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SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada - Capítulo 2, Seção I - Má-fé e mentira

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada - Capítulo 2, Seção I - Má-fé e mentira

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Capitulo 2
 
A MÂ-FÉ
i
MÂ-FÉ E MENTIRA
O ser humano nâo é somente o ser pelo quai se revelam negati- vidades no mundo. É também o que pode tomar atitudes negativas com relaçào a si. Na introduçâo, definimos a consciência como "um ser para o quai, em seu prôprio ser, ergue-se a questâo de seu ser enquanto este ser implica um outro ser que nâo si mesmo". Mas, depois da elucidaçâo da conduta interrogativa, sabemos que a formula também pode ser: "A consciência é um ser para o quai, em seu prôprio ser, acha-se a consciência do nada de seu ser". Na proibiçâo ou veto, por exemplo, o ser humano nega uma transcendência futura. Mas esta negaçâo nâo é veri- ficativa. Minha consciência nâo se limita a
encarar 
 uma negatividade. Constitui-se a si em sua carne, como nadificaçâo de uma possibilidade que outra realidade humana projeta como
sua
 possibilidade. Por isso, deve surgir no mundo como um
Nâo,
 e é efetivamente como um Nâo que o escravo vê de saîda seu amo, ou o prisioneiro tentando fugir vê a sentinela que o vigia. Existem inclusive homens (guardiâes, vigilantes, carcereiros, etc.) cuja realidade social é unicamente a do Nâo e viverâo e morrerâo sem ter sido outra coisa sobre a terra. Outros, por trazerem o Nâo na prôpria subjetividade, igualmente se constituem, enquanto pessoa, como negaçâo perpétua: o sentido e funçâo do que Scheler chama de "homem de ressentimentos" é o Nâo. Mas existem condutas mais sutis, cuja descriçâo nos introduziria mais fundo na intimidade da consciência: a ironia é uma delas. Na ironia, o homem nadifica, na uni- dade de um sô ato, aquilo mesmo que diz; faz crer para nâo ser acredi- tado; afirma para negar e nega para afirmar; cria um objeto positivo que, no entanto, nâo possui outro ser senâo seu nada. Assim, as atitu-
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des de negaçâo com relaçâo a si permitem nova pergunta: que deve ser o homem em seu ser para que Ihe seja possivel negar-se? Mas nâo se trata de tomar em sua universalidade a atitude de "negaçâo de si". As condutas a incluir neste rôtulo sâo variadas e correrfamos o risco de sô reter sua forma abstrata. Convém escolher e examinar determinada atitude que, ao mesmo tempo, seja essencial à realidade humana e de tal ordem que a consciência volte sua negaçâo para si, em vez de dirigi-la para fora. Atitude que parece ser a
mâ-fé.
Costuma-se igualâ-la à mentira. Diz-se indiferentemente que uma pessoa dâ provas de mâ-fé ou mente a si mesma. Aceitemos que mâ-fé seja mentir a si mesmo, desde que imediatamente se faça distinçâo entre mentir a si mesmo e simplesmente mentir. Admitimos que a mentira é uma atitude negativa. Mas esta negaçâo nâo recai sobre a consciência, aponta sô para o transcendente. A essência da mentira, de fato, implica que o mentiroso esteja completamente a par da verdade que esconde. Nâo se mente sobre o que se ignora; nâo se mente quando se difunde em erro do quai se é vftima; nâo se mente quando se esta equi- vocado. O idéal do mentiroso séria, portanto, uma consciência dnica, que afirmasse em si a verdade, negando-a em suas palavras e negando para si mesma esta negaçâo. Mas essa dupla atitude negativa recai em um transcendente: o fato enunciado é transcendente, porque nâo existe, e a primeira negaçâo incide sobre uma
verdade,
 ou seja, um tipo particular de transcendência. Quanto à negaçâo intima que opero cor- relativamente à afirmaçâo da verdade para mim, -recai em
 palavras,
 isto é, sobre um acontecimento do mundo. Além disso, a disposiçâo intima do mentiroso é positiva; poderia ser objeto de um juîzo afirmativo: o mentiroso pretende enganar e nâo tenta dissimular essa intençâo ou mascarar a translucidez da consciência; ao contrario, refere-se a ela quando se trata de decidir condutas secundârias, exerce explicitamente um contrôle regulador sobre todas as atitudes. Quanto à intençâo fingi- da de dizer a verdade ("Nâo queria te enganar, é verdade, juro", etc.), sem duvida é objeto de uma negaçâo mtima, mas também nâo é reco- nhecida pelo mentiroso como
sua
 intençâo. Dissimulada, imitadora, é a intençâo do personagem que ele représenta aos olhos de seu interlocutor - mas esse personagem, precisamente porque
nâo é,
 é transcendente.Assim, a mentira nâo pôe em jogo a intra-estrutura da consciência présente; todas as negaçôes que a constituem recaem sobre objetos que, por esse fato, sâo expulsos da consciência; nâo requer, portanto,
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fundamento ontolôgico especial, e as explicaçôes solicitadas pela exis- tência da negaçâo em gérai sâo validas sem alteraçâo quando engana- mos o outro. Sem duvida, definimos a mentira idéal, e sem duvida co- mumente o mentiroso é mais ou menos vîtima de sua mentira, ficando meio persuadido por ela: mas essas formas correntes e vulgares da mentira sâo também adulteradas, intermediârias entre mentira e mâ-fé. A mentira é conduta de transcendência.Porque mentira é fenômeno normal do que Heidegger chama de "mit-sein"*. Présumé minha existência, a existência do
outro,
 minha existência para o outro e a existência do outro
 para
 mim. Assim, nâo hâ dificuldade em conceber o mentiroso fazendo com toda lucidez o pro jeta da mentira, dono de inteira compreensâo da mentira e da verdade que altéra. Basta que uma opacidade de princîpio disfarce suas inten- çôes para o
outro,
 e este possa tomar a mentira por verdade. Pela mentira, a consciência afirma existir por natureza como
oculta ao outro,
 uti- liza em proveito prôprio a dualidade ontolôgica do eu e do eu do outro.Nâo pode dar-se o mesmo no caso da mâ-fé, se esta, como dis- semos, é mentir a si mesmo. Por certo, para quem pratica a mâ-fé, trata- se de mascarar uma verdade desagradâvel ou apresentar como verdade um erro agradâvel. A mâ-fé tem na aparência, portanto, a estrutura da mentira. Sô que - e isso muda tudo - na mâ-fé eu mesmo escondo a verdade de mim mesmo. Assim, nâo existe neste caso a dualidade do enganador e do enganado. A mâ-fé implica por essência, ao contrârio, a unidade de
uma
 consciência. Nâo significa que nâo possa estar condi- cionada pelo "mit-sein", como em gérai dâ-se com todos os fenômenos da realidade humana, mas o "mit-sein" sô pode solicitar a mâ-fé apre- sentando-se como uma
situaçâo
 que a mâ-fé permite transcender; a mâ- fé nâo vem de fora da realidade humana. Nâo se sofre a mâ-fé, nâo nos infectamos com ela, nâo se trata de um
estado.
 A consciência se afeta a si mesma de mâ-fé. Sâo necessârios uma intençâo primordial e um pro-  jeto de -fé; esse projeto encerra uma compreeno da mâ-fé como tal e uma apreensâo pré-reflexiva (da) consciência afetando-se de mâ-fé. Segue-se primeiramente que aquele a quem se mente e aquele que mente sâo uma sô e mesma pessoa, e isso significa que eu, enquanto enganador, devo saber a verdade que é-me disfarçada enquanto enga-
* Em alemâo, "ser-com" (N. do T.).
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