divulgada qualquer questão atinente a exame de paternidade comresultado negativo onde o quimerismo tenha sido investigado. No entanto, os pesquisadores ouvidos pelo Discovery Channel apontaram questão hipotéticada investigação em estupro onde o indiciado fosse uma quimera. Talfenômeno poderia levar a resultado negativo quanto a comparação do materialcoletado, inobstante a autoria do crime, pelo investigado (II).Logo, em casos de investigação forense, - com negativação quanto aoinvestigado, após perícia por DNA -, caberia expandir a investigação paracomprovação do DNA dos parentes próximos do investigado(a). Persistindo aexcludente, realmente estaria comprovada a improcedência do parentesco oudo indiciamento criminal. Caso contrário ter-se-á provável comprovação dequimerismo.Evidente que décadas se passarão até que tal procedimento seja judicializadono Brasil, antevendo-se casos de injustiça extrema, por total ignorância (IV). NOTAS:(I). A Dra. Margot Kruskall faleceu em agosto de 2005, com 56 anos, vitimada por câncer nos ovários.(II)
a)
Em caso de estupro, não basta a simples análise genética do sangue doindiciado para comparação com o material (esperma) coletado navítima. Caberia coleta do mesmo material para fins de análise genética para evitar a questão quimérica. b) Na investigação da paternidade, a questão fática circunstancial passaa ter relevância para fins de expansão da investigação após negativaçãoda perícia tradicional por análise do DNA. Excluída a possibilidade da

Share & Embed

More from this user

Recent Readcasters

Add a Comment

Characters: ...