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O Nascimento Das Fabricas (Edgar de Decca)

O Nascimento Das Fabricas (Edgar de Decca)

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O Nascimento das Fábricas
(Decca)INTRODUÇÃO
Dentre todas as utopias criadas a partir do século XVI, nenhuma serealizou o desgraçadamente como a da sociedade do trabalho.Fábricas-prisões, fábricas-conventos, fábricas sem salário, que aosnossos olhos adquirem um aspecto caricatural, foram sonhosrealizados pelos patrões e que tornaram possível esse espetáculoatual da glorificação do trabalho. Para se ter uma idéia da forçadessas utopias realizadas impregnando todos os momentos da vidasocial a partir do século XIII, basta considerarmos a transformaçãopositiva do significado verbal da própria palavra trabalho, que até aépoca Moderna sempre foi sinônimo de penalização e de cansaçosinsuportáveis, de dor e de esforço extremo, de tal modo que a suaorigem só poderia estar ligada a um estado extremo de miséria epobreza. Seja a palavra latina e inglesa
labor,
ou a francesa
travail,
ougrega
 ponos 
ou a alemã
 Arbeit,
todas elas, sem exceção, assinalam ador e o esforço inerentes à condição do homem, e algumas como
 ponos e Arbeit 
têm a mesma raiz etnológica que pobreza
(penia e  Armut 
em grego e alemão, respectivamente).Essa transformação moderna do significado da própria palavratrabalho, em sua nova positividade, representou também o momentoem que, a partir do século XVI, o próprio trabalho ascendeu da “maishumilde e desprezada posição ao vel mais elevado e à mais valorizada das atividades humanas, quando Locke descobriu que otrabalho era a fonte de toda a propriedade. Seguiu seu curso quando Adam Smith afirmou que o trabalho era a fonte de toda a riqueza, ealcançou seu ponto culminante no “sistema de trabalho” de Marxonde o trabalho passou a ser a fonte de toda a produtividade eexpressão da própria humanidade do homem” (Hannah Arendt,
La Condición Humana,p. 139).
 A dimensão crucial dessa glorificação do trabalho encontrou suportedefinitivo no surgimento da brica mecanizada, que se tornou aexpressão suprema dessa utopia realizada, alimentando, inclusive, asnovas ilusões de que a partir dela não há limites para a produtividadehumana.Essa descoberta delirante da fábrica como lugar, por excelência, noqual o trabalho pode se apresentar em toda a sua positividade não sóalimentou as projeções dos apologistas da sociedade burguesa, comotambém a de seus próprios críticos, na medida em que ela foi1
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entendida como o momento de uma liberação sem precedentes dasforças produtivas da sociedade. Assim, a fábrica ao mesmo tempo queconfirmava a potencialidade criadora do trabalho anunciava adimensão ilimitada da produtividade humana através da maquinaria.Para esse pensamento movido pela crença do poder criador dotrabalho organizado, a presença da máquina definiu de uma vez portodas a fábrica como o lugar da superação das barreiras da própriacondição humana. “A invenção da máquina a vapor e da máquina paratrabalhar o algodão”, escrevia Engels em 1844, “deu lugar como ésobejamente conhecido a uma Revolução Industrial, que transformoutoda a sociedade civil”. Essa imagem cristalizada já no pensamentodos homens do culo XIX apagou todo o percurso sinuoso daorganização do trabalho da época Moderna, ao reduzirdefinitivamente a fábrica a um acontecimento tecnológico.Contudo, os ecos das resistências dos homens pobres a sesubmeterem aos rígidos padrões do trabalho organizado são audíveisdesde o século XVII e assinalam a presença da fábrica a partir de ummarco distinto daquele definido pelos pensadores do século XIX. Aqueles primeiros homens, que se viram constrangidos pela pregaçãomoral do tempo útil e do trabalho edificante, sentiram em todos osmomentos de sua vida cotidiana o poder destrutivo desse novoprinpio normativo da sociedade. Sentiram na própria pele atransformação radical do conceito de trabalho, uma vez que essa novapositividade exigiu do homem pobre a sua submissão completa aomando do patrão.Introjetar um relógio moral no coração de cada trabalhador foi aprimeira vitória da sociedade burguesa, e a fábrica apareceu desdelogo como uma realidade estarrecedora onde esse tempo útilencontrou o seu ambiente natural, sem que qualquer modificaçãotecnológica tivesse sido necessária. Foi através da porta da fábricaque o homem pobre, a partir do século XVIII, foi introduzido aomundo burguês. A reflexão que agora propomos visa ultrapassar a imagem cristalizadaque o pensamento do século XIX produziu sobre a fábrica, reduzindo-aa um acontecimento tecnológico.Nosso intuito é desfazer o manto da memória da sociedade burguesa ereencontrar a fábrica em todos os lugares e momentos onde estevepresente uma intenção de organizar e disciplinar o trabalho através2
 
de uma sujeição completa da figura do próprio trabalhador. Por isso,os leitores não devem se surpreender quando no decorrer do textoencontrarem no engenho de açúcar da colônia o esboço da fábrica queiria produzir o futuro operário europeu.
NUNCA TEMOS TEMPO PARA SONHAR
"Todas as pessoas que se encontram trabalhando nos teares mecânicos estão ali de modo forçado, porque não podem existir de nenhum outro modo; via de regra são pessoas cujas famílias foram destruídas e seus interesses arruinados... têm a tendência de ir como pequenas colônias colonizar esses moinhos”.
Inspetor governamental inglês (1834)
Quando nos defrontamos hoje com a impossibilidade de criarsituações de conhecimento que interrompam ou invertam a lógica deum processo, designado real, podemos nos perguntar sobre osdispositivos que regem a ordem de domínio da sociedade. Sejamosexplícitos desde o prinpio. Estamos falando, no caso, de umaincapacidade imposta ao social, por ordem de um determinadodomínio que retira dos homens a própria dimensão do pensar, comoalgo além do já
dado .
Dentro daquilo que nos interessa, determinadas respostas sãobastante conhecidas. Por exemplo, quando falamos da produção deconhecimentos técnicos que não conseguem se impor socialmente,buscamos a resposta, via de regra, no nível do próprio mercado. Assim, uma tecnologia é ineficaz porque o consegue romper abarreira da concorrência imposta por uma ordem implacável. Nessesentido, a conclusão é imediata. Não existem outras tecnologias alémdaquelas conhecidas, porque o próprio mercado se responsabiliza emeliminar as “menos eficazes”. Contudo, deveamos ser menosinnuos em queses que colocam explicitamente em jogo asrelações de dominação social. Em outras palavras, as relações demercado vão bem mais além do que as puras determinõeseconômicas. O estabelecimento do mercado é também oestabelecimento de um dado registro do real, no qual os homenspensam e agem conforme determinadas regras do jogo. Assim, omercado o ime aos homens determinadas tecnologias“eficazes”, como também impede que lhes seja possível pensar outrastecnologias.3

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